O SARC UT30BR NÃO FOI REPROVADO PELO EB, veja o que de fato ocorreu

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Na noite de ontem, dia 25/06, um site brasileiro publicou um pedaço do Boletim do Exército Nº 24, de 10 de julho de 2020, com o sugestivo título “Sistema de Armas UT-30BR da ARES é reprovada pelo Exército para o Guarani”, sem nenhum texto explicando o que isso significava, e que acabou replicada de forma indiscriminada por outros sites e causou certa confusão aos interessados pelo tema, assim como um grande espanto por parte dos militares e empresas envolvidas no programa.

Com o intuito de esclarecer a todos com fatos, e não especulações, a Revista Tecnologia & Defesa vem com esse texto explicar o que de fato ocorreu.

 

Uma breve história do Programa UT30BR

O Sistema de Armas Remotamente Controlada (SARC) UT30 é uma “Torreta não Tripulada” (Unmanned Turret), desenvolvida pela empresa israelense Elbit Systems Ltd., equipada com um canhão automático 30×173 mm ATK BushMaster MK44, uma metralhadora coaxial 7,62×51 mm e lançador de granadas fumígenas de 76 mm. O canhão possui funcionamento elétrico, tipo Chain Gun, no qual o conjunto ferrolho movimenta-se ciclicamente, sem a necessidade da utilização dos gases oriundos dos disparos, o que proporciona um índice muito baixo de incidentes de tiro, além de fácil manutenção e é utilizada, além do Brasil, por outros países, como Eslováquia, Bélgica e Portugal.

A SARC UT-30BR possui um dispositivo de segurança para a detecção de ameaça a laser chamado Elbit’s Laser Warning System (ELAWS), que alerta quanto a ameaças laser inimiga, informando a direção de origem. Em uma situação de combate, quando detectada a ameaça, o operador pode configurar a torre para apontar automaticamente para a direção ou manualmente, bastando pressionar um botão.

O Auto Tracking, ou Automatic Target Tracking (Acompanhamento Automático de Alvos), é um recurso muito útil desse modelo de torre, que permite o acompanhamento, sem a necessidade de interferência humana. Existe, ainda, uma outra ferramenta, chamada de “Hunter-Killer” (Caçador-Matador), que permite ao comandante trazer o armamento para a direção em que estiver observando, trazendo o canhão para seu comando e executando o disparo, sem a interferência do atirador.

Em dezembro de 2008, o Exército Brasileiro e a Elbit, através de sua subsidiária brasileira, Aeroeletrônica Ltda (AEL), assinaram o contrato 10/2008-DCT, para a aquisição de três  SARC UT30 com algumas modificações, cuja versão foi chamada de UT30BR, para testes.

Essa aquisição se deu após uma série de estudos visando equipar parte dos veículos VBTP-MSR 6×6 Guarani, dentro do Programa Estratégico do Exército (Pgr EE) GUARANI, com um SARC equipada com um canhão de tiro rápido de 30 mm que pusesse atender as demandas da nova Doutrina de Infantaria Mecanizada que estava sendo criada. A escolha recaiu na torre israelense modificada por ela atender aos requisitos apresentados, bem como, poder ser montada no Brasil, utilizando componentes nacionais e, principalmente, garantido todo o suporte logístico dentro de nosso território.

No inicio de 2010 começaram os treinamentos para opera-las, seus testes e , em seguida, ela foi avaliada (somente a torre) pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), considerada apta e instalada em um dos protótipos do Guarani para início das validações do sistema e para auxiliar no desenvolvimento desse novo sistema de armas para o EB.

Em 31 de dezembro de 2010, foi publicado no Diário Oficial da União (DOU), a assinatura de um Protocolo de Intenção entre o Exército Brasileiro e a Elbit, através da AEL, no valor de R$ 465.168.096,00, para “aquisição futura de 216 (duzentos e dezesseis) sistemas de armas – canhão 30 mm, UT 30BR, para serem integrados às viaturas blindadas de transporte de pessoal, média de rodas (VBTP-MR) para atender às necessidades de Organizações Militares do Exército Brasileiro”.

Em 11 de julho de 2012, foi firmado o Contrato Nº 13/2012-DCT, no valor de US$ 13.500.000,00, para a aquisição de mais 10 (dez) SARC UT30BR, incluindo offsets para a transferência de tecnologia, criação de um parque fabril e de manutenção no Brasil e desenvolvimento de um simulador nacional.

Em 2015 o EB firmou acordo com a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) para desenvolvimento de munição de 30×173 mm e são instaladas as primeiras cinco UT30BR em VBTP Guarani, para iniciar a avaliação técnica e operacional do sistema. As cinco restantes são instaladas em 2016.

No final de 2016, o EB e a IVECO Latin America assinam o contrato 120/2016-COLOG/DMat, no valor de R$ 1.024.214.480,85, para a aquisição de 1.580 Viaturas Guarani, de diversas versões, incluindo 35 equipadas com o SARC UT30BR.

Em 19 de setembro de 2019, EB assinou já com a ARES Aeroespacial e Defesa, agora subsidiária da ELBIT, o contrato 08/2019-DF, no valor de R$ 815.080,63, para Contratação de serviços de treinamento para instrutores em operação/manutenção de 1º escalão e de treinamento para instrutores em manutenção de segundo escalão para os sistemas de armas UT30BR.

Os testes no CAEx

Desde 2016, em intervalos alternados, o sistema Guarani UT30BR (Veículo + Armamento + Munição) esta em avaliação pelo CAEx e os testes seguiram rigorosamente os protocolos padrão do EB, de acordo com os Requisitos Técnicos Operacionais (ROB), definidos dentro do Prg EE GUARANI.
Nos testes foram utilizados uma VBTP-MSR 6×6 Guarani UT30BR e foram simuladas diversas situações operacionais previstas no ROB 1/11 Viatura Blindada Transporte de Pessoal – Média Sobre Rodas, de 20 de abril de 2011, incluindo sessões de tiro utilizando a munição da CBC, pois os testes buscavam avaliar o sistema como um todo.

Os testes terminaram em outubro de 2019 e deram origem ao citado Relatório de Avaliação Complementar Nº042/20-CAEX, que foi homologado pela Portaria Nº082-DCT.

Por se tratar de um relatório reservado, não é possível sua publicação, e o mesmo sequer foi entregue a Diretoria de Fabricação (DF), para que o mesmo seja avaliado. Porem tem que se deixar claro que o resultado de “NÃO-CONFORME” não quer dizer que o sistema foi “REPROVADO” ou mesmo que ele esteja sobre risco. O EB, assim como todos os exércitos do mundo, utiliza um conceito de Gestão do Ciclo de Vida dos Sistemas e Materiais de Emprego Militar desde de 1995 e sua versão atual, a EB10-IG-01.018 de 2016, deixa claro a função da avaliação de produto como uma ferramenta de apoio a decisão para o processo decisório da aquisição de um novo equipamento, porem é apenas um dos elementos do processo e, principalmente, os conceitos de não conformidade é muito diferente de defeito ou falha.

Nas palavras do General de Brigada TALES Eduardo Areco VILLELA, Diretor da DF, isso fica melhor explicado: “As não conformidades encontradas na avaliação estão sendo estudadas pela DF, a qual mantém contato com as empresas IVECO e ARES para implementação de medidas de ordem técnica que possam sanar as poucas alterações apresentadas“.

Pelo que pudemos apurar, mais de 90% do sistema foi aprovado, sendo que aquilo que foi colocado como “NÃO-CONFORME” envolve problemas referentes ao veículo, a munição e o SARC, sendo a maioria de fácil resolução, ou seja, o objetivo do CAEx é confirmar se o produto realmente atende aquilo que foi projetado, e se isso não ocorre, como foi o caso em algumas situações, servir como uma ferramenta para auxiliar suas correções.

Só para constar, o SARC REMAX também teve não conformidades em sua avaliação inicial, assim como a torre manual Platt e praticamente todos os produtos avaliados no CAEX, mas todos foram corrigidos e hoje o SARC REMAX está plenamente operacional dentro do EB.

O EB está investindo muito tempo e esforço para modernizar sua força e não vai parar diante dos primeiros obstáculos, ou seja, o SARC UT30BR será novamente avaliada e, em breve, estará plenamente operacional nas Brigadas de Infantaria Mecanizada.

 

NOTA DO EDITOR

O principal papel da imprensa é informar e, no caso da imprensa especializada militar, ajudar os cidadãos a compreender os muitas vezes complicados processos de tomada de decisão das forças, além de conscientizar as pessoas de como as decisões tomadas impactarão em sua operacionalidade.

Bem, pelo menos é isso que se espera de uma imprensa séria.

Colocar um trecho de um documento, totalmente fora de contexto e sem nenhuma explicação, simplesmente para aumentar o número de visualizações em uma determinada página da internet não é coisa de uma imprensa séria, mas sim de uma imprensa irresponsável, como tantas outras que vemos por aí, não se preocupando com as repercussões que algo assim possa gerar, seja em um projeto importante do governo, ou nas empresas envolvidas.

Bastava apenas pegar um telefone e ligar para a DF, CAEx, ou uma das empresas envolvidas, que as dúvidas seriam totalmente sanadas, e poder-se-ia concluir um trabalho mais profissional e que realmente buscasse informar as pessoas. Mas parece que isso deve dar muito trabalho…

Porém, existe a Revista Tecnologia & Defesa, a mais antiga, tradicional, e não por qualquer motivo, a mais respeitada mídia militar do Hemisfério Sul, que sempre estará alerta para coibir esse tipo de oportunismo.

Paulo Roberto Bastos Jr, Editor do Site Tecnodefesa

 

REFERÊNCIAS

ARES. UT30BR. Disponível em http://ares.ind.br//new/pt/sistemas-terrestres/ut30br.php

 

17 Comentários

  1. Parabéns a T&D pela pronta e completa resposta ao que por desconhecimento ou pior razão foi publicado sem explicações e com dados incorretos por um site de notícias militares. Tentei inserir comentário na publicação mas os meus e-mails enviados para os endereços oferecidos pelo site retornaram sem serem entregues. Não há como fazer um Login ou entrar em contato com um dos dois jornalistas responsáveis. Lamentável. A matéria de T&D deixou-me com a alma lavada.
    Com meus 46 anos de serviço no Exército posso assegurar que o calibre 30mm para o apoio de fogo da Infantaria Mecanizada é essencial e quem atirou com as UT-30 na Marambaia ou em SAICÃ (Campo de Instrução no município CACEQUI – RS) sabe da sua precisão e poder de fogo. É AÇO! minha gente.

    • Boa tarte General.
      Fico muito feliz com suas palavras.
      Acredito que, quem se propõem a ser um formador de opinião tem que ter, no mínimo, responsabilidade.
      É obrigação de T&D, como mídia profissional, criticar esse tipo de ação que prejudica todos que tratam de forma séria o tema militar.

  2. Paulo, se me permite eu tenho uma dúvida. Quando se joga ”UT30BR” no google algumas das imagens são de um guarani com uma torre com um perfil mais baixo bem diferente dessas da foto utilizadas na matéria, sabe me dizer o que seriam essas torres e qual das duas o exercito irá utilizar nos Guarani ?

      • Sem dúvida ele está falando da MK2, Paulo.
        Mas única imagem dela em um Guarani que já visualizei era uma montagem computadorizada.
        Desconheço tentativa de integração desta versão do UT-30.

  3. Paulo, a resposta à sua pergunta é bem simples: esta foto com a torre de perfil mais baixo e discreto é a mais nova versão da Torre UT30 que está atualmente sendo oferecida pela fabricante israelense para novos e futuros compradores! É portanto uma versão mais moderna do que a versão que foi contratada e adquirida pelo Exército Brasileiro!! O GRANDE PROBLEMA É QUE O EXÉRCITO BRASILEIRO DEMOROU TANTO PARA TESTAR, IMPLEMENTAR E INSTALAR O PRODUTO CONTRATADO NO SERVIÇO ATIVO NO EB, QUE A ELBIT JÁ OFERECENDO UMA NOVA VERSÃO MAIS MODERNA E MELHOR NO MERCADO INTERNACIONAL!!! A EXPLICAÇÃO ENGLOBA SOMENTE TUDO ISTO !!! ESCLARECIDO ?????

  4. Desculpe-me por ter errado ao digitar o nome do internauta que fez a pergunta, no caso foi o Sr. DANIEL!!! Espero ter esclarecido sua dúvida, DANIEL !!!!

  5. Grande Paulo Roberto, precisamos de mais “editores” com sua visão e responsabilidade e menos “jornalistas” com essa ambição de publicarem suas matérias a custo da ignorância e incompetência que reina e sempre reinou neste Pais. Sequer têm capacidade de ver que são empresas de tecnologia sensíveis e que, com a sequência de suas produções agregarão/trarão ao país uma mão-de-obra altamente especializada da qual, infelizmente, padece a área de informação, publicando matérias muitas das vezes exclusivamente “nascidas, com fatos e proposições originariamente das mentes destas pessoas!

  6. Caro Bastos, se me permite, gostaria de também trazer uma visão do termo ‘Não-Conforme’. Em Metrologia uma Não-Conformidade pode ser oriunda de diversas fontes, desde procedimentos que não foram seguidos p/ aquela tarefa, falhas formais de documentação, a um desempenho insatisfatório do equipamento. Vejamos o caso de Transmissor de Pressão que ao ser calibrado poderia apresentar um erro máximo de 0,1%, mas constatou-se um erro de 0,11%, a menos que sofra ajustes e estes corrijam essa Não-Conformidade ele será Reprovado nessa Calibração, mesmo que pareça aos olhos leigos uma coisa insignificante.
    Abs.

  7. Prezado Paulo Roberto, acho que seria conveniente uma matéria sobre a TORC-30mm.
    Em meu modesto ponto de vista não vejo a necessidade de duas torres com o mesmo padrão de armamento (canhão de 30 mm).
    E de preferência entre a UT30-BR e a TORC-30mm, penso mais para a última, por ser um produto de engenharia nacional e acredito até que haja alguns optrônicos nacionais na torre.
    Se conseguirem incluir na torre o MSS 1.2 a tornaria um ótimo produto.
    Mas não conheço as especificações técnicas da TORC e sendo assim suas qualidades, sendo assim minhas observações são apenas especulações.

  8. Show de matéria, neste caso muito mais que oportuna e necessária!!! Não me lembrava deste contrato das 216 torres, bacana demais e que venham as correções e as aquisições das torres. Tbm curti saber que a CBC já produz esta munição, isto é essencial .

  9. Na verdade esse não foi um contrato, mas sim uma carta de intenções.
    São coisas bem diferentes 😉

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