ÁREA DO CLIENTE

A FAB e o F-16: uma análise realista

Na quarta-feira (12), o mercado de defesa se agitou com a notícia divulgada pelo portal britânico Janes de que o Brasil está buscando a aquisição de caças de 4ª geração Lockheed Martin F-16 usados dos EUA. As negociações, segundo o portal, indicam que o número de exemplares a serem comprados pode chegar a 24 entre as variantes de um e de dois assentos, e que a aquisição pode acontecer ainda em 2024. As aeronaves viriam de estoques da USAF e poderiam entrar em operação em 2026.

Ainda segundo alguns veículos de defesa da imprensa nacional, é cogitado a compra de um reabastecedor KC-135 tendo em vista a incompatibilidade entre os sistemas REVO do F-16 e do KC-390. Todo esse financiamento, caso concretizado, seria por meio do FMS (“Foreign Military Sales”).

Em primeiro lugar, a própria Força Aérea Brasileira (FAB) reconhece a existência dessa intenção, que fica claro na resposta a um pedido de esclarecimentos que fizemos para o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (CECOMSAER):

A Força Aérea Brasileira (FAB) informa que está levantando dados para a realização de um estudo sobre a possibilidade de aquisição de aeronaves de caça usadas F-16 Fighting Falcon. A análise, no entanto, não guarda relação com as capacidades da aeronave F-39 Gripen.

Destaca-se, ainda, que, até o momento, não estão sendo realizadas negociações com governos ou empresas, nem foram definidas quantidades ou versões. As únicas interações realizadas sobre o tema tiveram como objetivo o levantamento de dados.

Apesar de ser uma resposta curta, a mesma traz informações importantes: são F-16, usados e que os estudos e a possibilidade de aquisição não guardam relações com as capacidades do F-39 Gripen.

E o que mais isso significa? Fomos atrás deste tema, conversamos com várias pessoas e fizemos uma análise a seguir.

Cenário atual

No final de 2025, o Brasil deverá aposentar a sua frota de caças Embraer AMX A-1M que hoje operam no 1º/10º GAV “Esquadrão Poker” e no 3º/10º GAV “Esquadrão Centauro”, ambos sediados na Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (RS).

Em 2024, ao completar os seus 35 anos de operação, o AMX ainda se mostra como um vetor estratégico nas missões de emprego ar-solo devido às capacidades avançadas de guerra eletrônica, bélica e de sensores; ao grande alcance; e a elevada robustez para sobreviver à danos de combate.

Hoje, é o único avião de caça da FAB a empregar bombas a laser, designar alvos e realizar o reconhecimento tático, tarefa esta que se mostrou imprescindível até mesmo nas missões de não-guerra quando duas aeronaves do 1º/10º GAV  fizeram o monitoramento de 13 barragens no auge da recente catástrofe que assolou o RS.

Sem um novo avião, uma série de consequências irão impactar a FAB.

Em primeiro lugar, na perda imediata da capacidade avançada de ar-solo do AMX e de massa crítica de recursos humanos altamente treinados, tendo em vista que com o avião fora de serviço, o adestramento é perdido com pilotos sendo designados para voar outros aviões sem essas capacidades.

Em segundo lugar, o fechamento ou hibernação de duas unidades de primeira linha de caça. Se isso se concretizar e, olhando para um passado não muito distante, em praticamente 10 anos quatro esquadrões de caça serão fechados.

Essa trajetória se iniciou em dezembro de 2016 com a desativação do 1º/16º GAV “Esquadrão Adelphi” em Santa Cruz voando o AMX A-1; e do 1º/4º GAV “Esquadrão Pacau” em dezembro de 2021 e que era voltado para a missão de defesa aérea, desenvolvimento de doutrina e atuação como unidade “aggressor” nos exercícios da FAB. Assim, dos quatro esquadrões (caso o Poker e o Centauro sejam desativados), um tinha a missão voltada para ações defensivas e três para ações ofensivas, essa última sendo preponderante num cenário operacional e de guerra.

A perspectiva de curto prazo pressiona a FAB para a tomada de uma decisão rápida com risco de perda operacional e de capacidade.

O caso F-16

Apesar de não ter sido mencionado pela resposta enviada pelo CECOMSAER, os estudos são para preencher a lacuna da desativação dos AMX A-1M, sendo assim, o foco do seu emprego serão as missões ar-solo e de reconhecimento tático. No momento, nenhuma menção foi feita quanto aos armamentos a serem adquiridos, entretanto, o caça é compatível os sistemas Reccelite, Litening e bombas Lizard já empregadas pela FAB, além de outros armamentos como bombas convencionais de emprego geral e os também mísseis ar-ar Pyhton IV e Derby, sistemas esses que fazem parte do acervo da FAB.

Esse cenário também não configura o fim da linha ou coloca em cheque o Gripen, produto do F-X2, nem mesmo significa que o F-16 terá vida longa na FAB uma vez que não se sabe se essa se trata de uma solução temporária, o famoso “tampão”, como já aconteceu com o Mirage 2000 que voou por apenas oito anos na FAB.

Ainda não se sabe qual seria a versão do F-16 a ser adquirida. Tendo o seu desenvolvimento e modernizações estabelecidas pelos chamados blocos (“block”) que adicionam novas capacidades ao caça, trata-se de um produto usado e que provavelmente está com a fadiga estrutural em um estágio mais avançado e que naturalmente não terão décadas de vida em serviço. 

Além da fadiga, não se pode comparar as capacidades operacionais do F-16 com a do Gripen da FAB que possui sensores de radar, de aquisição de alvos e de guerra eletrônica muito superiores e avançados. Nesta reportagem falamos um pouco mais desses sistemas do Gripen.

Mesmo que os F-16 tenham sido modernizados, tratam-se de aviões sem radar de varredura  eletrônica ativa e sem Infrared Search and Track (IRST), por exemplo.

Apesar do F-16 não se comparar o Gripen de nova geração, para substituir o AMX e como solução temporária, esta se mostra como das possíveis alternativas para solucionar este problema.

Cenário histórico, problemas e consequências 

É injusto aquele que jogar a pedra na FAB pela situação atual. A Força, prevendo o cenário que se descortinaria a partir da chegada do século 21, com planejamento e antecedência, realizou um grande movimento, ainda nos anos 1990, para evitar a desativação “em bloco” de vários projetos de aeronaves e para se manter capacitada e operacional diante dos novos desafios.

Vários programas de aquisição e de modernização foram iniciados, com aquele dedicado para a compra de um novo caça, o F-X, sendo formalmente estabelecido em agosto de 2001.

O F-X determinava que a FAB operaria um vetor padrão para cumprir todas as missões e tarefas da caça. Começando com 12 exemplares e pela premência de tempo, a partir de 2007 o produto do F-X substituiria os Mirage III em Anápolis e cuja desativação já estava marcada para acontecer em dezembro de 2005.

Posteriormente e de forma gradual, substituiria o F-5 e o AMX, tipos esses que já teriam passado por um programa de modernização dando fôlego e fluxo de caixa para a aquisição de novos lotes de aeronaves.

Entretanto, a falta de prioridade e de comprometimento do governo federal ao longo desses anos e as sucessivas crises econômicas pelas quais o Brasil passou resultaram no cancelamento do F-X em fevereiro de 2005.

O que inicialmente se mostrava como um cronograma apertado virou uma emergência exigindo que a FAB buscasse uma solução temporária, um caça tampão, até  que uma solução definitiva fosse encontrada, fato que resultou na compra dos Mirage 2000B/C que começaram a ser entregues em 2006.

Em 2007, quando os aviões do F-X estariam sendo entregues pelo planejamento original estabelecido, o governo relançou a concorrência batizando-a de F-X2.

Naquela altura, os concorrentes eram outros se comparado à primeira edição daquela disputa. A tecnologia havia evoluído e as exigências do cenário de combate também.

Assim como no F-X, o F-X2 tinha como prioridade a transferência de tecnologia para o Brasil. Essas duas palavras, de fato, sempre criaram grande polêmica. Causam longas negociações entre países antes de fecharem um negócio e não são amplamente compreendidas pela sociedade por não ser algo, necessariamente, palpável. É fácil ver a chegada de um avião, mas é difícil enxergar a concretização da transferência de tecnologia pois se trata de conhecimentos adquiridos por meio de treinamentos e trabalhos práticos, por exemplo.

O Brasil, mas principalmente a FAB, mantinham esse tema como palavra de ordem e não abririam mão. Afinal, foi por meio da transferência de tecnologia do programa AMX que o Brasil testemunhou a transformação da Base Industrial de Defesa (BID) nacional, especialmente a do segmento aeronáutico. Sem o AMX, a Embraer não teria adquirido os conhecimentos para desenvolver e produzir a família de jatos regionais ERJ-145. Tamanho foi o sucesso de vendas que o país passou a deter a terceira maior indústria aeronáutica do mundo. Os benefícios do AMX não pararam por aí.

Ao exigir a transferência de tecnologia, o comprador vai pagar mais caro por isso tendo em vista que estruturas serão criadas e capacitações serão proporcionadas para técnicos e engenheiros. O prazo de entrega também fica dilatado, pois não se trata de um produto pronto, de prateleira, que só basta pegar e pagar por ele.

Em 18 de dezembro de 2013, o vencedor do F-X2 foi anunciado pelo governo brasileiro. Era o caça Gripen E/F da sueca Saab, com 36 unidades sendo adquiridas para equipar dois esquadrões na Base Aérea de Anápolis, começando pelo 1º GDA. Reformas, ampliações e modernizações foram incluídas na base para que essa tivesse condições de receber o novo caça.

Além de ser o vetor que supria as capacidades técnicas, logísticas, industriais e operacionais, sendo capaz de transformar a aviação de caça da FAB, era a proposta que mais carregava o fator de transferência de tecnologia. Por ser um programa em desenvolvimento, era o único que abrangia tantas possibilidades de envolvimento da BID brasileira em diversas áreas.

Em dezembro de 2014 foi assinado o contrato do Gripen, seguido pela aprovação do financiamento por parte do congresso nacional em agosto de 2015, dando início prático à execução do programa.

Logo depois, o Brasil entrou em uma nova crise econômica que interferiu no fluxo de pagamentos e consequentemente no cronograma. Não afetaria só do Gripen no futuro, mas outros programas de aquisição e modernização em andamento como o do H225M e do KC-390.

Diante deste cenário complexo, de atrasos e de ameaça à perda da capacidade operacional, resta à FAB tomar medidas para encontrar uma solução imediata, dando fôlego até que todos os F-39 Gripen do primeiro lote sejam entregues e as aquisições dos próximos lotes sejam contratadas. 

O programa continua

Opiniões apocalípticas tem sugerido que o Brasil perdeu interesse no Gripen, que está descontente com o programa e alguns casos citam o início do “F-X3”.

Antes de mais nada, o F-X2, que resultou na compra do Gripen, é um programa de Estado, não de governo. Começou no segundo mandato do governo Lula, foi escolhido, teve o contrato assinado e o financiamento aprovado ao longo dos governos Dilma, começou a ser recebido no governo de Bolsonaro, continua em andamento no governo Lula e será mantido pelos próximos anos independente da legenda partidária que assumir a chefia do poder do Executivo.

Assim como no AMX, que recebeu o apelido de F-32 porque custava duas vezes o preço do F-16, novamente é preciso olhar sob a ótica de que o país não está comprando apenas um caça, mas toda uma transferência de tecnologia que incluiu, em São Bernardo do Campo, a linha de montagem de aeroestruturas e o laboratório de sensores; em Gavião Peixoto, um verdadeiro hub de desenvolvimento do programa, o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen, o Centro de Ensaios em Voo do Gripen e a linha de produção final do caça. Além disso, houve a capacitação técnica de mais de 350 profissionais de empresas que compõe a BID. O país sabe o valor estratégico de um programa como este e os benefícios de longo prazo.

O Gripen deverá ser mantido em serviço por pelo menos 40 anos e caso a compra do F-16 seja concretizada, o número ainda será inferior ao necessário.

Mas continuando com os fatos, em apresentação sobre os projetos estratégicos da FAB para a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN), em abril passado, o comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno atentou para a intenção de aumentar a linha de produção do Gripen no Brasil e adquirir mais exemplares, uma clara sinalização de que futuras encomendas do mais moderno caça em serviço na América Latina e um dos mais avançados em serviço no Hemisfério Sul estão nos planos da FAB.

COMPARTILHE