ATMOS, o conceito de artilharia israelense

Dando continuidade a série de artigos sobre os principais concorrentes do projeto da viatura blindada de combate obuseiro autopropulsado 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 SR), iniciado com o CAESAR, Tecnologia & Defesa apresenta a proposta da Elbit Systems, o ATMOS, um conceito cuja grande vantagem é a sua modularidade, que permite atender a todas as demandas do cliente.

 Por Paulo Roberto Bastos Jr.

O Estado de Israel, apesar de ser um país relativamente novo, tendo sido fundado em 1948, já nasceu lutando para preservar seu território e sua população, o que o torna um dos mais experientes quando o assunto é defesa.

Com uma disponibilidade de recursos bem inferior que de seus inimigos, os israelenses desde cedo aprenderam a fazer bem uso de todo tipo de equipamento que caía em suas mãos e adaptá-los para atender suas necessidades, porem, sempre que possível, dotando-os de inovações que fizessem diferença no campo de batalha, mas sem perder as características de simplicidade e de baixa necessidade logística. No campo da Artilharia, arma muito importante para os conflitos que se desenrolaram, esse conceito foi aplicado com maestria.

História

Mesmo antes de sua independência, Israel se envolveu em conflitos com seus vizinhos árabes, culminando na chamada “Guerra da Independência”, travadas desde as fronteiras do Líbano até a Península do Sinai, e que custou aos israelenses a perda de mais de 6.000 vidas e 15.000 feridos, que impactou diretamente no futuro da nação.

Uma unidade de artilharia israelense durante a Guerra de Independência (Foto: US Holocaust Memorial Museum)

No final dos anos 40, as Forças de Defesa de Israel (IDF) possuíam apenas algumas peças de artilharia, a grande maioria morteiros, adquiridos ilegalmente das sobras da Segunda Guerra Mundial ou capturadas dos inimigos. Já em meados dos anos 50, havia adquirido cerca de 160 obuseiros britânicos de 25 libras (88 mm), 34 franceses Model 50, de 155 mm e 30 calibres (que foram instalados em chassis do carro de combate M4 Sherman), e 24 viaturas autopropulsadas ​​AMX-13 Mk 61, de 105 mm, além de possuir cerca de 300 morteiros de 120 mm (a maioria deles adaptados em viaturas blindadas meia-lagartas) e 300 obuseiros de 6 libras (57 mm). No final dos anos 60, foram adicionados cerca 40 obuseiros de 25 libras capturados e36 obsoletos autopropulsados M7B2 Priest, de 105 mm, adquiridos usados da Alemanha Ocidental.

Obuseiro autorebocado M-71 (Foto: IDF)

A fim de modernizar e padronizar sua força, a empresa finlandesa Oy Tampella Ab foi contratada para auxiliar no desenvolvimento de um obuseiro de 155 mm e 33 calibres, o M-68, baseado em seu modelo 155 K 68. O primeiro protótipo ficou pronto em 1968 e, sua produção foi iniciada, em 1970, na empresa Soltam (atual Elbit Systems), sendo amplamente utilizado pela IDF e exportado para Singapura e Malásia. Aproveitando do sucesso do, em 1975, iniciou a produção do M-71, com um tubo de 39 calibres, que garantia um maior alcance e que teve um sucesso de vendas ainda maior, sendo utilizado por uma dezena de países, e sendo produzido na África do Sul com o nome de G4.

Concebidos para serem obuseiros autorebocados, suas qualidades operacionais fizeram com que rapidamente fossem transformados em autopropulsados, utilizando diversas plataformas disponíveis, sendo os mais famosos o Ro’em, que utilizava o M-68 em um M4 Sherman americano (e que foi provado em combate na Guerra do Yom-Kippur), e o M-72 Roesh, com o M-71 em um chassi do carro de combate britânico Centurion.

Obuseiro autopropulsado Ro’em (Foto: IDF)

 

Nasce um conceito

No final da década de 90, a Soltam começou os estudos conceituais para utilizar seus obuseiros de 155 mm em viaturas sobre rodas, em um sistema de armas similar aos ShKH vz. 77 DANA, da antiga Checoslováquia, G6 Rhino, da África do Sul, e o CAESAR, da França, porém, ao contrário destes, ele já nasceria como multiplataforma e multiarmamento, pois a ideia era utilizar a experiência da empresa nas montagens dos obuseiros da IDF, para oferecer ao mercado internacional uma solução adaptável a quaisquer necessidades, surgindo o Self-Propelled Wheeled Gun, ou simplesmente SPWG.

Em 2001 foi apresentado o primeiro protótipo com o nome de ATMOS 2000, acrônimo para Autonomous Truck MOunted howitzer System, onde um obuseiro M-71, com 39 calibres, foi montado sobre um chassi Tatra 815-7, 6X6 e com cabine blindada. Este foi intensamente testado pela IDF, que efetuou mais de 1.000 disparos, porém, desde o inicio de sua concepção, foi pensado como um produto para exportação.

O protótipo do ATMOS 2000 em testes na IDF (Foto: Internet)

Como os obuseiros autopropulsados sobre rodas tendem a ter custos de aquisição e operação menores que seus equivalentes sobre lagartas, além de possuírem uma capacidade de mobilidade mais autônoma, dispensando viaturas transportadoras, a ideia era oferecer ao mercado uma solução totalmente customizável, que se adaptassem as necessidades operacionais de quaisquer forças.

A capacidade multiplataforma deste sistema impressiona, pois além do chassi Tatra, também pode utilizar o alemão Rheinmetall MAN ou o russo Kamaz, com sistemas tração 6X6 ou 8X8, e as mais variadas configurações de cabine, mas podendo utilizar a qualquer plataforma indicada pelo cliente, desde suporte o armamento. Já seu sistema de armas também bem flexível, já estando em operação com os obuseiros Soltam com comprimento de tubos de 39, 45 e 52 calibres, além dos russos D30, de 122 mm, e M46, de 130 mm.

Este conceito logo chamou a atenção de diversos países que viram uma possibilidade de criar seus próprios obuseiros autopropulsados e, já em 2003, a Romênia o utilizou para desenvolver o ATROM, com um obuseiro de 155 mm e 52 calibres, sobre a plataforma de um DFAEG 26.360 6X6, e o Azerbaijão o SEMSER, com um D30 sobre um Kamaz 6350 8X8. Além destes, também foi exportado para Ruanda, que adquiriu o primeiro exemplar do ATMOS 2000, e Azerbaijão, que adquiriu seis unidades da versão M46.

Em 2010 a Elbit Systems absorveu a Soltam e deu continuidade às ofertas deste sistema, fornecendo para Uganda (6 unidades), Botsuana (5), Zâmbia (6, da versão D30), Filipinas (36) e Dinamarca, um país da OTAN, que recentemente anunciou a aquisição de 19 unidades. Também está sendo produzido na Tailândia, com o nome de M758 ATMG (Autonomous Truck Mounted Gun), cujo seu Exército encomendou 24 unidades e os Fuzileiros Navais seis, e na Polônia, que desenvolveu o KRYL, utilizando o chassi Jelcz 663.32 6X6 como plataforma, e que está em testes.

Atualmente o ATMOS se encontra em sua quinta geração, demonstrando toda a solidez do projeto, e está sendo avaliados por diversos países, dentre eles a Colômbia, que pretende adquirir até 18 destes sistemas e que parece já ter escolhido o modelo israelense.

Para o Brasil

A Elbit está estudando a melhor solução para apresentar em sua proposta ao Exército Brasileiro (EB), principalmente sobre qual plataforma atenderá melhor às suas necessidades, podendo ser o Volkswagen-MAN Constellation 31-320, de 10 toneladas, muito utilizado nas suas unidades de Artilharia, o Tatra 815-7, que equipa as viaturas do sistema ASTROS 2020 e já é operado por diversos usuários do ATMOS, ambos com tração 6X6, ou mesmo outra plataforma, que, dependendo da configuração escolhida, poderá ter capacidade de ser embarcado em aeronaves KC-390 Millennium e C-130 Hercules, que é um requisito desejável.

Existem diversas opções de plataformas disponíveis para este sistema de armas, podendo ser 8X8 ou 6X6 (Foto: Elbit)

A cabine será blindada, com proteção balística que ofereça proteção à penetração de projéteis de calibres 7,62x51mm, e capacidade para acomodar toda a guarnição do sistema, equipada e armada, composta por seis militares (motorista, chefe de peça e até quatro miltares), garantindo proteção em ambientes contaminados por agentes químicos, biológicos, radiológicos e nucleares (QBRN) e para casos de explosões de minas anticarro ou artefatos explosivos improvisados.

O armamento principal será composto por um obuseiro de 155 mm e 52 calibres, que demonstrou um alcance de 41 km utilizando um projétil do tipo ERFB-BB (“Extended Range Full Bore – Base Bleed”), mas que também podem utilizar, sem restrições, todos os tipos de munição de qualificadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), incluindo as munições inteligentes ou mais antigas, como o projétil M107, de alto explosivo (HE), ainda em uso pelo EB. O tubo é produzido pela Elbit Systems, desde 1950, sendo uma referência mundial, com centenas de sistemas fabricados e testados em combate.

O sistema de carregamento pode ser manual ou semi-automático, sendo que este último que reduz a carga de trabalho da tripulação e aumenta sua a cadência, que é de até oito disparos por minuto, mas que pode ser utilizado na modalidade chamada de “atire e fuja”, disparando uma salva de seis tiros em menos de 110 segundos e evadindo da posição, evitando o fogo de contrabateria.

Possui um conjunto eletrônico embarcado completo, que pode ser integrado com o sistema C4I utilizado pelo cliente, em todos os níveis, e que permite uma precisa navegação e operação autônoma, reduzindo a guarnição e otimizando o poder de fogo. No caso do Brasil, poderá ser complementado com os sistemas desenvolvidos pela empresa AEL Sistemas, de Porto Alegre (RS), subsidiária da Elbit Systems, como o rádio definido por software RDS-Defesa, contratado pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx), e outras soluções de comunicações e data link, e integrada ao GÊNESIS, um moderno sistema computadorizado de coordenação e direção de tiro, em nível de brigada, desenvolvido pela da Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) e já em operação no EB.

O principal armamento da solução a ser proposta para o EB é o tubo de 155 mm e 52 calibres, com alcance superior a 40 km (Foto: Elbit)

Sua montagem final poderia ser feita na empresa Ares Aeroespacial e Defesa, de Duque de Caxias (RJ), outra subsidiária da Elbit e tradicional parceira da Força Terrestre, que já possui larga experiência na fabricação, montagem, manutenção e assistência técnica de estações de armas para sistemas terrestres, como os sistemas REMAX e UT30BR. A empresa poderá assumir todo o suporte logístico, efetuando a manutenção dos equipamentos em suas instalações ou nas próprias unidades militares.

De acordo com Jorgito Stocchero, gerente de desenvolvimento de negócios da AEL, “esse é um diferencial importante do ATMOS: as capacidades já instaladas da AEL e ARES no Brasil possibilitam tirar o máximo proveito do seu conceito flexível, permitindo desenvolver novas capacidades com uma integração eficiente ao sistema de C4I do Exército, contribuindo com apoio de fogos oportuno e confiável às plataformas mecanizadas e blindadas. Nesse sentido, os primeiros protótipos do RDS Defesa integrados ao Guarani foram apresentados pelo CTEX na Mostra BID Brasil 2022, permitindo a comunicação por voz e dados com criptografia nacional. Este ano a AEL entregará ao CTEX um lote de 16 rádios, concluindo o processo de desenvolvimento e o deixando em condições de ser empregado para a interoperabilidade não só entre as diversas plataformas do Exército, mas também com as demais Forças Singulares”.

Já Frederico Medella, diretor comercial e marketing da ARES, declara: “O bom histórico de parceira com o Exército Brasileiro na execução de projetos estratégicos; os investimentos que vendo sendo realizados na ARES e na AEL ao longo dos anos, principalmente na ampliação de suas instalações, aquisição de maquinário avançado, capacitação dos engenheiros e em P&D; a vivência das empresas em projetos de transferência de tecnologias; a experiência acumulada em projetos bem sucedidos de nacionalização de componentes no Brasil; bem como a estrutura de suporte logístico já implementado pelas empresas no território nacional, criam condições muito favoráveis para o EB e o grupo Elbit juntos atingirem o sucesso do projeto do obuseiro autopropulsado sobre rodas.”

Conforme observado, a flexibilidade que o sistema ATMOS oferece, torna-o um forte candidato para o projeto da viatura blindada de combate obuseiro autopropulsado 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 SR), do EB, cujos requisitos foram aprovados em 2018 e que visa à obtenção de um total de até 36 unidades desse sistema de Artilharia, com capacidade de engajamento de alvos de forma rápida, eficaz e sistêmica a distâncias de até 40 km, para equipar de dois a três grupos da Artilharia divisionária e brigada mecanizada. Além disso, a possibilidade de integração a outros programas em andamento e permitindo uma maior participação da Base Industrial de Defesa do Brasil, pode ser traduzido em uma maior “autonomia” para a Força Terrestre.

Em agosto de 2022, uma comitiva do EB esteve em Israel e acompanhou uma demonstração de tiro do ATMOS em Negev (Fotos: Elbit)

 

Nota do autor: Este será um artigo em duas partes, sendo que a segunda, com caráter mais técnico em relação às capacidades e características deste sistema de armas, será publicada assim que for definida a plataforma e os demais componentes serem utilizados na proposta israelense para o EB.

P.R.B.J.

 

 

 

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Comentários

11 respostas

  1. Acredito que em algum momento do futuro próximo, teremos problemas com países da OTAN, daí porque acredito que o ATMOS sejs a melhor solução dob o ponto de vista geopolítico. Inclusive acredito que podemos criar uma linha de produção aqui, obviamente adquirindo mais que as 36 unidades aventadas.

  2. Segundo circula internamente, um Grupo será o da 4ª Bda CMec. Um será o 26 GAC da 15ª Bda Inf Mec. É o último será determinado pela AD/3. Provavelmente, o da 2ª Bda C Mec.

  3. Parabéns pela matéria bem completa Paulo Bastos….estou tentando descobrir quantas munições a versão 6×6 carrega internamente nesses cases laterais e se o ressuprimento desses cases são realizados manualmente ou se existe algo automatizado como é no M992, um dos grandes problemas da artilharia sempre foi o transporte de munições para garantir continuidade nas operações.

    1. Rafael, a quantidade de projéteis e cargas transportadas dependem do chassi e da configuração escolhida.

  4. Excelente matéria Bastos. Particularmente espero que o Atmos vença, acredito que tenha custo inferior ao do Caesar e sua modularidade é um grande diferencial, já se utiliza de plataforma Tatra e creio que cairia como uma luva no Chassi Tatra utilizado pelo sistema Astros.

  5. Parabéns pela matéria, ela me faz recordar sobre algo que é ate interessante falar, recentemente me deparei com um obuseiro com base no chassi do hunvee, pelas informações, é ainda um protótipo para ser usado pelos marines americanos, considerando a capacidade de transporte aéreo, seria viável um modelo semelhante na base de algum veiculo militar já produzido no Brasil, para ser integrado as forças paraquedistas e de fuzileiros se produzirmos ou adquirirmos no futuro?

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