REMAN, a torre manual nacional

O Programa Estratégico Forças Blindadas é um dos principais pilares da modernização do Exército Brasileiro (EB) e tem como objetivo a obtenção de viaturas blindadas, sobre rodas e lagartas, e seus subsistemas componentes, como os de armas, privilegiando a indústria nacional sempre que possível. Neste contexto, foram desenvolvidos diversos produtos como a viatura 6X6 Guarani e o sistema de armas remotamente controlado (SARC) REMAX. Porém, existia a demanda por uma torre manual capaz de dar proteção aos atiradores e, mais uma vez, a Ares Aeroespacial e Defesa S/A, do Grupo Elbit Systems, surgiu com uma solução nacional.

Durante a evolução dos conflitos, a capacidade de manobra, ou seja, posicionar as forças em uma posição vantajosa para o enfrentamento, sempre foi buscada pelos Exércitos e, desde tempos mais remotos, precisava-se de uma alternativa que garantisse uma maior mobilidade e proteção e o conceito de ataques a posições inimigas, apoiados por veículos blindados, surgiu desta demanda. Nascia a Infantaria Mecanizada, uma unidade de deslocamento rápido, dotada com veículos com capacidade de transportar tropas para o mais próximo possível dos objetivos e garantisse o apoio de fogo.

REMAN instalada em uma VBTP 6X6 Guarani em testes no CAEx

Uma Necessidade

A partir da década de 1930, diversos países investiram na produção de viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP), bem como veículos blindados para patrulha e esclarecimento, que possuíam reparos com metralhadoras de vários calibres, instalados geralmente na parte superior, mas que ofereciam pouca ou nenhuma proteção para os operadores, que ficavam com a cabeça e o tórax (em alguns casos, o corpo inteiro) expostos. Este fato levou ao desenvolvimento de novas soluções, sendo a mais utilizada à torre manual.

Em 2010, com a definição da IVECO (atual IDV) como a escolhida para fabricar a VBTP 6X6 Guarani e início da produção dos 16 exemplares do lote de pré-série, o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) adquiriu um lote de 13 unidades da torre manual Platt MR550 Bi-Metal, da empresa australiana W&E Platt Pty LTD, para sem utilizadas nas viaturas, mas com a intenção de adquirir outras centenas no futuro, mas com a participação da indústria nacional. As torres originais foram utilizadas no processo de experimentação doutrinária da Infantaria Mecanizada e estão em uso até hoje.

Com a consolidação da produção dos Guarani e a obtenção de outras viaturas, como a VBMT 4X4 Guaicurus, a demanda por mais torres tornou-se cada vez maior e empresas, nacionais e estrangeiras, ofereceram suas soluções e algumas chegaram até mesmo a serem desenvolvidas e testadas, como foi o caso da GPK-EB01, da israelense Plasan, que foi homologada em 2017.

Vista superior da REMAN com a escotilha levantada

Solução Brasileira

Em 2016, a Ares apresentou a REMAN, cuja primeira versão foi apresentada na 4ª Mostra BID Brasil do mesmo ano. Estava dotada com um sistema de giro elétrico, com opção de manual, porém como tal opção não estava prevista nos requisitos emitidos pelo EB, foi retirada em uma segunda versão, a qual continha melhorias de ergonomia e proteção balística e foi mostrada ao público na LAAD Defence and Security de 2017.

Ainda nesse ano, o EB lançou uma concorrência para a aquisição de mais 60 torres manuais, para complementar a dotação no processo doutrinário. O vencedor foi o Grupo Elbit, com a torre da Ares, mais refinada e protegida e totalmente nacional. Contudo, devido a fatores externos, apenas duas foram adquiridas e foram instalas nas viaturas Guarani em março de 2020, no Arsenal de Guerra do Rio (AGR).

Em 2021, durante o curso da homologação da REMAN, o EB, que possuía apenas 15 torres em seus blindados sobre rodas, adquiriu, de forma emergencial e com dispensa de concorrência, mais 258 torres Platt, sendo 234 na versão de cúpula completa (para as VBTP Guarani) e 24 meia-cúpula (para as VBMT Guaicurus). Por outro lado, a Força Terrestre possui uma demanda quase três vezes este número e que poderá ser finalmente ser atendido por uma torre nacional.

A REMAN (acrônimo para “REparo MANual”) é uma estação de armas blindada, com proteção balística no padrão STANAG 4569 nível 2 e que permite uma ampla gama de configurações, podendo ser equipada com uma metralhadora de calibre 12,7x99mm (.50 BMG) ou 7,62x51mm, lança-granadas e outros equipamentos. Com um peso de cerca de 550 kg, permite disparos em ângulos entre +50º a -30º e pode equipar viaturas médias e leves, sobre rodas ou lagartas, garantindo proteção superior às utilizadas atualmente.

Capacitação operacional dos militares do 23º Esqd C Sl, para a Missão CORE 23, ocorrida em setembro deste ano

Em setembro de 2021, integrada na VBTP Guarani, iniciou a avaliação no Centro de Avaliação do Exército (CAEx), onde passou por duros testes que buscavam garantir a segurança operacional do material e verificar se atendia os requisitos definidos. A homologação ocorreu em maio deste ano, e a estréia ocorrerá na Missão CORE 23 (Combined Operation and Rotation Exercise 2023), um exercício combinado entre os Exércitos dos Estados Unidos (US Army) e do Brasil.

REMAN meia-cúpula instalada em uma VBMT 4X4 Guaicurus

No momento, a Ares está desenvolvendo duas novas versões; uma do tipo meia cúpula, que não possui o a parte superior; e a escudo, para proteção somente frontal, destinadas a equipar viaturas mais leves, haja vista seu menor peso e melhor integração aos veículos. Com custo bem mais baixo que os SARC, como o REMAX, também fabricado pela Ares, a REMAN aumentará o potencial das viaturas das Brigadas Guarani e poderá se constituir em um novo produto de exportação.

Imagens: Ares (a não ser quando informado)

 

 

Matéria publicada na edição nº 172 da revista Tecnologia & Defesa

 

 

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Comentários

9 respostas

  1. Uma coisa não consegui entender, se tinha uma torre nacional, porque o EB adquiriu 258 torres PLATT? Preço? prazo de entrega? não consigo entender este tipo de coisa.

    1. Ninguém consegue entender qual a emergência que existia a justificar uma compra tão grande de torres importadas da Platt com dispensa de licitação.

      1. Para começo, não foi uma aquisição emergencial. O que está escrito na matéria não reflete totalmente a necessidade que foi atendida com as Platt, e nem descreve o processo completo de homologação e aquisição (por sinal bem abaixo do preço das demais opções – essas não homologadas) que vinha se desenrolando entre várias possibilidades a mais de uma década.

        1. Ok, não foi uma compra emergencial.
          Então houve uma licitação? Ou não houve e o EB apenas escolheu a Platt, homologou o produto no Guarani foi lá na Austrália e comprou?
          No caso do preço, comparada com quais torres a Platt é mais barata?
          A Reman foi homologada pouco tempo depois. Por qual o motivo o EB achou melhor comprar a Platt em vez de aguardar a homologação de Reman e fazer uma licitação com a efetiva concorrência entre as fabricantes?
          Obrigado.

        2. “O que está escrito na matéria não reflete totalmente a necessidade que foi atendida com as Platt, e nem descreve o processo completo de homologação e aquisição (por sinal bem abaixo do preço das demais opções – essas não homologadas) “
          Apesar de resumido, acredito que o texto reflita bem o ocorrido.
          Sobre os valores cobrados (*), só para constar:
          _ Valor cobrado pela REMAN no contrato 1107/2017, Processo 0013/2017 (vlr unitário): US$ 26.000,00;
          _ Valor cobrado pela PLATT MR550 no contrato de 1096/2021, Processo 0187/2021 (vlrs unitários): US$ 51.754,00 (full) e US$ 41.782,00 (versão meia-cúpula);

          (*)Valores disponíveis no site transparência Brasil e DOU.

          1. Mesmo levando em conta que o valor da Reman esteja desatualizado, difícil crer que ela seja mais cara que a Platt.
            Isso torna a decisão do EB de comprar um grande lote de torres Platt ainda mais injustificável.

  2. Prezado,

    E será que há a previsão de uma versão mais moderna, que não seja manual? Dada a exposição dos militares nessa opção? E com inteligência artificial para a detecção de alvos?

    Essas unidades vêm com radares, para identificar drones, por exemplo?

    Obrigada.

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