Por Gabriel Centeno e João Paulo Moralez
Na presença do ministro da Defesa da Suécia, Pål Jonson, do ministro da Defesa do Brasil, José Múcio, do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno e do presidente e CEO Micael Johansson, a Saab apresentou o primeiro Gripen F de produção mundial. O exemplar da Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu a matrícula 4000. O FAB é cliente lançadora, que comprou oito exemplares e desenvolveu o caça em conjunto com a Embraer, integrando a Base Industrial de Defesa e Segurança Nacional (BIDS).
“A apresentação do Gripen F representa uma conquista compartilhada entre a Saab, a indústria brasileira e a FAB, refletindo a profunda confiança que construímos juntos ao longo de muitos anos. O desenvolvimento dessa aeronave em conjunto demonstra a maturidade dessa colaboração, pois representa não apenas um caça altamente capaz para a Força Aérea Brasileira, mas também o resultado concreto de um desenvolvimento conjunto, fruto de uma ambição compartilhada”, afirma Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab.


Na FAB, a aeronave será usada para conversão operacional dos pilotos de caça para voarem o Gripen E (monoposto), além de treinamento avançado. Antes da entrega final à FAB, a aeronave passará por uma campanha de testes no Centro de Ensaios em Voo da Saab (Flight Test Centre), na Suécia.
Além do Brasil, a Tailândia e a Colômbia adquiriram o Gripen F, num total de três aeronaves, somando esses dois últimos países que compraram o Gripen.
Treinamento e muito mais
Segundo a Saab, a transição para o Gripen E é mais rápida e econômica com o Gripen F, dispensando o uso de aeronaves intermediárias, uma vez que o piloto já treina na mesma filosofia aviônicos e estrutura de apoio de solo, por exemplo. Além disso, a comunalidade entre os aviões é enorme, o que otimiza os custos de manutenção.
Sobre isso, no Brasil, frequentemente têm surgido boatos sugerindo a necessidade de adquirir um avião de desempenho inferior ao Gripen para complementar essa transição operacional.

A Saab, porém, ressalta que a plataforma foi desenvolvida para conduzir missões em cenários contestados e de alta complexidade.
Ao adicionar um segundo tripulante na cabine, é possível coordenar ações na profundidade do território inimigo, fazendo uso de sistemas de ponta de guerra eletrônica, por exemplo, além de armamentos que visam destruir a infraestrutura crítica de operação do adversário.
No Gripen F, os cockpits são idênticos e independentes entre si, o que significa que todas as tarefas podem ser feitas por qualquer um dos pilotos. Assim, é possível distribuir tarefas ao longo da missão, reduzindo a carga de trabalho e maximizando a eficiência da missão.
Por outro lado, pode ser usado como um vetor de comando e controle no céu, conduzindo missões em conjunto com aeronaves não tripuladas, coordenando ataques massivos de drones ou gerenciando sistemas não tripulados de combate aéreo.

Mesmos sensores, mesmos armamentos
O Gripen F guarda semelhanças operacionais quase idênticas com o Gripen E. Apesar de não dispor do canhão Mauser Bk27, o caça pode levar armamentos, sensores e tanques de combustível em 10 pontos nas asas e na fuselagem, incluindo os mísseis ar-ar de longo alcance MBDA Meteor e o de curto alcance IRIST-T, que já fazem parte do arsenal da FAB.
Também poderão usar as bombas de pequeno diâmetro GBU-39, o míssil antinavio RBS 15, o míssil de cruzeiro contra fortificações Taurus KEPD 350 e os mísseis de cruzeiro em “miniatura” SPEAR, além de sistemas interferência eletrônica como o LADM, que são lançados pelos caças criando uma zona de segurança para a força aérea agir de forma impune no espaço aéreo inimigo. Por fim, também podem empregar os sensores Reccelite XR e Litening 5 para missão de reconhecimento tático e designação de alvos para armamentos guiados a laser.

Dimensões
O Gripen F possui a mesma envergadura do Gripen E, com apenas 70 cm a mais de comprimento (total de 15,9 m). Assim como a versão monoposta, a nova variante deverá guardar as mesmas características de pouso de decolagem em pistas extremamente curtas e estreitas, além da já conhecida facilidade de reabastecer e rearmar o Gripen em 15 minutos para uma missão de defesa aérea com uma equipe de um sargento e quatro recrutas, por exemplo. O motor pode ser trocado em uma hora.
Transferência de tecnologia
Por meio de um amplo programa de transferência de tecnologia, o Brasil participou do desenvolvimento do Gripen F. Centenas de engenheiros e técnicos foram capacitados na Suécia, ao mesmo tempo em que a base industrial de defesa fortaleceu conhecimentos avançados em projeto e desenvolvimento.
A Embraer desempenhou um papel estratégico, abrangendo desde as atividades de engenharia até etapas críticas de projeto e integração de sistemas.

A adaptação do Gripen E para a configuração biposta exigiu modificações significativas. Entre elas estão a instalação do segundo assento, dos comandos de voo traseiros e do Wide Area Display (WAD), além de alterações nos sistemas de oxigênio, energia elétrica e ar-condicionado. O projeto também demandou estudos estruturais, aerodinâmicos e aeroelásticos, além do redesenho da fuselagem dianteira, das entradas de ar e da reorganização da aviônica.
Em março de 2018, equipes da Embraer e da Saab concluíram o projeto preliminar da fuselagem dianteira e das entradas de ar do motor, trabalho desenvolvido entre o Brasil e a cidade de Linköping. A etapa foi fundamental para validar a integração de sistemas e preparar a futura produção da aeronave. Em dezembro do mesmo ano, foi finalizado o projeto preliminar do restante da aeronave, com revisão e análise de engenharia realizada pela Akaer, abrindo caminho para as fases de revisão e detalhamento.

O envolvimento brasileiro tornou-se possível após um extenso programa de transferência de tecnologia. Um primeiro grupo de cerca de 50 profissionais da Embraer passou por treinamento na Suécia, incluindo atividades práticas de engenharia, absorvendo conhecimentos que hoje sustentam a participação nacional em um dos mais avançados programas aeronáuticos em desenvolvimento no Ocidente.
Além da Embraer, a AEL Sistemas também tem participação na cadeia global de fornecedores do Gripen E/F. Com sede em Porto Alegre, desenvolveu e produz o display do painel de grandes dimensões (“Wide Area Display”), o mostrador digital ao nível dos olhos do piloto (“Head-Up Display”) e o capacete com mira integrada (“Helmet Mounted Display”).

Por fim, em São Bernardo do Campo, a Saab Brasil produz a fuselagem dianteira (do Gripen E) e a fuselagem traseira, o cone de cauda e o freio aerodinâmico, essas três últimas são comuns às duas variantes.