O futuro das VBTP Urutu do Exército

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Um VBTP 6x6 EE-11 Urutu, da versão M6 e modificado para missões GLO, do 15º RCMec(Es), em 2018 (Foto: EB)

No final do ano passado, o Exército Brasileiro (EB) criou um grupo de trabalho (GT) para propor linhas de ação para a desativação e transformação das viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP) 6X6 EE-11 Urutu, da extinta ENGESA e um de seus principais objetivos é o aproveitamento das 229 unidades (de 14 versões diferentes) ainda em carga, seja para sua utilização como viatura especializada dentro da Força ou como viatura blindada para dar suporte as nossas forças de segurança pública, como já foi feita para a Polícia Militar do Estado do Rio de janeiro (PMERJ) e Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN).

Independente para qual destino essas viaturas sigam, elas deverão passar por um processo de revitalização, padronização e modernização para que possam cumprir suas novas missões com eficiência, e o Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), organização militar subordinada à Diretoria de Fabricação (DF), com o auxilio de empresas privadas brasileiras, tem todas as condições de fazer isto.

Um pouco de história pós 2010

Em 2010 por intermédio do contrato de objetivos logísticos firmado entre o AGSP e o Comando Logístico (COLOG), dentro do escopo do Projeto Fênix, foi revitalizada uma viatura Urutu modelo M6, e teve início a manutenção das viaturas mais antigas, modelo M2, que foram inseridas no Projeto Fênix, com diversos de seus subsistemas foram atualizados e modificados.

Nos modelos mais antigos o subsistema pneumático teve a substituição das válvulas eletropneumáticas por pneumáticas e o subsistema elétrico, de dupla tensão 12/24 volts, foi modificado para um de tensão única de 24 volts, tornando-os equivalentes aos empregados nos modelos mais novos (M5 e M6), com um total de 35 viaturas revitalizadas, sendo 17 em 2010 e 18 em 2012.

Em 2012, foram repatriadas do Haiti oriundas da Missão de Paz das Nações Unidas no Haiti (Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haïti – MINUSTAH), cinco viaturas Urutu, modelo M6, que já haviam sido sido revitalizadas e modernizadas anteriormente, para serem novamente recuperadas dentro do Projeto Fênix.

Uma VBTP Urutu, modificada para operações urbanas, utilizada pelo EB no Haiti (Foto Ricardo Furlan)

Em 2013, após concorrência publica vencida pela empresa Universal – Importação, Exportação e Comércio LTDA, foi desenvolvido um novo projeto de modernização VBTP Urutu, sendo produzido uma viatura protótipo a partir do modelo M2, cujo principal escopo foi a instalação de um conjunto motor-câmbio com unidades de controle eletrônicas, sendo modelo de modelo Cummins da série ISBe de 220 cv de potência e a caixa de transmissão Allison 3000SP, concorrendo para alterações significativas dos sistemas anexos ao trem de força, além de modificações no sistema de transmissão. A modernização também contemplou a instalação de freios a disco, a instalação de sistema de enchimento de pneus, a instalação de ar condicionado, além das já citadas modificações dos subsistemas pneumático e elétrico.

Também em 2013, foram produzidas no AGSP quatro viaturas Urutu versão Ambulância, sendo destas, três delas montadas a partir de monobloco do modelo M2 e uma do modelo M7, sendo que esta ultima era originário de um lote da versão porta-morteiro adquirido na massa falida da ENGESA. O escopo dos serviços de montagem destas versões foi espelhou-se na padronização com a mecânica empregada nos modelo M6.

Ainda quanto ao histórico das viaturas Urutu modelo M2, em 2014, foram inseridas 17 viaturas para uma modificação mais ampla, para torná-las mais próximas ao modelo M6, sendo as principais:

  • Substituição do motor Mercedes-Benz OM 352 A, de 156 cv, por um OM 366, de 172 cv;
  • Substituição da caixa de mudanças Mercedes-Benz G3-36, manual, por uma Allison MT643, automática;
  • Substituição da caixa de transferência;
  • Modificação dos subsistemas pneumático e elétrico;
  • Instalação de sistema de freios a disco;
  • Instalação de sistema de ar condicionado;
  • Instalação de sistema de abertura e fechamento remoto da porta traseira;
  • Instalação de para-brisas; e
  • Instalação de cintos de segurança.
Um lote de VBE-Amb Urutu, modernizadas pela Universal no AGSP, sendo entregues em 2016 (Foto: EB)

Já em 2015 houve uma nova concorrência publica, desta vez vencida pela empresa Columbus Internacional LTDA, para a modernização de um Urutu, modelo M2, porem com a proposta de desenvolver um novo sistema de força (powertrain), que garantisse uma maior capacidade operacional e logística, além de apresentar novas soluções para colocar a viatura nos patamares atuais.

Dentre as soluções feitas neste protótipo, além da total recondicionado da carroceria, encontram-se:

  • Substituição do motor Mercedes-Benz OM 352 A, de 156 cv, por um Cummins 6.7L sobrealimentado, de 260 cv (mas limitado a 220 cv), que faz a viatura alcançar 110 km/h;
  • Substituição da caixa de mudanças Mercedes-Benz G3-36, manual, pela Allison, Serie 3000, eletrônica, de seis velocidades;
  • Adaptação da caixa de transferência ENGESA, para a nova motorização; e
  • Sistema de freios de tambor atualizado para disco nas seis rodas.

Este protótipo foi avaliado pelo foi avaliado pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), o “Campo de Provas da Marambaia/1948″,em uma cooperação técnica, e atualmente está em operação pelo 16º Batalhão Logístico (16º Blog), o “Batalhão Tenente-General Napion”, de Brasília (DF), e participou da capacitação de agentes penitenciários DEPEN e integrantes da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP).

A VBTP EE-11 Urutu M2, modernizada pela Columbus no AGSP, sendo utilizada para capacitação de agentes de segurança pública no 16º BLog, em 2020 (Foto: soldado M. Silva)

Já em 2020, houve uma nova concorrência, também vencida pela empresa Columbus, para a conversão de outra viatura Urutu M2, utilizando as modificações utilizadas no protótipo anterior, porem convertido para uma viatura policial, para utilização em atividades de garantia da lei e da ordem (GLO) e operações urbanas.

Nesta viatura foram incluídos diversos novos implementos, como:

  • Instalação de uma lâmina frontal para remoção de obstáculos (“limpa-trilhos”), de acionamento hidráulico;
  • Sistema de abertura de portas assistido por sistema pneumático;
  • Instalação de um moderno sistema gerador de ar-comprimido para ser utilizado nas aberturas das portas e enchimento automático dos pneus em caso de perfuração; e
  • Instalação de um sistema de ar-condicionado.

Os trabalhos foram iniciados em 23 de março de 2021 e a viatura foi entregue em fevereiro deste ano, onde aguarda no AGSP a decisão do COLOG para sua unidade de destino.

O Urutu modernizado pela Columbus no AGSP, convertido em blindado policial, durante sua preparação, em 2021, e na sua entrega, em 2022(Fotos: Hélio Higuchi e AGSP)

Conclusão

Com as entregas das VBTP 6X6 Guarani para as unidades de Cavalaria mecanizada do EB, os Urutu vem perdendo sua função principal, que é o transporte e apoio ao Grupo de Combate Mecanizado, que resultará em sua desativação, porem, pelo fato de serem viaturas ainda eficientes e de grande simplicidade de manutenção, se devidamente modernizadas, podem continuar a prestar bons serviços, como alias é feito em diversos exércitos pelo mundo, podendo ser utilizada como viatura especializada (como ambulância, comando e controle, etc..) dentro da Força.

Porem, o Urutu, um dos marcos da indústria bélica nacional, adquiridos pelo EB, Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e exportado para 11 países (e reexportado para quase uma dezena), ainda pode ser mais muito útil as forças de segurança pública no Brasil (desde que preparadas logisticamente), servindo como viatura tática policial de unidades especializadas.

Surgindo como uma opção de baixo custo de aquisição, com todo seu ciclo de manutenção dominado no pais, seja pelas iniciativas do AGSP ou por soluções apresentadas por empresas nacionais, é bem provável que vejamos estas icônicas viaturas, cujo projeto foi iniciado a mais de 50 anos, operando no Brasil ainda por muito tempo, porem com um “novo uniforme”.

As VBTP Urutu, modificadas pelo AGSP para operações urbanas, aguardando para sua entrega a PMERJ no 15º RC Mec (Es), em 2018

 

Nota da redação

Tecnologia & Defesa registra seus agradecimentos ao general de brigada Tales Eduardo Areco Villela, diretor de Fabricação do Exército, ao Arsenal de Guerra de São Paulo e aos engenheiros Odilon Lobo de Andrade Neto e Ricardo Furlan, da Columbus, pelo envio das informações técnicas e históricas que tornaram possível este artigo.

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15 Comentários

  1. Bacana!
    Acredito que sim, essas viaturas ainda teriam grande utilidade nos serviços de segurança pública, especialmente, pelas agências federais (PF e PRF) e estaduais de tropas especializados no combate ao tráfico.

  2. Concordo com os amigos acima, também acredito que esses veículos sejam mais uteis para as forças de segurança publica, ainda mais nas grandes e violentas metrópoles e seus subúrbios daqui do Brasil.

  3. Bastos nao seria melhor concentrar um parte destas viaturas na Força Nacional de Segurança Pública ? Acredito que esta seja a forma de ter um apoio logistico adequado e ao mesmo tempo potencializar o emprego nos cenarios adequados . Uma outra possibilidade é equipar uma una Unidade com todas as viaturas restantes , dentro do EB , para emprego como GLO .

  4. Projeto bem feito no Brasil demonstra sua utilidade e adaptação a novos usos devido sua Simplicidade de manutenção e atualização, 50 anos e ainda com muito futuro pela frente….

  5. Rodovias federais em pontos estratégicos do Brasil com o Estado do Amapá , Acre , Roraima ,

    O Brasil , com sua extensão continental em diversos pontos e necessário estes veículos porque servem perfeitamente para manter .fronteiras e apoiar tropas federais estaduais municipais alguns estados da federação precisaram muito destes veículos brindados para manter a lei e a ordem e garantir a soberania terrestre do Brasil .

  6. Como viatura especializada para uso policial (Operações Especiais, Choque, etc) e no EB, como Viatura Ambulância e Viatura de Comando. Importante é a padronização de: estrutura, motor, câmbio, freios, etc, por questões de custo, logística e operacionais.

  7. Seria bom pra o estado de Rondônia.. visto que está a surgir um movimento chamado LCP…surgiu as margens do MST… Ambos grupos criminosos no estado de Rondônia, que se escondem atrás de crianças e mulheres com “facões e foices” nas mãos.. e recentemente o movimento a qual me referi matou policiais deste estado, com táticas de guerrilha, armamento pesado e ligações com o território boliviano. Além de veículos mais pesados como o urutu hipoteticamente e o real Inbra grafiato.. se não erro os nomes, precisaríamos de helicópteros e armamento mais pesado.

    • O LCP é um movimento muito antigo ou seja, ele já existe. O que está acontecendo agora é o aumento de integrantes fazendo parte deste movimento político terrorista.

  8. Bastos

    Achei muito interessante a versão da universal VBE-Amb Urutu com teto alto, dali partir para uma versão de Comando seria bacana, acho que o AGSP conseguiria aproveitar o conhecimento adquirido com as viaturas M577 recém adquiridas e auxiliar no projeto….senão me engano teria que adaptar um pequeno gerador, um sistema elétrico mais eficiente e uma bancada para radio/mapas…acho que o mais difícil já foi feito que foi projetar essa nova superestrutura.

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