Gabriel Ribas
Os rádios da família Mallet surgiram para atender a uma necessidade específica da artilharia do Exército Brasileiro (EB). Hoje, representam um dos exemplos mais concretos de soberania nacional na área de defesa.
O INÍCIO
A história do desenvolvimento do rádio Mallet tem começa no início da década de 1990, quando o então 1º tenente de Artilharia Cláudio Nossar Paranhos Júnior, na época aluno de Engenharia eletrônica do Instituto Militar de Engenharia (IME), iniciou os estudos para seu projeto de fim de curso.
O trabalho consistia no desenvolvimento de um sistema digital de comando e controle, motivado pela necessidade de modernizar a capacidade de apoio de fogo da Artilharia do EB, e esse acabaria se transformando em um programa envolvendo a Força Terrestre e a empresa IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), através da Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica (FMCE), localizada na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Porém o projeto acabaria encontrando um obstáculo fundamental: o rádio VHF EB11-RY20/ERC.
O RY-20 era a versão brasileira do americano AN/PRC-77, um rádio desenvolvido no final da década de 1960 e produzido aqui pela então AEG Telefunken do Brasil S/A, posteriormente absorvida pela Gradiente em 1989.
Embora originalmente concebido como um rádio do tipo “manpack” (um rádio de campanha, campanha, projetado para ser transportado nas costas por um soldado, normalmente acondicionado em uma mochila ou integrado a um conjunto de mochila), o RY-20 também recebeu versões veiculares, designadas EB11-ERC 201, 202, 203 e 204. Essas variantes equipavam os M108 e M109A3 empregados pela Artilharia do EB.

Como o RY-20 era incapaz de oferecer a robusta capacidade de transmissão de dados necessária ao Sistema Gênesis, o então major Paranhos passou a fomentar o desenvolvimento de uma nova família de rádios VHF nacionais, desenvolvida pela IMBEL e capaz de atender a essa demanda. Esses equipamentos viriam a ser denominados TRC-1193 “Mallet”.
O protótipo do novo rádio foi apresentado publicamente pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) em novembro de 2010, durante uma apresentação aos membros do Alto Comando do Exército da época, juntamente com outros equipamentos e sistemas avançados, como o Sistema Tático de Apoio à Guerra Eletrônica MAGE, em sua versão veicular. Na ocasião, foi apresentado o protótipo do Radio_, além do mesmo rádio integrado a uma base veicular e a um amplificador de potência, configuração que será discutida posteriormente neste artigo.

Não demorou muito para que a IMBEL aplicasse esses rádios em sistemas destinados a outras áreas além da Artilharia. Na verdade, em 2010, a empresa desenvolveu e testou um Sistema de Comando e Controle (SisC2) para a viatura blindada de transporte de pessoal (VBTP) 6X6 Guarani, que utilizava o TRC-1193 veicular versão 202.
O sistema era composto por:
- Software C² desenvolvido pelo CComGEx;
- Sistema de intercomunicação WVIS07, da Selex Communications;
- Transceptor TRC-1193 veicular, versão 202;
- Notebook robustecido Panasonic CF-19;
- Telefone externo; e
- Duas antenas e uma base de antena VHF de banda larga com GPS integrado.
O TRC-1193 versão 202 consistia no protótipo Manpack do rádio, integrado a uma base veicular e equipado com um amplificador de potência. Essa configuração inicial foi apresentada no protótipo da VBTP Guarani, equipado com a torre UT-30BR, durante a LAAD 2011.

Com base em novos requisitos estabelecidos pela Diretoria de Fabricação (DF) em 2011, um segundo TRC-1193 Manpack foi integrado à base veicular. A medida foi necessária porque a VBTP Guarani precisava de um rádio dedicado à transmissão de dados para o Sistema de Gerenciamento de Campo de Batalha (GCB) e à transmissão de voz sem hierarquia, enquanto o segundo rádio seria destinado à comunicação de voz com os escalões superior e subordinado. Esse modelo de configuração permanece em uso até os dias atuais.
No entanto, os TRC-1193 não chegaram a ser adotados operacionalmente pelo EB no VBTP Guarani, já que a solução preferida foram os rádios Falcon III RF-7800V-V560, da L3Harris, principalmente devido à interoperabilidade oferecida por essa família de rádios.

Em 2012, a IMBEL/FMCE alocou recursos financeiros significativos para a aquisição de máquinas e equipamentos, com o objetivo de fabricar o lote piloto dos rádios.
Na LAAD de 2016, as versões definitivas dos rádios foram apresentadas nas configurações TRC-1193V (Veicular) e TRC-1193B (Manpack), que posteriormente entraram no catálogo de produtos da IMBEL/FMCE por volta de 2018. Ambas as versões foram homologadas pelo EB em 2024, após rigorosos testes realizados no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).
A partir da homologação, o Mallet iniciou uma nova etapa de sua trajetória no Exército Brasileiro. As primeiras unidades operacionais do rádio foram efetivamente entregues em dezembro de 2025 ao 1º Depósito de Suprimento (1º D Sup), no Rio de Janeiro (RJ), destinadas à equipagem de viaturas da 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada (3ª Bda C Mec), na versão veicular.
Notavelmente, os novos 420 LMV-BR2 Guaicurus do Exército serão equipados com o TRC-1193V Mallet, que fará parte do sistema de comando e controle das viaturas.

SUAS CAPACIDADES
Ambas as versões do Mallet, Veicular e Manpack, funcionam na faixa de frequência VHF (30 a 88 MHz), tendo como principal diferença o alcance, com o TRC-1193V sendo capaz de transmitir a até 32 km e o TRC-1193B a até 12 km, já que sua potência de transmissão é menor. O TRC-1193V possui potência de transmissão selecionável entre 1 W e 50 W, enquanto o TRC-1193B opera com 1 W, 2 W, 5 W e 12 W. Ambos são multicanais, o que permite que transmitam voz e dados de forma simultânea.
Embora estes sejam catalogados como rádios digitais e a IMBEL faça questão de diferenciá-los de rádios definidos por software (RDS), são, na prática, mais rádios RDS do que simplesmente digitais.
Fazem uso da arquitetura Software Communications Architecture (SCA) 4.1, a mesma do RDS Defesa do CTEx/AEL Sistemas, utilizando o software de infraestrutura embarcada (“Core Framework”) desenvolvido pela IMBEL/FMCE. Isso permite diversos tipos de atualizações, como a inserção de novos tipos de Forma de Onda (FO) para comunicação com outros tipos de rádios.
Essa facilidade de atualização das formas de onda é importante porque, quando um rádio não opera com a mesma forma de onda ou não possui compatibilidade com a utilizada pelo outro, é como se fossem duas pessoas de nacionalidades diferentes tentando se comunicar em suas línguas originais. Nenhuma delas entende o que a outra está dizendo e, portanto, não conseguem se comunicar.
A segurança da transmissão é garantida por criptografia de 256 bits, sem “backdoor” (em tradução literal “porta dos fundos” e se refere a um mecanismo de acesso oculto), ou seja, o acesso ao conteúdo da comunicação depende de uma chave de acesso válida. O rádio também conta com capacidade de salto de frequência, na qual a frequência de operação é alterada várias vezes por segundo, seguindo um padrão conhecido apenas pelos transmissores e receptores autorizados. Dessa forma, o sistema se torna altamente resistente a interferências eletrônicas e dificulta sua interceptação.
O equipamento também conta com estrutura de rede sem fio (“wi-fi”) para tablets e notebook e bluetooth, além da capacidade de utilizar um rádio como estação retransmissora.
O GPS integrado permite determinar a posição da viatura e transmitir essas informações ao sistema de gerenciamento do campo de batalha, sem a necessidade de uma antena externa dedicada exclusivamente à recepção do sinal GPS no veículo.
Graças à capacidade, já mencionada, de receber atualizações em diferentes áreas de sua arquitetura, a IMBEL atualmente trabalha no desenvolvimento de funcionalidades relacionadas a redes MANET/MESH.
Esse tipo de capacidade permite que os rádios da família Mallet formem uma rede na qual os equipamentos podem retransmitir dados entre si, sem depender necessariamente de estações físicas fixas. O alcance total da rede pode ser ampliado conforme a quantidade e a distribuição dos rádios disponíveis, criando múltiplos caminhos para a transmissão das informações.
Na prática, isso permite a formação de uma rede móvel e descentralizada, com elevada capacidade de atualização das informações. Caso um dos nós da rede seja perdido, os demais equipamentos podem utilizar outros caminhos disponíveis para manter a comunicação, aumentando a resiliência da rede no campo de batalha, aonde cada soldado, Veículo e aeronave fazem parte.

CONCLUSÃO
Os rádios Mallet são produtos homologados, testados e efetivamente adquiridos pelo EB, demonstrando na prática o que a Base Industrial de Defesa brasileira é capaz de executar.
Suas capacidades os colocam em condições de competir tecnologicamente com sistemas similares desenvolvidos no exterior, ao mesmo tempo em que oferecem uma capacidade estratégica avançada, desenvolvida, fabricada e mantida no Brasil por profissionais brasileiros.
Mais do que um equipamento de comunicações, o Mallet representa a capacidade do país de dominar tecnologias críticas para suas Forças Armadas e reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.
| N.A.: Este artigo foi montado utilizando exclusivamente fontes oriundas do Exército e da IMBEL e informações públicas, mesmo assim, como rádios nacionais no geral tem muito poica divulgação, tive que utilizar contextos da época e executar análise de imagens para alcançar a devida coerência. Convido a todos que tenham correções ou informações adicionais a interagirem na seção de comentários da página e agradeço imensamente pela atenção prestada até agora. |