Chovendo no molhado

(Cláudio Capucho/Saab)

O vocabulário brasileiro é repleto de expressões que enriquecem nossa forma de falar, cada uma carregando um significado próprio. Possivelmente uma das mais populares é “chover no molhado”: fazer ou dizer algo redundante, falar o óbvio, insistir em um assunto já conhecido ou repetir uma informação que ninguém mais contesta. Afinal, continuar chovendo sobre algo que já está molhado não muda o resultado.

A recente reportagem publicada pelo portal Metrópoles apenas reforçou algo que há muito tempo já faz parte do debate sobre a aviação de caça brasileira: a própria Força Aérea Brasileira reconhece oficialmente que os 36 F-39 Gripen atualmente contratados não são suficientes para cumprir as necessidades da defesa aérea do país.

Segundo a matéria, o Comando da Aeronáutica (COMAER), em resposta ao deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança, presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional na Câmara dos Deputados, informou que uma frota de 66 aeronaves seria a quantidade adequada para cumprir essa missão e reafirmou a intenção de adquirir novos lotes do Gripen.

F-39 Gripen no alerta de defesa aérea em Anápolis (Sgt. Müller Marin/FAB)
F-39 Gripen no alerta de defesa aérea em Anápolis (Sgt. Müller Marin/FAB)

É uma constatação que não traz exatamente uma novidade. A FAB reconhece essa necessidade desde a assinatura do contrato do Gripen, em outubro de 2014. A insuficiência do número de aeronaves jamais foi um segredo. O próprio planejamento da Força sempre tratou os 36 caças como um primeiro lote, nunca como a solução definitiva para a renovação da aviação de caça.

O reconhecimento oficial, portanto, acaba tendo pouco efeito prático enquanto não é acompanhado por decisões concretas. Em outras palavras, a Aeronáutica volta a afirmar aquilo que já se sabe há mais de uma década: o Brasil precisa comprar mais caças.

Ao longo desses anos, vários números foram apresentados como referência para a futura frota: 108 aeronaves, 96, 80, 66, 50. Também surgiram diferentes possibilidades para viabilizar novas aquisições, desde aditivos ao contrato original até negociações envolvendo o KC-390 Millennium e outras formas de cooperação industrial entre Brasil e Suécia. Nenhuma delas saiu do papel.

Enquanto isso, o Programa Gripen acumulou avanços importantes, especialmente nos últimos dois anos. O F-39 foi validado para reabastecimento em voo com o KC-390; realizou lançamentos do míssil Meteor e de bombas convencionais e guiadas; exercitou o tiro com o canhão de 27 mm; registrou o rollout do primeiro modelo produzido na Embraer e da primeira aeronave com dois assentos, o Gripen F; ampliou sua participação em exercícios multinacionais no Brasil e no exterior e segue expandindo suas capacidades operacionais.

(João Paulo Moralez)

Paradoxalmente, quanto mais o programa evolui tecnicamente, mais evidente se torna a ausência de decisões sobre sua continuidade. O próprio COMAER já reconheceu que atrasos em pagamentos impactaram o cronograma do projeto. Ainda assim, o debate sobre novos caças continua restrito ao campo das intenções.

O movimento mais recente foi a declaração conjunta assinada pelos ministros da Defesa do Brasil e da Suécia manifestando a intenção de negociar um novo lote de 20 aeronaves. Trata-se de um sinal positivo, mas insuficiente para alterar o cenário atual. A decisão ficará para o próximo governo, que assumirá após as eleições deste ano.

E é justamente aí que reside o verdadeiro problema da defesa brasileira. Os programas avançam, mas não ganham continuidade. Modernizações acontecem, porém sem previsibilidade. Historicamente reconhecem-se necessidades, anunciam-se intenções, discutem-se cenários, mas as assinaturas dos contratos permanecem sempre para depois. 

No fim, o diagnóstico nunca foi o problema. Todos sabem que 36 Gripen não bastam para um país com as dimensões e as responsabilidades estratégicas do Brasil. O que falta não é reconhecer essa realidade, mas transformá-la em decisão. Enquanto isso não acontecer, continuaremos chovendo no molhado.

Enquanto não houver avanços concretos, ficaremos chovendo no molhado (Saab/Divulgação)
Enquanto não houver avanços concretos, ficaremos chovendo no molhado (Saab/Divulgação)

COMPARTILHE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *