Exército tenta criar cadeia logística nacional para os Leopard após problemas de suprimentos com os alemães

A operacionalidade da frota de Leopard do Exército Brasileiro está ficando criticamente baixa, mas buscam-se soluções

A Diretoria de Fabricação (DF) do Exército Brasileiro (EB), através dos Arsenais de Guerra do Rio (AGR) e São Paulo (AGSP), vem apresentando resultados do projeto de nacionalização de componentes das viaturas blindadas de combate da Família Leopard.

O AGSP iniciou um processo de desenvolvimento de mangueiras hidráulicas do motor, sistema de transmissão e torre. Após a produção de protótipos e aquisição dos insumos necessários, as informações serão repassadas à base industrial brasileira, para a fabricação dos materiais no país. Dos 33 componentes apresentados e o AGSP obteve sucesso na produção de 31.

O AGR, por sua vez, trabalha no desenvolvimento de polias tratoras e almofadas de lagartas. A expectativa para o futuro próximo é transformar o Arsenal em um centro de referências para esses componentes, tornando-se uma grande oficina para os sistemas tratores e lagartas para a Família Leopard.

O objetivo inicial é a nacionalização de 74 componentes tidos como prioritários, como sistemas hidráulicos e de freios, para operação dessas viaturas. Para o médio prazo, o plano é ampliar a nacionalização mínima de 231 itens, alguns de grande complexidade, como o computador de tiro, considerados fundamentais para manter uma cadeia logística e operacional que independa do momento geopolítico internacional.

Mangueiras nacionais apresentadas essa semana pelo AGSP (Fotos: AGSP)


O PROJETO DE NACIONALIZAÇÃO

Iniciado no final de 2023, o projeto visa, inicialmente, estabelecer atividades gerenciais, técnico-tecnológicas e fabris para a revitalização de 52 viaturas blindadas de combate carro de combate (VBC CC) Leopard 1A5 BR, estendendo sua vida operacional por mais 10 anos, além de recuperar a capacidade operacional e aumentar a disponibilidade de 192 VBC CC Leopard 1A5 BR, 10 viaturas blindadas de combate defesa antiaérea (VBC DAAe) Gepard 1A2 e quatro viaturas blindadas especiais escola (VBE Esc) Leopard 1 BR.

Segundo fontes do EB, o programa foi criado em fundação de dificuldades em obter componentes básicos junto aos fornecedores alemães. Isso tem causado um impacto negativo na operacionalidade da frota das viaturas Leopard. Outro fator relevante foi a negação, por parte das empresas alemãs, em fornecer as especificações técnicas desses componentes, informação tida como básica, que impedia o Exército de buscar equivalentes no mercado internacional.

Em função disso, o EB assinou um Termo de Execução Descentralizada (TED) com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para uma especificação técnica, a partir de processo de engenharia reversa, com a utilização de seus laboratórios de materiais e físico-químicos. 

Vale mencionar aqui o grande apoio que as Federações das Indústrias dos Estados de Santa Catarina (FIESC), Paraná (FIEP) e Rio Grande do Sul (FIERGS) tem dado a esse projeto.

VBC CC Leopard 1A5 BR no AGSP (Foto: AGSP)

O PROBLEMA DA BAIXA OPERACIONALIDADE

A frota de viaturas da Família Leopard passa por um avançado processo de baixa operacionalidade. As organizações militares (OM) que operam as VBC CC Leopard 1A5 BR, os Regimentos de Carros de Combate (RCC), são unidades quaternárias, ou seja, possuíam quatro esquadrões de carros de combate operacionais. No entanto, atualmente contam com, em média, apenas um esquadrão em condições de emprego.

Esse processo ocorre em função do envelhecimento da frota, do desgaste acumulado ao longo de décadas de emprego, mas, principalmente, pelas dificuldades na obtenção de peças de reposição. Um problema que já era complicado e ficou ainda mais grave após a invasão russa na Ucrânia, que praticamente consumiu todos os estoques de peças disponíveis. Ao mesmo tempo, as dificuldades geradas pelos alemães em permitir a produção de uma cadeia de suprimentos no Brasil, formam uma “tempestade perfeita”, tornando indisponível boa parte da frota do EB e, consequentemente, diminuindo a capacidade operacional de toda a Força Terrestre.

Para se ter uma dimensão desse problema, uma das viaturas mais importantes para se operar a frota blindados brasileira, a viatura blindada especial de Socorro (VBE Soc) Bergepanzer 2, responsável por manter a capacidade de manobra da força blindada, também vem sofrendo problemas logísticos.

Essa importância existe porque os carros de combate operam em conjunto e precisam manter o ritmo. Uma VBC CC Leopard 1A5 BR que apresente uma pane mecânica ou fique atolado não precisa necessariamente ser abandonado, pois o Bergepanzer pode chegar até o veículo, retirá-lo da situação, rebocá-lo para uma área segura e possibilitar sua recuperação. Assim, contribui diretamente para reduzir o tempo de indisponibilidade dos carros e preservar um recurso de elevado valor. A maioria dos países europeus que se desfizeram ou substituíram de suas de VBC CC Leopard (1 e 2) mantiveram seus Bergepanzer, tamanha sua importância.

Imagens do Pq R Mnt/3, tiradas no mês passado, mostram uma VBE Soc Leopard Bergepanzer e VBE lança-pontes Leopard Brüklerpanzer em processo de “canibalização”

Atualmente o EB possui em carga somente 12 dessas preciosas viaturas (em carga), com algumas tendo um grande destaque no auxílio às heroicas missões de resgate da Operação Taquari 2, quando a população do Rio Grande do Sul foi assolada pela tragédia da crise climática de 2024. E nem isso foi capaz de poupá-las da falta de peças, pois ao menos duas delas estão sendo canibalizadas no Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar (Pq R Mnt/3), localizado em Santa Maria (RS), e que dificilmente poderão ser recuperadas e voltar a uma condição operacional.

O problema é ainda mais acentuado nas VBC DAAe Gepard 1A2, devido as suas maiores exigências de manutenção. O Pq R Mnt/3 também tem exemplares desses sendo canibalizados, além disso ocorrer também nas OM’s que os operam.

VBC DAAe Gepard 1A2 também no Pq R Mnt/3

O EB, através da DF, vem demonstrando um enorme esforço ao tentar minimizar esses problemas logísticos, uma vez que as viaturas serão utilizadas ainda por muitos anos, mesmo após a escolha de seu sucessor. No entanto a situação, somada à instabilidade geopolítica que o mundo passa, deixa ainda mais claro que é indispensável acelerar o processo de substituição da frota, o conhecido programa da Nova Família de Blindados sobre Lagartas do Programa Estratégico do Exército Forças Blindadas (Prg EE F Bld), sendo fundamental a escolha de propostas que envolvam a participação da Base Industrial de Defesa do Brasil para que o Exército não permaneça refém dos humores e interesses internacionais.

Se o EB não acelerar a escolha do sucessor da família Leopard, corre o risco de ficar sem uma força blindada operacional na próxima década

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Respostas de 5

  1. Mui amigo o alemão! Mas isso nos faz crer que voltaremos a ter um Osório agora na versão OSÓRIO XXI, pois a carcaça sabemos fazer, o restante será por engenharia reversa ou criação nacional.

    1. Sabemos? Quem sabe? As plantas e projetos do Osório, pelo que sei, não existem mais. Para produzí-lo novamente teriam que começar do zero e desde que haja uma empresa nacional capaz de tal empreitada industrial.

  2. A pergunta que fica é até que ponto esse esforço de nacionalização de componentes irá influenciar a escolha da próxima família de blindados?

    Hipoteticamente, três vias se abrem:

    1. Criação de uma cadeia logística que favoreça a escolha de blindados alemães pela familiaridade/comunalidade, mesmo diante de todos os entraves já conhecidos, inclusive orçamentários;

    2. Favorecimento da escolha de blindados turcos como meio de superar restrições de acesso ao projeto e especificações de componentes, estimulando a criação de uma nova cadeia de suprimentos e a cooperação internacional, inclusive com a possibilidade de exportação;

    3. Estímulo de uma indústria nacional de blindados com o desenvolvimento paulatino e de engenharia reversa que permita ao país desenvolver, no médio prazo, soluções soberanas.

  3. Bastos, como deixamos essa situação acontecer? Está na hora de partimos para outra linha de veículos. Não passar informações técnicas de mangueiras eh um absurdo.

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