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IDV 10 anos – O renascimento da indústria de blindados no Brasil

No ano de 2023, a planta da IDV LatinAmerica completou 10 anos, um marco que representa um importante avanço e que contribui o desenvolvimento tecnológico do País. Desde 2013, a fábrica de Sete Lagoas (MG) já produziu mais de 690 veículos do tipo viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP) 6X6 Guarani, entregues para o para o Exército Brasileiro (EB), Líbano e Filipinas, participou da montagem final do primeiro lote de 32 unidades do Guaicurus 4X4 e fará a produção das futuras VBC Cav 8X8 Centauro II.

Depois de ter contado com uma pujante indústria de blindados, com empresas de renome internacional como Engesa, Bernardini e outras, e milhares de unidades produzidas e que foram empregadas em combates reais em diversas partes do mundo, o Brasil passou por uma grande crise econômica que impactou diretamente toda a sua capacidade fabril e decretou o fechamento da maior parte de sua indústria bélica, levando, novamente, à dependência de importações para atender as demandas nacionais.

Em 1996, o EB encontrava-se em uma situação difícil, pois alinhava quase 700 blindados sobre rodas da antiga Engesa, já bastante desgastados operacionalmente e sem o suporte adequado (por conta do fechamento da empresa). Assim, iniciou um grande programa de recuperação no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), o chamado Projeto Fênix, com o objetivo de recuperar, revitalizar e manter toda a frota em condições operacionais por mais 15 anos, mas com a ciência que era uma solução emergencial e temporária.

Com o relativo sucesso da iniciativa, foram iniciados estudos para o desenvolvimento de uma família de blindados que pudesse substituir aqueles veículos, levando-se em conta dois objetivos principais; elevar a operacionalidade da força mecanizada para os padrões da época; e restaurar a capacidade perdida da indústria nacional em projetar, produzir e manter essas viaturas. Diante do enorme desafio, em 2006, surgiu o programa da Nova Família de Blindados de Rodas (NFBR), que contemplava a aquisição de uma nova família de viaturas blindadas sobre rodas e que se iniciou com a sucessora das antigas VBTP 6X6 EE-11 Urutu.

O programa ficou sob a responsabilidade do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), após meses de tratativas e estudos, no qual foram criados todos os requisitos e concepção inicial do projeto. Foi então aberta uma concorrência para definir quem iria ficar responsável pelo seu desenvolvimento final e industrialização, do qual cinco grandes grupos industriais participaram, sagrando-se vencedor o consorcio formado pela FIAT do Brasil e Iveco Latin America, iniciando o atual ciclo da fabricação de blindados no Brasil.

Parte externa da fábrica (Foto: IDV)

OS FRUTOS

A IDV, que tem sede fica na cidade de Bolzano, no norte italiano, na fábrica antiga da Lancia Veicoli Speciali (uma tradicional fabricante de veículos pesados, civis e militares, fundada em 1937 e que se tornou parte do Grupo Iveco em 1975), possui atualmente oito unidades de produção, localizadas em cinco países, sendo que a brasileira foi a primeira unidade da empresa fora do continente europeu.

Pista de testes de rodagem (Foto: IDV)

A IDV LatinAmerica está localizada na cidade de Sete Lagoas (MG) e foi ativada oficialmente em 13 de junho 2013, apesar de já existir um escritório ativo desde 2006. No momento conta com uma planta de 18 mil m² e uma força de trabalho de 300 funcionários diretos, altamente qualificados (além de gerar mais 1.400 empregos indiretos), fazendo parte de um grande complexo industrial automotivo daquele Estado. Já no ano de sua criação entregou as primeiras viaturas blindadas de transporte de pessoal média sobre rodas (VBTP-MSR) 6X6 Guarani ao EB, alcançando a marca de 100 viaturas produzidas em 2014; 300, em 208; 500, em 2021; e alcançará a marca de 700 unidades no primeiro  semestre de 2024.

A entrada em serviço das VBTP 6X6 Guarani causou toda uma mudança doutrinária na Força Terrestre, iniciando um processo de modernização, que ainda está ocorrendo, elevando os patamares de operacionalidade aos padrões do século 21. O Exército Filipino, que adquiriu um primeiro lote de 28 unidades em 2021 e está negociando um segundo e tem intenção de adquirir 114 viaturas no total, sendo que os cinco primeiros já foram oficialmente entregues, devendo entrar em operação no próximo ano. Os de Gana, adquiridos também em 2021, começam a ser produzidos no próximo ano. Com as encomendas existentes e as previstas, junto às novas versões em desenvolvimento, espera-se que a produção venha a se estender por ainda muito tempo à frente.

Em conversa com a reportagem de T&D, o general-de-divisão Tales Eduardo Areco Villela, diretor de Fabricação do Exército Brasileiro, comentando o fato disse que “A área de Defesa Nacional é, sempre foi e sempre será, um desafio para qualquer país. Em particular, manter uma indústria bélica local, inovadora e efetiva, é algo complexo e desafiador, que envolve diversas áreas, dos setores público e privado, num contexto geopolítico nacional e internacional. Diante desse panorama, após um hiato tecnológico de quase duas décadas no mercado nacional no que tange à produção de blindados para a Força Terrestre, em 2007, foi dado o primeiro passo para a consolidação da IDV com uma das empresas pilares da atual Base Industrial de Defesa e Segurança do Brasil. Naquele ano, foi assinado o primeiro contrato entre o EB e a FIAT Automóveis S/A – Divisão Iveco Fiat Brasil, sua denominação anterior, contemplando o desenvolvimento do projeto da atualmente consolidada VBTP-MSR 6X6 Guarani”.

E continuou o general Tales Villela “Após diversos novos contratos com o EB, no momento, a empresa acumula mais de 600 VBTP 6X6 Guarani fabricadas, produzidas no País e com índice de nacionalização superior a 60% em termos de custo, vários postos de suporte logístico distribuídos em diversas organizações militares. Além disso, destacam-se as exportações realizadas ou em andamento do Guarani para outros países, bem como a inclusão de outros produtos do portfólio da IDV na frota de blindados do EB. Dessa forma, fica caracterizado que é factível, e mais que necessário, no mercado de defesa, uma parceria longeva, que envolva a indústria e as Forças Armadas, madura, estratégica e de sucesso, garantindo o desenvolvimento industrial do País e a sua própria soberania.”

As três principais versões do Guarani em uso pelo Exército: com as SARC REMAX e UT30BR e torre manual (Foto: IDV)

EVOLUINDO

Terminada uma intensa concorrência internacional, o LMV-BR 4X4, da IDV, foi selecionado como a viatura blindada multitarefa leve sobre rodas (VBMT-LSR) do EB, devendo-se isso à inegável capacidade do veículo, e também ao fato de a empresa já contar com um grande parque industrial instalado no País, garantindo o suporte logístico local e a comunalidade com a família Guarani.

Os primeiros 32 Guaicurus (designação do LMV-BR) já foram entregues e se encontram operacionais. Tiveram sua montagem final e integração de sistema de armas e comando e controle feitas na fábrica de Sete Lagoas, que adaptou sua planta para a nova produção. Atualmente, o EB negocia uma ampliação dos dois próximos lotes (que seriam de 77 unidades, cada), além de substituí-los pela versão LMV2-BR, com melhor desempenho e maior carga útil, para os quais a IDV está se preparando para os trabalhos.

VBC Cav 8X8 Centauro II, do lote-protótipo do EB, em testes na Itália (Foto: EB)

Outro blindado que em breve deverá entrar em linha produtiva é a viatura de Cavalaria (VBC Cav) 8X8 Centauro II, da CIO (Consortium Iveco- OTO Melara), uma “joint venture” entre as empresas IDV e Leonardo. Vencedor de uma grande licitação no final de 2022, quando o carro superou concorrentes de “peso”. Ademais de ser considerado o melhor em sua categoria, como ocorreu com o Guaicurus, a capacidade de suporte e nacionalização de componentes influenciou no resultado. De acordo com o cronograma estabelecido pelo EB, dos 98 Centauro II adquiridos, 78 serão fabricados no Brasil, com produção prevista para iniciar em 2027, a partir do terceiro lote.

Para poder executar a tarefa, a IDV iniciou um ambicioso projeto de expansão de 5 mil m², cujas primeiras etapas já estão em andamento como a contratação e qualificação de mais funcionários, aumento da linha de fornecedores, já que se trata de um veículo de extrema complexidade tecnológica. Por outro lado, não será um desafio tão grande já que a empresa tem em seu portfólio viaturas que representam o “estado-da-arte” nas respectivas categorias. Apesar de fazer parte de um grande conglomerado italiano, a IDV LatinAmerica é feita por brasileiros e se destaca por contribuir com a independência tecnológica, formação de mão de obra altamente qualificada, contribuindo para manter e elevar as capacidades militares brasileiras.

“A parceria entre a IDV e o Exército Brasileiro tem sido fundamental para a nossa planta do Brasil completar 10 anos, proporcionando que o nível de operação da empresa se mantivesse em patamares adequados e possibilitando a exportação da viatura Guarani 6X6 para países do Oriente Médio e Ásia. A presença de comissões da Diretoria de Fabricação (DF) e Chefia de Material (CMat) do EB integralmente nas instalações da IDV têm sido essenciais no intercâmbio de conhecimento e comunicação nos projetos”, declarou Humberto Marchioni Spinetti, presidente IDV LATAM.

O LMV-BR 4X4 no campo de testes da empresa, o mais moderna da América Latina (Foto: IDV)

 

 

 

  Matéria publicada na edição nº 173 da revista Tecnologia & Defesa

 

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Respostas de 12

  1. Bastos, primeiro parabéns por mais uma excelente matéria, sobre o Centauro II, aquelas duas primeiras viaturas chegam este ano ainda ??? Outra questão meio que paralela ,rs,vc sabe se o segundo protótipo do Cascavel modernizado já foi apresentado ao EB

    1. Sim! E não só ela, quanto qualquer empresa do segmento de máquinas pesadas. Basta para isso interesse, comprometimento e investimento.
      Acontece que o EB jamais acenou com a ideia de “desenvolver um MBT para o Brasil” no atual estudo para a VBC CC sucessora do Leopard 1A5.
      Você pode conferir o que tem até o momento nos programas do EB aqui em T&D, faz uma pesquisa usando a “lupinha” 😉

  2. Bastos muito bom artigo, como sempre.
    Somente um dúvida, o que aconteceu com o guarani 2.0 ainda vai acontecer este upgrade para a plataforma?

  3. Ótima matéria, muito bem comentada. O Brasil, gigante como é em tamanho e riquezas naturais , não pode desleixar de suas forças armadas. Este projeto é muito importante e necessário. Mas… Vamos transferir grandes recursos para uma empresa estrangeira, enquanto temos empresas, engenharia e talentos internamente sub utilizados – vide AVIBRAS- Se algum dia o país for atacado , ficaríamos por conta própria , A Itália do outro lado do mundo não poderia nos ajudar. Acho que falta visão estratégica aos nossos “lideres” – 5% do PIB em defesa , temos muito a perder.

  4. Bastos, pelo que vemos o mundo caminha para uma guerra generalizada e a capacidade produtiva das empresas ocidentais de MBTs ficará restrita aos países da Otan quase que exclusivamente.
    Na sua opinião, qual caminho o EB deveria seguir se esse cenário se confirmar ?

    Recentemente vimos que a Turquia investe pesado em modernizações de M60, seria esse o caminho ideal para o EB também ?

  5. Bastos, Eu fiquei na duvida, essa tal UT30BR2 que estao desenvolvendo seria um remake da UT30BR ja de posse do Exercito ou seria a própria UT30MK2 da Ares Defesa.

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