Meu avô costumava dizer: primeiro se arruma a casa, depois se pensa na decoração. Carrego esse ensinamento do falecido Paulo Roberto Centeno para diversas situações da vida, mas recentemente ele voltou à minha mente ao acompanhar um dos temas mais debatidos na defesa brasileira: a possível aquisição do Leonardo M-346 para a Força Aérea Brasileira — e, segundo algumas fontes, também para a Marinha do Brasil.
Este texto não pretende discutir as capacidades da aeronave italiana, que podem ser encontradas facilmente em qualquer pesquisa. O M-346 é um projeto maduro e consolidado, bem-sucedido e amplamente reconhecido por cumprir com altíssima eficiência seu papel como treinador avançado. Em sua versão FA (Fighter Attack), oferece ainda uma capacidade relevante para missões de combate leve, podendo empregar uma generosa quantidade de armamentos avançados. A questão não se trata da capacidade ou performance do modelo.

O debate público, porém, parece ignorar questões fundamentais: prioridades, necessidades e compromissos. Em outubro de 2014, o Brasil assumiu um dos maiores compromissos de sua história no setor de defesa ao assinar o contrato dos caças F-39E/F Gripen. O acordo não envolvia apenas a aquisição de 36 aeronaves, mas também um amplo programa de transferência de tecnologia destinado a fortalecer a Base Industrial de Defesa e Segurança nacional.
Na terça-feira (02) a Saab apresentou o primeiro F-39F, o modelo de dois assentos cuja participação da indústria brasileira no desenvolvimento é ainda maior. Hoje (04), o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, anunciou a intenção de comprar mais 20 Gripens para a FAB (embora esse assunto também precise ser visto de forma pragmática).
Apesar de sua importância estratégica e dos avanços alcançados ao longo dos últimos anos, o programa enfrenta atrasos significativos causados por sucessivos cortes orçamentários. O próprio Comando da Aeronáutica já revelou que os recursos absorvidos pelos 12 termos aditivos de renegociação contratual seriam suficientes para a compra de mais seis aeronaves. Seis caças que fariam alguma diferença diante da realidade atual da FAB, marcada pela evasão de servidores, limitações operacionais e pelo envelhecimento e encolhimento gradual de parte de sua frota.
Ao mesmo tempo, no final de maio o Governo Federal anunciou mais um corte nas despesas públicas. O Ministério da Defesa foi o mais afetado dentre todas as pastas, com uma retenção de R$ 4,36 bilhões no orçamento.

Diante desse cenário – que inclui ainda a falta de aviões de patrulha marítima, a necessidade de um substituto para o C-95 Bandeirante e atrasos no programa (também estratégico) do KC-390 Millennium – é inevitável questionar se a aquisição do M-346 representa a melhor aplicação dos recursos disponíveis.
Faz sentido iniciar um novo programa enquanto um dos principais projetos estratégicos do país ainda sofre com restrições financeiras? É prudente assumir novas obrigações antes de garantir a plena execução de um programa que envolve desenvolvimento tecnológico, transferência de conhecimento e ampla participação da indústria nacional? E, sobretudo, trata-se de uma necessidade prioritária para a Força Aérea neste momento?
Essas perguntas não diminuem os méritos do M-346 nem invalidam eventuais benefícios que sua incorporação poderia trazer no futuro. No entanto, elas remetem novamente ao ensinamento que abre este texto: primeiro se arruma a casa. Antes de assumir novos compromissos, é preciso garantir que aqueles já firmados sejam plenamente cumpridos. E, no caso da defesa brasileira, isso significa corrigir os problemas de programas estratégicos em andamento (ou idealmente concluí-los) e enfrentar os desafios que hoje afetam diretamente a capacidade operacional das Forças Armadas.
Respostas de 11
exatamente isso, excelente texto, não adianta pensar em outros projetos, se os principais estão parados, seria mais um para ficar parado.
e principalmente, não existe a necessidade de treinador no Brasil, já temos o A-29 para essa missão e também para ataque leve.
não precisamos de M-346, precisamos de mais Gripen.
O Brasil precisa de um caça de treinamento avançado, não da para pular do A 29 Super Tucano direto para o F 39 Gripen E/F, alem disso, precisamos substituir os AMX A1 e os A4 Skyhalwk da Marinha e o M 346 FA é perfeito para isso!
Uma coisa é certa. Quando alguém bater na porta do Brasil com os dois pés é lembrar deste governo ou qualquer outra as decisões de só pensar neles..
Esquecer de que um país não se faz com apenas palavras e sim ações concretas e realistas.
O foco da FAB deve se intensificar no programa GRIPEN. Foram investidos dinheiro nos vetores, tecnologia de construção,montágem de planta em Gavião Peixoto, especialização de Engenheiros e Técnicos e 36 aeronaves? Não tem o que pensar, se não focar no GRIPEN agora corre-se o risco de perder tudo o que foi investido. SOBERANIA!!!
O Brasil mal consegue pagar o financiamento do carro e já tá paquerando uma moto.
Acho que o Brasil deveria pensar: Qual a nossa prioridade?
Trabalhar com o que já se tem parece ser a melhor escolha. O KC e o Gripen são projetos que deram certo e necessitam de mais investimento. Os A29 desempenham seu papel com brilhantismo. Agora eu pergunto: Pq assumir um novo compromisso se não estamos honrando nem os já firmados?
Isso me parece uma excelente estratégia para “alguém” ganhar dinheiro.
Entendo bem a necessidade de reaparelhamento de todos os segmentos da Forças Armadas do Brasil! Entretanto como falar da compra de um novo modelo de caça quando sequer o 1o lote do Gripen chega por conta gotas? Os gastos sem controle do Desgoverno federal só tem piorado essa situação! Se já pagamos 6 aeronaves a mais devido aos atrasos seria muito mais interessante finalizar esse lote o mais breve possível e depois partir para outro modelo, embora desenvolver um caça leve por aqui seja muito melhor para a independência estratégica do país!
Como a questão do Gripen e do KC-390 é orçamentária, o que menos faz sentido é um a nova dívida a ser paga. Todas as opções de oportunidade, boas ou ruins, foram dispensadas por falta de verba, não tem como pensar em outro gasto como esse.
isso sim é uma matéria lúcida e madura de um dos profissionais mais conceituados do setor. Se existe um cenário nebuloso e de muitas incertezas, porque colocar as mãos aonde não podemos alcançar, pelo menos não nesse momento?
18 M 346 FA + 36 GRIPEN E/F
Concordo que a FAB precisa de uma aeronave de treinamento avançado para preencher a lacuna entre o A-29 Super Tucano e o F-39 Gripen, além de substituir gradualmente os AMX A-1 e os A-4 Skyhawk da Marinha.
A questão que me faço é se a melhor solução estratégica para o Brasil é simplesmente adquirir uma plataforma pronta ou aproveitar essa necessidade para desenvolver uma aeronave nacional.
A Embraer já possui uma enorme experiência acumulada com o Super Tucano. Talvez valha a pena estudar uma evolução do conceito, com uma nova fuselagem otimizada para propulsão a jato, maior velocidade de interceptação, radar moderno e capacidade de treinamento avançado.
Não seria um concorrente direto do Gripen, mas uma aeronave intermediária, capaz de realizar treinamento operacional, patrulha de fronteira, vigilância marítima, ataque leve e interceptação de aeronaves de baixa performance, liberando os Gripen para missões que realmente exijam suas capacidades.
Além de atender às necessidades da FAB e da Marinha, um programa desse tipo manteria ativa a capacidade brasileira de projetar aeronaves militares, preservando conhecimento, empregos qualificados e autonomia tecnológica para futuras gerações.
A pergunta não deveria ser apenas “qual avião comprar?”, mas também “que indústria aeronáutica queremos ter daqui a 20 ou 30 anos?”.