MAR-1 – O míssil antirradiação brasileiro

Os caças Embraer AMX A-1 entraram efetivamente em serviço na Força Aérea Brasileira (FAB) em 1990 e, desde o primeiro momento, representaram um desequilíbrio na balança de vetores de combate modernos para a época à favor do Brasil, pois, apesar do seu emprego eminentemente tático, tinham um papel estratégico na aplicação do poder aéreo. Toda a sua história é contada neste livro.

O AMX, armado com considerável carga bélica e apoiados por um reabastecedor na fronteira do Brasil, consegue atingir a maior parte das capitais dos países vizinhos ou localidades consideradas relevantes.

O projeto desta aeronave envolve robustez para os seus principais sistemas, concebida para atuar na profundidade do território inimigo com presença de bateria de mísseis terra-ar (SAM). Para este ambiente, dispõe de sensores avançados de guerra eletrônica e de contramedidas eletrônicas. Também foi pensada para dispor de elevada capacidade bélica.

Essas características motivaram a FAB a disponibilizar uma ampla gama de armas para cenários e situações diversas. Nos anos 1980, ainda durante o seu desenvolvimento, chegou-se a avaliar o míssil ar-ar de curto alcance e terceira geração AIM-9P Sidewinder para autoproteção; o míssil antirradiação AGM-45 Shrike; o míssil ar-solo guiado por TV AGM-65 Maverick; e o míssil antinavio AS.34 Kormoran, mas que depois mudou para o AM.39 Exocet por ser mais adequado à geografia brasileira.

Nenhum dos armamentos, por razões diversas, foi adotado no AMX, mas a FAB desenvolveu uma série de outros nacionais, dos tipos convencionais.

Numa primeira fase foram projetadas a bomba antipista, bombas com retardo, bombas lança-granadas, incendiárias e também modelos maiores semelhantes aos encontrados na família Mk (81/82/83/84). A partir dos anos 2000 também foram exploradas as bombas de penetração de 500 e 1000kg.

Entretanto, a FAB queria ir além e equipar a sua frota de estratégicos caças-bombardeiros com armamentos guiados, ou popularmente chamados de “inteligentes”.

 

Mísseis de última geração

No final dos anos 1990 a FAB vislumbrou o desenvolvimento de uma nova arma para o AMX, dessa vez, um míssil ar-solo guiado por imagem na categoria do AGM-65 Maverick. A antiga empresa brasileira Mectron foi contratada para fazer o estudo de viabilidade e o desenvolvimento completo. Mas pouco tempo depois, esse planejamento mudou para um tipo antirradiação, agregando assim um enorme poder dissuasório tendo em vista a importância desse tipo de armamento em qualquer cenário operacional.

Modelo inerte do MAR-1, usado para os voos cativos e separação de carga externa. Foto: João Paulo Moralez

O míssil seria capaz de destruir radares que estivessem além do alcance visual, tanto aqueles usados para defesa aérea ou os que guiam as temidas baterias de mísseis terra-ar.

O MAR-1 (míssil antirradiação, como foi designado) basicamente levaria um radar passivo para busca de ondas de radar orientando-o até o impacto. O motor, do tipo de “queima cigarro”, onde o propelente é consumido de trás para frente, foi otimizado para voos de longo alcance em velocidade de cruzeiro (alto subsônico).

O perfil operacional de emprego incluiria navegação a baixa altura (300 pés), explorando a excepcional capacidade do AMX nesse tipo de voo. Usando o próprio radar passivo do míssil, o piloto teria a localização do alvo via um display instalado no cockpit. Com o radar multimodo incorporado na variante modernizada (A-1M), o próprio caça poderia fazer esse trabalho de forma redundante ao radar do míssil.

O MAR-1 é da categoria fire-and-forget e, após lançado, teria a capacidade de ganhar um pouco de altitude para provocar o acionamento dos radares e identificar o alvo com precisão seguindo na sua direção. A destruição do alvo seria feita por espoleta de proximidade e também tinha tecnologia para distinguir entre os diferentes tipos de emissão, como por exemplo radares e torres de celular, de alta e de baixa frequência e outros. As avaliações indicaram que o MAR-1 poderia detectar um radar de baixa potência situado a 20km de distância.

 

Programa de desenvolvimento

A Mectron enfrentou alguns desafios com o MAR-1, especialmente nas tecnologias mais sensíveis como as antenas, os sistemas de navegação, de autodiretor e o motor.

Algumas tratativas foram feitas para a aquisição de antenas passivas de fabricação norte-americana, mas o acesso foi negado sob a alegação de que esse tipo de tecnologia para ser aplicada nessa categoria de armamento excedia o nível de capacidade aprovada para o Brasil.

Então, foi necessário que a própria Mectron desenvolvesse essa tecnologia por conta própria. A plataforma de navegação, também embargada, foi outro sistema estratégico para esse tipo de armamento e que exigiu solução nacional. Neste caso foi usado um bloco girométrico de fibra ótica com três eixos ortogonais, um trabalho coordenado pelo Instituto de Ensaios Avançados (IEAv) com a participação da empresa OPTSENSYS. O autodiretor também tinha requisitos muito desafiadores de banda larga e precisão muito alta.

Os ensaios efetivos com os AMX começaram em 2008 com voos cativos seguidos, em 2009, por testes de separação de carga externa e, enfim, os lançamentos com armamento real em quatro campanhas em 2011, 2012 e 2013.

Foram usados tanto o AMX A-1B FAB 5650, do antigo Grupo Especial de Ensaios em Voo (GEEV), quanto alguns AMX A-1A (a exemplo do FAB 5512), emprestados do antigo 1º/6º GAV “Esquadrão Adelphi”, mas voado por pilotos do GEEV.

A precisão foi algo que surpreendeu a equipe da Mectron pois em várias situações o míssil impactou contra a antena e, em outras, explodiu quando estava cinco metros de distância. Em alguns testes o MAR-1 fez a aquisição do alvo de forma autônoma após ser disparado pelo AMX.

O MAR-1 despertou interesse internacional ainda na sua fase de desenvolvimento, especialmente com o Paquistão, país com o qual a chegou a fechar negócio vendendo um lote do MAR-1. Testes e integração de modelos de desenvolvimento e protótipos do míssil foram feitos nos Dassault Mirage V, com o objetivo de expandir essa capacidade para os JF-17.

Entretanto, com a venda da Mectron para a Odebrecht e depois a própria crise enfrentada pela empresa fez com que a FAB desistisse do programa.

A exportação para o Paquistão não foi concretizada, mas a informação de que o país pudesse dispor deste armamento fez com que a Índia, com o qual mantém litígio, afastasse os seus radares da fronteira com o seu vizinho.

Apesar de não ter entrado em serviço, o MAR-1 proporcionou à SIATT, empresa que herdou parte da diretoria, dos funcionários e dos programas da Mectron, avançar com mais facilidade no programa do míssil antinavio MANSUP, que usa basicamente as mesmas leis de controle, os princípios de atuação das leis de controle e estabilização ativa por software do MAR-1.

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Comentários

41 respostas

      1. Mesmo que haja um projeto que envolva o desenvolvimento de materiais bélicos estratégicos e, por fazer parte da defesa e segurança nacionais, além de versar sobre assuntos sensíveis, a divulgação seria provavelmente vetada, haja vista que despertaria a atenção de detentores da maioria da tecnologia belicista.

  1. A FAB pretende ter a capacidade de um míssil anti-radiação no futuro ? Ou faria esse papel com os sensores do Gripen e o MICLA-BR ?

    1. Acredito que a opção de usar o MICLA-BR, capaz de atacar alvos a mais de 300km, disparado a partir do Gripen, seria uma opção melhor do que usar um míssil antirradiação com alcance inferior a 80km. Exporia bem menos a aeronave.

      1. Poderia ser também, Alexandre. Eu não tive acesso aos requisitos da FAB que resultaram no MAR-1, mas por outro lado é necessário dispor da tecnologia embarcada no espaço restrito de um míssil para detectar ondas de radar a tão longa distância. Apesar de disparar na direção onde é conhecida a presença de uma ameaça SAM, essas são mudadas de lugar muito rapidamente pelo oponente justamente para evitar a sua destruição por parte de mísseis antirradiação.

  2. Seria uma boa hora para retomar o projeto, com a qualificação do MANSUP a empresa ganhou muita expertise, além do fato de não ter problemas financeiros. Com o atual avanço tecnológico que demos nos últimos anos o míssil teria uma capacidade fantástica.

    1. Esse projeto deve ser da Mectron, não da SIATT. Teria que avaliar qual é o status desse programa.

  3. O Brasil faz coisas que ninguém imagina que faz.
    Investiu muito no projeto do míssel AA a- Dart, que já está operacional, e deixou para lá. Dá para entender?

  4. Me pergunto o quanto aquele famoso míssel anti radiação americano apreendido do Vulcan inglês que pousou no RJ durante o Falkland’s War ajudou na criação desse míssel nacional…mas sempre me alegro em ver notícias tão boas sobre a nossa indústria bélica nacional.

  5. Com a tecnologia que temos hoje já daria para fazer um MAR-2. Quem sabe até com um motor a jato. Espero que a FAB volte com esse projeto.

  6. No micla francês o mesmo míssil pode ter duas cabeças de busca: uma IR e outra por radar.
    Pergunto-me se o mesmo procedimento não poderia ser utilizado no atual MAN (anti-navio) em desenvolvimento. teria-se um buscador anti-navio e outro anti-radiação, aproveitando-se a experiência adquiria com o MAR-1.

    1. Sim, mas tem que ver que o MANSUP é um míssil mar-mar. Um míssil anti-radar, em regra, é ar-terra. Então a tecnologia de lançamento e de voo é diferente.

    2. O MANSUP é maior e mais pesado, teria que ver a sua compatibilidade com um caça. Mas uma versão aerotransportada dele, pode ser viável trocando o buscador.

  7. Nao foi por acaso que destruíram a Odebrecht Defense. Repararam na matéria esse tipo de armamento não está autorizado para o Brasil. Quando foi solicitado algo dos EUA, e alguns pensam que essa naçao é amiga do Brasil. Quando deixarmos de sentar no colo dos EUA seremos uma grande nação.

    1. Bingo!!!!
      Um dia a história real do porque esse míssil foi morto no berço vai ser contada.
      Basta pensar quantos mísseis anti radar existem no mercado, que países fabricam, quem teria interessa em matar esse míssil…

  8. Buenas, acredito que algumas questões deveria ser sanadas para retomada de um projeto desses. 1/ orçamento dedicado (as empresas não investiriam em contratação e compra de bancadas, desenvolvimento de software e maquinário, sem enxergar que não vão tomar preju); 2/ encomenda mínima, se possível em lotes (sustentar uma produção viável); 3/ possibilidade de exportação (para melhorar a sustentabilidade do fabricante);

    É uma tecnologia que não é vendida por aí porque é muito sensível, mas se conseguir comprar externo (no nosso caso) é melhor, porque sairia mais em conta, já que os investimentos em defesa tradicionalmente começam gordos mas minguam em menos de 2 anos.

  9. A manchete se refere ao Míssil, porém a plataforma principal é o AMX, gostaria de saber se há um estudo ou a possibilidade de aproveitar todas as qualidades do AMX e seu aparato logístico já estabelecido na produção de novos vetores com as tecnologias embarcadas atuais? Se a infraestrutura do vetor já somos independentes, seria menos custoso a inserção das novas tecnologias em plataforma adaptável ao tamanho x peso das mesmas, do adquirir por exemplo o M-346 para ser um vetor de transição, ou não perder um caça bombardeiro.

    1. O AMX já era. Só o Brasil utiliza. Diversas peças necessárias não são mais fabricadas e não há viabilidade de serem fabricadas, por falta de escala. A linha de produção se encerrou há quase 30 anos. É um vetor que não conseguiu uma exportação sequer quando lançado. A FAB vai aposentar o vetor nessa década e ponto final.

      1. Rafael, permita corrigir.

        – Os últimos AMX foram entregues no início dos anos 2000;

        – Brasil e Itália ainda operam o AMX;

        – Peças do AMX são feitas aqui, incluindo aviônicos;

        – Apesar da idade, ainda é um vetor estratégico.

        1. João Paulo Moralez ,
          Quantos AMX temos em operação na FAB?
          Os motores ainda estão em linha ou foram descontinuados?
          Obrigado!

          1. Não sei precisar quantos AMX estão em operação. Os motores já não são produzidos há anos, mas existem empresas que fornecem a sua manutenção.

        2. Grato pelos esclarecimentos, e aproveitando Moralez, você poderia explanar sobre como é possível aposentar os AMX com menos de 30 anos e conseguirem manter os F-5 por 40? Tendo ainda como agravante que os AMX foram Fabricados em nossa pátria!

          1. Existem várias questões nisso e uma delas que temos que ter em mente é a logística. Até os dias de hoje existem peças novas para o F-5M, existem peças de sobra para esses aviões em termos mundiais para sustentar a operação. Quando se trata de EUA, a questão logística planejada por eles é surreal. O mesmo deverá acontecer para o F-16, deverá ter peça para esses caças por muitas décadas.

        3. Claro, João Paulo.
          Só ouso discordar em parte, pois o Brasil não produz todas as peças necessárias para manter o AMX por longo tempo.
          Acredito que apenas as pouquíssimas unidades modernizadas possam ser consideradas estratégicas. Com a chegada do Gripen, aeronave claramente superior, elas são dispensáveis.
          E acrescento que meu comentário foi feito para rebater a ideia de “produção de novos vetores com as tecnologias embarcadas atuais”.
          É um projeto antigo e não faz sentido fabricar novas unidades.

          1. Olá Rafael,

            Claro que não todas as partes são fabricadas mais, mas as necessárias para mantê-los voando sim. É o mesmo para o F-5, Bandeirante e por aí vai. Alguns componente são mais críticos como o motor, mas há espaço para mais alguns anos de operação.
            Concordo plenamente quando vc diz sobre a produção de novos vetores. A modernização é isso, acrescentar itens mais modernos numa plataforma existente e não justificaria produzir novos AMX nos dias de hoje.

            Abraços

  10. RESUMINDO: Caso a FAB precise desse armamento ela vai buscar nas prateleiras do tio Sam, se eles vão vender é outra história. É melhor gerar empregos em outro país do que aqui, lamentavelmente mais um projeto que morreu na casca.

  11. as forças armadas brasileiras acabam com o desenvolvimento tecnológico, foi assim com o Osório, com este mísseis e com tantos outros, inicia o processo, desenvolve a tecnologia e abandona. tentou fazer isso com KC, onde no governo anterior tentou cancelar a aquisição de metade do previsto, o que traria enorme prejuízo a Embraer. As forças armadas raramente concluem um projeto, e não é por falta de capacidade e falta de gestão.

  12. A Produção de novos vetores do AMX segundo a opinião dos colegas não seria viável atualmente, retirando esse vetor do quadro de aeronaves, qual a opinião de vocês sobre a eficácia de se possuir um caça bombardeiro e se positivo em possuir esse vetor qual seria a melhor opção para a nossa Força Aérea atualmente?

  13. Boa noite:
    Não sei se vou responder a contento sua pergunta,mas vamos lá!
    O F-39 Gripen vai fazer a função do A-1,à medida que novos sensores e armamento forem integrados ao avião.A Fab e a Embraer provavelmente vão fazer os testes de certificação dos armamentos tipo mísseis,bombas etc.
    Essa certificação implica em informar ao computador do avião os parâmetros de cada armamento para o avião poder lançar.
    Abraço!
    Os colegas que quiserem fazer correções no meu comentário fiquem a vontade!

    1. Perfeito, se o Gripen for realizar a mesma função do AMX fica claro a padronização de um único vetor para as várias funcionalidades em um teatro de guerra. Outra questão que cabe a análise, se puder me esclarecer também, como temos várias doutrinas no complexo estudo de inserções aéreas ar x ar; ar x terra e ar x mar, há vários treinamentos específicos para tal, com um vetor multimissão como o F-39, sua estrutura física sendo a mesma, os risco de cada operação são diferentes, exemplo claro foi um F-111 americano ser abatido por uma arma de mão(Iugoslávia) e um SU-34 receber mais de 40 perfurações e continuar sua missão, e os F-18 da Marinha americana com proteção especial contra corrosão e trem de pouso especial. Isso tudo afetaria a especialização do piloto e as condições do vetor por passar por diversas modificações conforme o teatro de operações pelo número reduzido de aviões que a Força Aérea terá em relação da quantidade de F-5 e AMX que a Força Aérea já possuiu e possui?

      1. Boa tarde!
        A força aérea sueca faz isso normalmente, com o Gripen sendo um avião multitarefa.Eu acredito que as diferentes missões serão executadas a partir de dados de inteligência, na guerra moderna planejamento é muito importante antes da execução e acho que os pilotos modernos estão inseridos nessa realidade de combater em arenas distintas, bem como os comandantes.
        Por exemplo:um gripen pode fazer um ataque com bombas e depois fazer patrulha aérea de combate, sem perder nenhuma capacidade, pois foi projetado para isso.
        Mas veja, é a opinião de um leigo que gosta do assunto,vamos ver se algum colega complementa esse assunto.
        Grande abraço!

  14. Hoje vemos na defesa Ucrânia o vetusto su24/25 levando mísseis americanos de primeira geração e fazendo um tremendo estrago nas baterias radar e de defesa russa6, tanto e que o recuo destas unidades defesa radar tem negado a incursão da aviação russia. Aqui matamos MAR1 e AMX sem colocar nada no lugar. Incluo nesta lista o A darter. Não entendo usd 25 bi nas forças armadas e até o básico como o fuzil ia sai em conta gotas.. Difícil acreditar na administração deste pessoal.

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