ESPECIAL TECNOLOGIA NACIONAL: SARC REMAX

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Por Paulo Roberto Bastos Jr e Hélio Higuchi

O avanço tecnológico no Brasil não se deu de forma progressiva nem constante, ele ocorreu em saltos e isso se deve, e em boa parte, ao fato de seu grande financiador ser o Governo Federal. Mudanças de prioridades políticas, alinhamentos internacionais e, principalmente, o momento econômico por qual passa a nação, impacta diretamente na oferta de recursos, ou na falta desses, para o financiamento de pesquisas em nosso país. E no caso da tecnologia bélica, as Forças Armadas sempre foram o principal agente fomentador do Governo.

Após anos de estagnação, resultante das diversas crises econômicas que o país viveu desde meados da década de 80, houve uma retomada da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico depois da virada do século, em diversos programas, e começaram a novamente movimentar a nossa Base Industrial de Defesa (BID).

Tecnologia & Defesa iniciam hoje uma série de matérias que pretende contar a história de diversos desses sistemas, apresentando todas as dificuldades e desafios enfrentados, e vencidos, por nossos técnicos e engenheiros. E para começar escolhemos um dos maiores sucessos desse período, e ao mesmo tempo pouco conhecido, o Sistema de Armamento Remotamente Controlado do Reparo de Metralhadora Automatizada X (SARC REMAX), mas antes teremos que contar um pequeno resumo de como se chegou aos dias atuais.

 

HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO NO EB

No Exército Brasileiro (EB), a pesquisa em ciência e tecnologia, nos moldes que conhecemos hoje, inicia-se no início da década de 40, com o recebimento de missões militares norte-americanas para assistência as nossas Forças Armadas, e isso acabou resultando na criação de algumas Organizações Militares (OM) específicas para esse fim, como por exemplo, o Instituto Militar de Tecnologia (IMT), em 1941, o Arsenal da Urca (AU), em 1944, o Serviço de Tecnologia (ST), em 1946, e o Instituto Militar de Tecnologia (IMT), em 1949, sendo que esse último se fundiu à Escola Técnica do Exército (EsTE), criando o Instituto Militar de Engenharia (IME), em 1959.

Já o Serviço de Tecnologia evoluiu, recebendo, sucessivamente diversas denominações, como Diretoria de Estudos e Pesquisas Tecnológicas (DEPT), Diretoria de Pesquisas Tecnológicas (DPT), novamente Diretoria de Estudos e Pesquisas Tecnológicas (DEPT), Diretoria-Geral de Pesquisas e Provas (DGPP) e Diretoria de Pesquisa e Ensino Técnico (DPET), até que, em 1979, recebeu sua atual denominação de Centro Tecnológico do Exército (CTEx), que se estruturou, a partir da década de 80, com o Campo de Provas da Marambaia (CPrM), Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD) e Instituto de Projetos Especiais (IPE), sendo que esse último foi absorvido pelo IPD em 2001.

Em 2005, com a chegada do General Alberto Mendes CARDOSO a chefia da a Secretaria de Ciência e Tecnologia (STC), esta fundiu-se à Secretaria de Tecnologia da Informação (STI), dando origem ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), que absorveu toda a área de pesquisa, desenvolvimento e fabricação de Material de Emprego Militar (MEM), atualmente denominados Sistemas e Materiais de Emprego Militar (SMEM), e todas as OM envolvidas ficaram sob sua subordinação.

Estrutura criada para o DCT

O General Cardoso, com o apoio de seu Vice-Chefe, o General UBIRATAN Athayde Marcondes (atual Gerente de Sistemas Terrestres da Empresa ARES Aeroespacial e Defesa), elaborou o Plano Básico de Ciência e Tecnologia (PBCT), que fixou ações estratégicas alinhadas ao Planejamento Estratégico do Exército vigente à época e que atendia à visão de futuro de buscar um patamar tecnológico com valor dissuasório.  Desta forma, foi possível nortear todo seu desenvolvimento, buscando a independência tecnológica em áreas estratégicas de defesa.

Antes da criação do DCT, o CTEx já possuía, à época, diversas áreas de desenvolvimento experimental, estruturado em Divisões que tratavam com tecnologia da informação, viaturas, blindados, etc…, porém, após a implementação do PBCT, foram criados os Grupos Finalísticos do DCT, que passaram, a utilizar tanto a infraestrutura e recursos humanos das Divisões e Seções do CTEx quanto de outras Organizações Militares do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército (SCTIEx). Essa nova estrutura de Grupos Finalísticos trouxe o conceito de matricialidade e transversalidade para os projetos, cujo objetivo era compartilhar e otimizar recursos humanos e financeiros entre as diversas OM do DCT, nas diferentes áreas de atuação do Departamento (Guerra Eletrônica, Optrônicos, Comando e Controle, Armamento e Munição, Veículos Militares, Mísseis e Foguetes, Radares e Defesa QBRN).

Em 2006, o General Aléssio RIBEIRO SOUTO assume o CTEx trazendo o conceito de planejamento de médio/longo prazo, e todos os projetos de pesquisa e desenvolvimento passaram a trabalhar com programações plurianuais.

 

NASCE O REMAX

Em 2005, com a conclusão do Projeto do Morteiro 120 mm e suas munições, houve a possibilidade de alocar recursos humanos em um dos objetivos do PBCT a cargo do Grupo de Armamento e Munição (GAM), cujo Chefe era o então Capitão Marcello Menezes EIFLER, que era “Pesquisar e Desenvolver uma Torre 105 mm para Carro de Combate”, em princípio, destinada a Nova Família de Blindados, que em 2007 se transformaria no Programa Estratégico do Exército (Prg EE) GUARANI.

Logo de início identificou que, devido à falta de experiência do CTEx com os sistemas eletrônicos embarcados em uma torre desse tipo, não haveria condições, a curto prazo, de se projetar tal sistema, estudando a possibilidade de partir para uma torre mais simples, como forma de absorver conhecimento para o desenvolvimento de torres maiores e mais complexas.

A oportunidade para um projeto mais simples surgiu das tropas brasileiras que participavam da Missão de Paz das Nações Unidas no Haiti (Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haïti – MINUSTAH), que tiveram que enfrentar ex-militares das Forças Armadas Haitianas (extintas em 1994, por Jean Bertrand Aristide), ex-policiais e bandidos comuns, organizado em milícias destinadas a controlar algumas áreas na capital Port au Prínce, e armados com os mais variados tipos de armas leves, desde carabinas M-1 Carbine a fuzis M1 Garand e AK-47, que forçaram as tropas brasileiras a adaptar-se um novo e peculiar tipo de confronto.

Esses confrontos obrigavam a criação de novas táticas, e improvisação de equipamentos para proteger nossos militares, e um ponto muito crítico era a exposição do  operador da metralhadora de apoio do VBTP 6×6 ENGESA EE-11 Urutu, a tiros, que obrigou ao desenvolvimento de diversos modelos de torres protegidas pelo CTEx e Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), e o estudo da utilização de um Sistema de Armas Remotamente Controlado

(SARC), havendo inclusive, no final de 2007, a instalação de um SARC CWS 30, da israelense RAFAEL Advanced Defense Systems, com a metralhadora 7,62mm MAG, em um VBTP 6×6 Urutu para avaliação. Diante dessa demanda, o CTEx/GAM vislumbrou a possibilidade de desenvolver um SARC nacional.

Um dos modelos de torre utilizados pelo EB no Haiti (Foto Ricardo Furlan)

É importante frisar que, nos últimos conflitos armados, principalmente em áreas urbanas, houve uma intensa utilização de SARC, conhecidas internacionalmente pela sigla RWCS (Remote Controlled Weapon Station), na qual o atirador fica posicionado no interior da viatura, onde realiza as operações remotas de pontaria e disparo do armamento. No exterior da viatura permanece somente o armamento, o reparo e os sistemas de observação de alvos, constituídos principalmente por câmeras diurna e noturna. A versão mais moderna desses materiais incorpora também um sistema de estabilização, permitindo a realização do tiro com a viatura em movimento. (EIFER, 2012)

Devido a uma demanda de aparelho de pontaria para os novos morteiros de 120 mm, o Capitão EIFLER, chefe do GAM, teve contato com Ricardo Campelo, da empresa Periscópio Equipamentos Optrônicos Ltda (futuramente ARES), para ver o sistema SPOTIM (Sistema de Pontaria para Tiro Indireto de Morteiros), desenvolvido pela empresa. Durante a apresentação desse sistema, ele conheceu o sistema IVERA (Indicador Visual Estabilizado de Rampa de Aproximação), que era um equipamento desenvolvido para fornecer aos pilotos de helicópteros a indicação visual estabilizada da rampa de aproximação para pouso em embarcações. EIFLER imediatamente identificou naquele sistema a solução para a lacuna de capacidade tecnológica que faltava ao CTEx para criar um SARC nacional: o sistema de estabilização.

Depois dessa descoberta, do estreitamento de contatos com a empresa e após extensa pesquisa internacional, no segundo semestre 2006, é que surge o “Projeto básico de pesquisa, desenvolvimento e produção de um protótipo de REPARO DE METRALHADORA AUTOMATIZADO X (REMAX)”, sendo que esse acrônimo foi criado pelo General RIBEIRO SOUTO.

Já nos requisitos iniciais do projeto do SARC REMAX, ficou claro o pragmatismo empregado pelo EB, buscando concentrar seus poucos recursos em sistemas para seu Teatro de Operação (TO), pois o  SARC seria desenvolvido inicialmente para utilizar apenas como armamento as metralhadoras Browning M2HB .50” (12,7×99 mm) e FN MAG 7,62×51 mm, não sendo previsto um Lançador Automático de Granadas (LAG) de 40mm, muito comum nesse tipo de sistema, pelo fato de o EB não possuir esse armamento embarcado em viaturas e ser algo que poderia atrasar o seu desenvolvimento, principalmente na fase de testes e homologação. Isso já é um fruto de experiência do próprio EB, que sabe que ao priorizar suas capacidades existentes, além de conhecer suas limitações, economiza recursos e acelera o desenvolvimento de seus projetos, aumentando suas chances de sucesso.

Outra premissa muito importante, e que merece destaque, é o fato dessa torre ter sido projetada desde sua concepção inicial com uma arquitetura modular, que permitisse a implementação de componentes que agregassem diferentes funcionalidades, e multiplataforma, para poder ser integrado em quaisquer viaturas blindadas do EB com teto rígido (Urutu, Guarani, M113, Leopard, etc…) com um mínimo de modificações.

Em dezembro de 2006, foi celebrado o contrato nº 004/2006-CTEx, para pesquisa, desenvolvimento e produção do protótipo experimental, chamado REMAX 1, com a empresa nacional ARES Aeroespacial e Defesa Ltda (antiga Periscópio), no valor de R$ 1.245.000,00 e com prazo para conclusão do serviço até dezembro de 2008.

REMAX 1 em testes (Foto Cel EIFLER)

Esse foi um contrato por inexigibilidade de licitação, em virtude da singularidade do objeto (primeiro SARC a ser desenvolvida no hemisfério sul e com tecnologias não totalmente dominadas na época) e notória especialização da empresa, que detinha a tecnologia para o desenvolvimento do sistema de estabilização terrestre, porém, é importante destacar que, toda a propriedade intelectual do REMAX 1, estabelecida no citado contrato, foi de 100% para o EB.

No primeiro semestre de 2009 foi apresentado um modelo de exposição (mock-up) do REMAX, já integrado no modelo de exposição da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal – Média Sobre Rodas (VBTP-MSR) 6×6 Guarani, durante a feira Latin America Aero & Defence (LAAD), consistindo na primeira etapa das atividades de integração do protótipo.

A apresentação do modelo de exposição da VBTP-MSR 6×6 Guarani com a REMAX na LAAD 2009 (FOTO ARES)

O desenvolvimento do protótipo experimental foi concluído no segundo semestre de 2009, quando se verificou que o protótipo da VBTP-MSR 6×6 Guarani não estaria pronto para que a integração definitiva do REMAX 1 fosse realizada. Sendo assim, foi solicitado ao DCT uma VBTP 6×6 Urutu, com o objetivo de que o sistema pudesse ser integrado a uma plataforma veicular sobre rodas, dando início as atividades da apreciação a cargo do Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

Em outubro de 2009 foi celebrado outro contrato com a ARES, o nº 004/2009-CTEx, para a obtenção de um segundo protótipo operacional, chamado REMAX 2, cujo objetivo era de permitir o início das atividades de integração do REMAX na VBTP-MSR 6×6 Guarani em paralelo à apreciação do protótipo experimental que estava sendo realizada pelo CAEx. A configuração desse protótipo agregou também algumas características e funcionalidades ao projeto do protótipo experimental, resultado da experiência obtida com os testes de desenvolvimento realizados em laboratório e no campo e que contribuíram para aumentar a segurança e o desempenho do sistema. Seu valor foi de R$ 893.582,00 e o prazo para conclusão do serviço era até agosto de 2010. A propriedade intelectual do protótipo operacional do REMAX 2, estabelecida no contrato, também foi de 100% para o EB. (EIFER, 2012)

Em junho de 2010, depois de um período de treinamento de pessoal, para operação do REMAX realizado pelo CTEx e manutenção da VBTP Urutu (disponibilizado pelo AGSP), foi iniciada apreciação do protótipo experimental. Os testes da apreciação do REMAX 1 foram divididos em 4 grupos principais: testes funcionais, testes em estativa, testes com REMAX integrado no Urutu (viatura parada/alvo fixo e viatura em movimento/alvo fixo) e testes ambientais.

REMAX 1 integrada a VBTP EE-11 Urutu durante os testes (Foto Cel EIFLER)

Em setembro de 2011, foi concluída a produção do protótipo operacional (REMAX 2) que, em fevereiro de 2012, foi instalada na Viatura Blindada de Patrulhamento e Emprego Dual (VBPED), para os testes iniciais para apreciação do protótipo e, com os resultados sendo considerados satisfatórios, em 25 de julho de 2012, foi homologado o Relatório de Apreciação do CAEx, através da Portaria nº 024/DCT.

Em 2013, o REMAX 2 foi finalmente integrada no protótipo do VBTP-MSR 6×6 Guarani, após várias tratativas junto a Gerência do Projeto e a IVECO Veículos de Defesa, que desenvolveu o projeto com o Exército, e esta foi oficialmente apresentada ao público na LAAD 2013.

REMAX 2 integrado ao protótipo da VBTP-MSR 6×6 Guarani, em 2013 (Foto IVECO)

Ao longo do desenvolvimento dos dois protótipos houve a necessidade da celebração de Termos Aditivos aos contratos originais, visando adequar o planejamento inicial das atividades (prazos de entrega dos pacotes de trabalho e vigência dos contratos) dos mesmos ao complexo contexto em que o projeto estava inserido. Esses Termos Aditivos foram celebrados para adequar os prazos contratuais aos atrasos na importação de alguns itens (giroscópio e câmera termal), a dificuldades de alinhamento do cronograma de atividades do CTEx com o planejamento das atividades do Projeto da VBTP-MSR 6×6 Guarani (relativas à integração do REMAX) e na atualização da configuração do protótipo operacional.

A premissa de projeto adotada para a obtenção do protótipo operacional (REMAX 2), em paralelo ao desenvolvimento e avaliação do protótipo experimental (REMAX 1), foi a de que a configuração do protótipo operacional provesse uma segurança e desempenho igual ou superior ao protótipo experimental. Isso demandou, por parte da Gerência do Projeto REMAX, um forte controle da configuração do protótipo experimental durante a apreciação para que não se perdesse a rastreabilidade das alterações que foram realizadas durante a sua apreciação. O valor final do contrato após a celebração dos Termos Aditivos foi de R$ 1.072.082,00 (19,97 % acima do valor inicial) e a conclusão das entregas do projeto foi em setembro de 2011 (130 % acima do prazo inicial). (EIFER, 2012)

REMAX 3 em homologação no CAEx (Foto ARES)

 

A PRODUÇÃO EM SÉRIE E A ADOÇÃO PELO EB

Em outubro de 2012, foi celebrado o contrato nº 001/2012-DF, entre a Diretoria de Fabricação e a ARES, para a produção do lote piloto de 76 unidades de produção, chamadas REMAX 3, sendo que as duas primeiras seriam cabeças de série (CS1 e CS2) para testes estáticos, no valor de R$ 49.418.088,00. Posteriormente esse valor foi corrigido, através de um Termo Aditivo nº 2, em virtude de a empresa ser isenta de PIS e COFINS, sendo devolvida a diferença para a União (algo em torno de R$ 1.800.00,00).

Como a ARES ainda não tinha uma a estrutura para a fabricação capaz de produzir na escala desejada, solicitou ao EB uma antecipação de parte do valor do contrato para poder construí-la, o que foi prontamente atendido, e, como offset, doou mais 5 unidades do REMAX, o que elevou o total desse contrato para 81 unidades. O desenvolvimento do REMAX 3 durou um ano.

Em 2013, o CAEx iniciou os testes de desempenho nas duas cabeças de série e avaliou os manuais de operação e o de manutenção fornecidos pela ARES. Em 2014, a ARES realizou a qualificação da integração do Lote Piloto do REMAX 3 na VBTP-MSR 6x Guarani (chassi 83, LED 67) e habilitou a IVECO a proceder à instalação, sendo que para sua integração a ARES ficou responsável por componentes do kit de instalação e a IVECO pelo anel de interface, caixa de distribuição de potência e realização da integração final.

A Experimentação Doutrinária foi realizada na 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada (15ª Bda Inf Mec), que como já havia realizado a Experimentação da VBTP-MSR 6×6 Guarani e estava habilitada como Infantaria Mecanizada. Assim, já possuía uma infraestrutura preparada e pessoal especializado para receber as atividades.

O CAEx, a ARES e o 33° Batalhão de Infantaria Motorizado (33º BI Mtz) realizaram avaliações complementares no REMAX integrado na VBPT-MR 6×6 Guarani e encontraram algumas não conformidades, principalmente em relação ao módulo optrônico que, para soluciona-lo, uma equipe com membros da Diretoria de Fabricação (DF) e da ARES foram à fábrica da OIP Sensor Systems, na Bélgica, a fim de acompanhar os testes com este módulo e adquirir os conhecimentos necessários para a integração do REMAX à viatura (DAL BELLO / FIGUEIREDO / ALMEIDA, 2019).

O REMAX 3 foi exposto na LAAD 2015, instalado em uma VBTP-MSR 6×6 Guarani e nas VBMT-LSR 4×4 RTD/AVIBRAS Sherpa/Tupi, IVECO LMV e INBRA Gladiador II, todas elas com instalações plenamente operacionais.

REMAX 3 instala no protótipo do Gladiador II na LAAD 2015 (Foto Gino Marcomini, T&D)

Após as avaliações realizadas dentro do escopo da Experimentação Doutrinária, foi publicada a Portaria Nº 065-EME, de 8 de marco 2016, adotando oficialmente o Sistema de Armas Reparo de Metralhadora Automatizado X, versão 3 (REMAX 3), desenvolvido pelo Centro de Tecnologia do Exército e a empresa ARES.

Em dezembro de 2016 foi celebrado o contrato nº 186/2016-COLOG, para a produção do lote primeiro lote de produção, de 215 unidades, no valor de R$ R$ 328.057.657,39, com validade inicial de 5 anos, e que seria atendido conforme dotação orçamentária.

Já são 5 anos de operação regular do SARC REMAX, consolidando plenamente seu conceito dentro das tropas do EB, já tendo sido entregue 149 unidades, e mais 17 estão, nesse momento, no 4º Depósito de Suprimentos (4º D Sup), em Juiz de fora/MG, em processo de instalação em viaturas VBTP-MSR 6×6 Guarani e, em breve, também estarão, em oito das novas VBMT-LSR 4×4 LMV do primeiro lote, recém adquiridas pelo EB, que deverão chegar nos próximos meses, e cuja homologação ocorreu em abril.

A homologação do REMAX 3 no protótipo do VBMT-LSR 4×4 LMV, em abril desse ano, no CAEx. (Foto CAEx)

 

O FUTURO

O fato de seu projeto ser modular permite que, caso haja interesse, possa aperfeiçoá-lo de forma a aproveitar boa parte de seu projeto, seja para a instalação de um LAG de 40mm, míssil superfície-superfície (MSS), míssil antiaéreo (MSA), armas de energia dirigida (laser) ou antidrone, e até mesmo armamento de baixa letalidade para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Pode-se, por exemplo, conceber interfaces mecânicas/eletroeletrônicas para emprego de diversos sistemas de armas disponíveis no mercado de defesa, porém, levando em conta os parâmetros desses sistemas, principalmente referente a massa, para se obter o resultado almejado.

Em 2012 o REMAX 1 foi instalada na VBPED (Viatura Blindada de Patrulhamento de Emprego Dual), desenvolvida pelo CTEx, para testes (foto Cel EIFLER)

Em 2015 a ARES fez a proposta ao Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav), do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), para instalar um REMAX 3 em uma VBTP-MSR 8×8 Mowag Piranha IIIC, porem como o veículo ainda estava na garantia não se poderia fazer uma instalação correta, pois exigiria uma furação em sua estrutura. Para contornar a situação, a instalação foi executada aproveitando a furação do lançador de granadas, o que acabou resultando em uma posição menos indicada para o operador do SARC, mas demonstrando a sua incrível capacidade multiplataforma.

O SARC REMAX ficou instalado por cerca de 3 meses e participou de diversos exercícios, porém a Marinha acabou não a adotando devido à ausência de experiência com esse sistema de armas (alguns oficiais eram adeptos da torre manual), além da falta verba. O fato de haverem poucas unidades entregues e em operação no EB, na época, também causava desconfiança em relação ao projeto.

REMAX 3 instalada em um Mowag Piranha do CFN em Formosa (Foto ARES)

Em 2019 foi instalada em uma VBTP-SL M113MB1, do CFN, para demonstrar sua viabilidade, que foi certificada, e este foi exposto na LAAD 2019. Esta instalação merece destaque pelo fato de existirem estudos do EB para empregar os REMAX em seus VBTP-SL M113BR, dando maior poder de fogo aos Batalhões de Infantaria Blindada (BIB), além de possibilitar a criação de uma doutrina que auxiliaria a implantação da futura Viatura Blindada de Combate de Fuzileiros (VBC Fuz).

Outro veículo que recebeu o REMAX 3 foi a lancha ‘PORAQUÊ’ da Marinha do Brasil, classe DGS 888 RAPTOR da empresa brasileira DGS Defense, que foi apresentada primeiramente na feira RIDEX 2018 e na LAAD 2019.

A ideia de utilizar um SARC nas lanchas da DGS surgiu durante o desenvolvimento da GDS 888 Raptor, uma lancha blindada destinada a operações policiais e de combate. O Diretor da empresa, Abílio di Gerardi, propôs a ARES a ideia de colocar a CORCED, um SARC desenvolvida em conjunto com a Marinha, em sua embarcação, mas como essa não estava disponível optaram pelo REMAX, que se demonstrou uma escolha acertada.

A CORCED seria mais indicada, devido ao fato de ser especificamente dedicada a utilização em meios navais, porém a capacidade multiplataforma do REMAX se mostrou novamente uma grande vantagem ao ser instalada sem exigir nenhuma adaptação mais complexa ao projeto. Lógico que como ela não foi preparada para resistir ao agressivo ambiente marítimo, devido a corrosão causada pela chamada ‘maresia’, mostrou-se que pode ser utilizada sem nenhum problema para meios fluviais, ou seja, no ambiente Amazônico.

A partir dessa experiência, a DGS que já estava projetando a classe DGS 999 Raptor, maior e com mais capacidade, incluiu em seu projeto, como requisito, todas as furações e conexões para instala-la, tornando-as aptas as receberam o SARC REMAX a qualquer momento.

A classe 999 já teve seis exemplares fabricados, sendo quatro para a Marinha, e dois para o EB, que recebeu suas embarcações em dezembro de 2019 e capacitou sua tripulação em janeiro desse ano, estando as duas embarcações, batizadas de ‘HELI’ e ‘HERMES’ operacionais no Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia (CECMA), em Manaus/AM.

As lanchas DGS 999 Raptor ‘HELI’ e ‘HERMES’, na DGS Defense, antes da entrega ao EB. Essas lanchas, assim como as outras quatro da pertencentes a Marinha, já foram projetadas para utilizarem o REMAX 3, aguardando apenas uma autorização do EB para que isso aconteça (Foto DGS)

A proposta inicial era de instalar o REMAX nas quatro DGS 999 Raptor que estão alocadas em Manaus, duas do EB e duas da MB. Depois pensou-se em reduzir para apenas duas, uma de cada força, apenas para se obter a homologação, porem nenhuma medida concreta foi tomada para isso.

O Estado-Maior do Exército deve estar estudando esse assunto com muita atenção, pois o EB não perderia essa oportunidade de possuir lanchas blindadas, com grande poder de fogo e com maior proteção aos seus operadores, em uma região tão sensível, transformando-as em verdadeiros Tanks do Rio Amazonas. Tal iniciativa também poderia mostrar ainda mais a versatilidade do SARC REMAX, o que poderia favorecer suas exportações, lembrando que, por ser um projeto 100% pertencente ao EB, o mesmo recebe royalties sobre suas vendas, servindo para amortizar todo o investimento feito.

Ciente de todas as vantagens do SARC REMAX, a ARES desenvolveu a STARMAX, uma suíte de treinamento virtual 3D que permite ao operador treinar todas as funcionalidades e procedimentos da estação de armas real, em um ambiente virtual controlado, criando uma experiência real de emprego, progressiva e monitorado por avaliadores capacitados para intervir e corrigir erros, garantindo melhores resultados e desempenho superior ao final do treinamento, barateando muito o custo desse treinamento.

Vale ressaltar que, diante do cenário militar atual, o SARC REMAX está no mesmo patamar da maioria dos SARCs da atualidade, com excelente desempenho, oferecendo maior segurança ao atirador e grande precisão nos tiros realizados. Como consequência, tem-se a redução da vulnerabilidade do atirador, a minimização dos danos colaterais, o aumento do poder de combate em operações noturnas e a economia de munição.

E o desenvolvimento do SARC REMAX garantiu ao EB e a BID experiência para desenvolver sistemas ainda mais complexos, lembrando sempre que tecnologia não se ganha e nem se compra, se conquista!

 

FICHA TÉCNICA

 

ARMAMENTO E SISTEMAS DE PROTEÇÃO

Armamento

M2HB 12,7 mm / MAG 7,62 mm

Modos de Operação

Rajada, Intermitente e Contínuo

Lançador de Granadas Fumígenas

76mm (4x tubos)

Sistema de Alerta Laser

Opcional

Sensor Acústico de Tiro

Opcional

MÓDULO OPTRÔNICO

Câmera Diurna

D = 8 km / R = 4,5 km / I = 2 km

Câmera Térmica não refrigerada

(8-12 μm) (D = 5,5 km / R = 2 km / I = 2 km)

Telêmetro Laser de até 5km

Classe 1m Eye Safe

MOVIMENTO

Amplitude em azimute

Nx360º

Amplitude em elevação

-20’ até +60’

Velocidade máxima

± 56’/s (ambos os eixos)

SISTEMA DE EMPREGO

Peso da Torreta

217 kg (sem carga)

Fonte de alimentação

18-32 VDC

Fonte ARES

Características a destacar:

_ Ser Leve e multiplataforma, podendo ser instalada de veículos 4×4 a sobre lagartas;

_ Estabilização em 02 eixos e compensação balística;

_ Operação remota protegida no interior da Viatura (pontaria, disparo e rearme);

_ Operação em condições ambientais extremas;

_ Operação Manual em situações de emergência;

_ Operação Diurna e Noturna;

_ Sensores ópticos e Laser preciso para detectar, reconhecer e identificar alvos em grandes distâncias;

_ Instalação não intrusiva;

_ Alta precisão no tiro em movimento (automático e intermitente).

 

NOTA DA REDAÇÃO

Tecnologia & Defesa e os autores registram seus agradecimentos a valiosa colaboração para conclusão desse trabalho às seguintes pessoas:

_ General de Brigada Eng Mil TALES Eduardo Areco VILLELA, Diretor da Diretoria de Fabricação (DF), que deu a sugestão para o projeto dessa matéria;

_ General de Brigada Cav R/1 Edson Henrique RAMIRES, Gerente do Pgr EE GUARANI;

_ Coronel Eng Mil Marcelo Menezes EIFLER, primeiro Gerente do Projeto REMAX e atual Chefe Divisão de Avaliação de Material do CAEx;

_ Major Eng Mil OLINDA de Lima Farias Alves, atual Gerente do Projeto REMAX no CTEx;

_ Abílio di Gerardi, CEO e Fundador da DGS Defense;

_ Frederico Medella, Diretor de Marketing da ARES Aeroespacial e Defesa;

_ Giovanni Giordani, Engenheiro de Vendas e Especialista do Produto da IVECO Veículos de Defesa;

_ Leonardo David Azevedo Degethoff, Especialista em Suporte Logístico Integrado (SLI) e instrutor de Torres e Sistemas de Arma da ARES Aeroespacial e Defesa.

 

REFERÊNCIAS

ARES AEROSPACIAL E DEFESA. Ficha técnica IVERA. Disponível em http://www.ares.ind.br/new/pt/sistemas-navais/ivera.php

ARES AEROSPACIAL E DEFESA. Ficha técnica REMAX. Disponível em http://www.ares.ind.br/new/pt/sistemas-terrestres/remax.php

ARES AEROSPACIAL E DEFESA. Ficha técnica SPOTIM M2 – Aparelho de Pontaria Colimador. Disponível em http://www.ares.ind.br/new/pt/sistemas-terrestres/remax.php

ARES AEROSPACIAL E DEFESA. MO510-3001 – Manual de Operação – REMAX. VER.02. ARES, 2016.

BASTOS, Paulo Roberto Jr; HIGUCHI, Hélio; e TASSARA, Alfredo André. Os EE-11 Urutus no Haiti Lições das operações incorporados aos blindados. Site DefesaNet, 2006. Disponível em http://www.defesanet.com.br/ph/noticia/5616/Os-EE-11-Urutus-no-Haiti-/

BRASIL. CTEX. HISTÓRICO. Disponível em http://www.ctex.eb.mil.br/historico

_____. Ministério da Defesa. Exército Brasileiro. Plano Básico de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro 2005-2009. Departamento de Ciência e Tecnologia: Brasília, 2005.

_____. Ministério da Defesa. Exército Brasileiro. Portaria Nº 065-EME, 8 de março de 2016. Brasília. Estado Maior do Exército: Brasília, 2016.

_____. Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços; e Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Mapeamento da Base Industrial de Defesa. Brasília, 2016.

CASTELLIANO, Luiz de Lucena. Um breve histórico do IME (Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, 1792). Rio de Janeiro, 2005.

DAL BELLO, Luiz Henrique Abreu; FIGUEIREDO, Paulo N.; ALMEIDA, Thainá Ballero dos Anjos. Acumulação de capacidades tecnológicas inovadoras na indústria de defesa em economias emergentes: a experiência dos projetos REMAX e TORC30 no Exército Brasileiro. Rio de Janeiro, 2019.

EIFLER, Marcelo Menezes. Utilização da Gestão de Processos Integrados na obtenção de Materiais de Emprego Militar: um Estudo de Caso do Projeto de Pesquisa e Desenvolvimento do REMAX. Rio de Janeiro, 2012.

 

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  1. Excelente Bastos, parabéns pela matéria!!! Já fiquei feliz em saber ,agora com certeza, que não estava doido em pensar que esta torre poderia abrigar o lançamento de misseis e tal e que vejamos, em breve esta realização concreta pois precisamos pra ontem. Legal tbm saber que os primeiros LMV’s estão a caminho e que já compraram 4 DGS 999 para operarem (EB e MB) na Amazônia pois é de doer ver os combatentes em barcos e voadeiras abertos e totalmente expostos ao fogo do inimigo q pode estar na espreita ao longo do leito dos rios.

    • Na verdade foram 6 DGS 999 (4 da MB e 2 do EB), que se somam a mais 4 DGS 888 (se não me falha a memória) da MB.

    • Essa concepção foi temporariamente abandonada.
      Ela pertencia a época que se buscava um VBC-AC 8×8 derivado da família Guarani, porem a REMAX serviu para dar essa expertise ao EB e a BID para, caso seja do interesse da força, no futuro, esse programa possa ser retomado.

  2. ótima matéria, Parabens!

    Pesquisei mas não consegui ver a diferença da TORC30 a UT30BR e UT30 MK2.
    é a munição 30 x 173mm ou a optrônica:?

    • São torres diferentes, com proteção diferente, sensores diferentes e, no caso da TORC-30, com canhão diferente, porem todos usam o mesmo calibre.

      • Obrigado Paulo Bastos
        Vi que a TORC30 já foi homologada para os Guarani 6×6
        Se tem diferenças em muitos itens , será que o EB compre a TORC30 ?

        • Na verdade a TORC-30 não foi homologada. Foi construído apenas um protótipo para testes estáticos.
          Futuramente pretendo falar dessa torre nessa série.

  3. Belo trabalho, Bastos.
    Quando eu leio sobre armas remotamente controladas eu me lembro de como a B-29 Superfortress era sofisticada quando foi concebida, não é a toa que estudos mostram que seu programa foi mais caro até que o Projeto Manhattan que criou a Bomba Atômica.
    Abs.

  4. Uma duvida Bastos, visto que o Cascavel utiliza uma canhão de 90mm, o Guarani por ter um peso maior não seria capaz de receber uma canhão de 105mm?

    • Jonas, na verdade, qualquer torre com um canhão de maior calibre, como o de 90mm, exige um reprojeto, podendo esse ser só da suspensão ou mesmo do chassi.
      Tendo isso em mente, acredito que, com alterações de menor vulto, o Guarani poderia receber uma torre de 90mm de baixo recuo de para veículos leves, como a Cockerill CSE 90LP.
      Para uma torre com uma arma de recuo mais acentuado, como um canhão de 105mm ou mesmo um 90mm de recuo normal, acredito que o fato de ter apenas 3 eixos (6×6), sua estabilidade poderia ser seriamente comprometida, mas isso só quem pode afirmar são os engenheiros do projeto.

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