Gripen – Eletrônicamente, stealth

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A palavra stealth, do inglês, significa furtividade e o termo passou a ser amplamente usado quando os caças-bombardeiros Lockheed F-117 Nighthawk, indetectáveis aos radares dos inimigos, foram revelados pela grande imprensa internacional na Guerra do Golfo, Iraque, em 1990, quase 10 anos após ter entrado em serviço na USAF.

Com uma aparência mal-encarada, fruto de uma superfície multifacetada, os motores ficavam totalmente instalados dentro da fuselagem, com apenas duas aberturas para a saída dos gases quentes na parte de trás, diminuindo inclusive a sua assinatura infravermelha.

A superfície na cor carvão era especial, de um material absorvente, e os armamentos eram colocados em compartimentos internos. Também não havia antenas externas, apenas quatro tubos de pitot posicionados no nariz, de forma discreta.

Todo esse conceito era feito para que o radar cross-section (RCS) do F-117, ou a medida que determina quanto um objeto pode ser detectado pelo radar, fosse baixa o suficiente para ficar indetectável, ou seja, invisível aos radares inimigos e, dessa forma, operar com liberdade em ambiente saturado por defesa antiaérea sem sofrer ameaças.

A superfície multifacetada e revestida com material absorvente dispersava as ondas de radar emitidas contra a aeronave, retornando poucas delas para o seu emissor. A ausência de antenas e armamentos externos, além do motor ficar todo instalado dentro da fuselagem, fechava esse conjunto de soluções.

Depois do F-117, outras aeronaves invisíveis ao radar entraram em serviço como o Northrop Grumman B-2 Spirit, o Lockheed Martin F/A-22 e o Lockheed Martin F-35, agregando novas tecnologias e soluções.

Mas além de possuírem elevadíssimo custo de aquisição e, principalmente de operação, as aeronaves mencionadas são sujeitas a uma série de restrições para exportação. Dos modelos citados, apenas o F-35 tem outros operadores além dos próprios EUA.

Entretanto, a soma de novas soluções de engenharia e de tecnologia, num mundo em que a furtividade é cada vez mais necessária aos “olhos” dos sensores eletrônicos do que aos olhos do inimigo, o Gripen ganha uma série de vantagens neste cenário tão crítico e estratégico.

Em sua essência, o Gripen é um caça de pequenas dimensões. Essa característica permite que a sua produção seja feita de maneira mais rápida e por um custo mais baixo. Em termos operacionais, facilita a sua operação a partir de aeródromos destacados das bases aéreas e que estão espalhados por toda a Suécia. Sendo menor e com apenas um motor, o custo de operação é mais baixo e a manutenção mais simplificada se comparado a um caça maior e com dois motores.

Ser menor também implica numa RCS menor. Mesmo que o Gripen não tenha nascido para ser um caça stealth, como o F-117 e o F/A-22, a sua assinatura ao radar é naturalmente menor. Somado a uma avançada suíte de guerra eletrônica e o uso de doutrinas e táticas modernas, faz com que o caça se torne difícil de ser detectado e, quando detectado, ative sistemas que impedem que seja atacado pelo inimigo. Tendo em vista que os sistemas eletrônicos são quase sempre utilizados nas arenas de combate do século 21, causar o seu bloqueio ou a interferência, de forma eletrônica e eficiente, garantem ao Gripen a sua invisibilidade.

Apesar dos notáveis serviços prestados em centenas de missões e horas de voos em cenários de combate, a defesa antiaérea iugoslava encontrou uma forma de detectar o F-117 e derrubar o caça-bombardeiro, deixando claro que a furtividade também deveria contar com o apoio de sistemas eletrônicos. Além disso, o ressurgimento dos radares de bandas de baixa frequência são uma ameaça aos aviões stealth.

A guerra eletrônica do Gripen E

O Gripen E é conhecido pela capacidade elevada de fazer a fusão de dados, oriundos de diversas fontes, de maneira rápida e objetiva para o piloto. Essa característica proporciona consciência situacional sobre o posicionamento das forças amigas e inimigas, das potenciais e reais ameaças, facilitando a tomada de decisões importantes e assertivas em questão de segundos.

A suíte de guerra eletrônica do Gripen, conhecida como Multi Functional System – Electronic Warfare (MFS-EW), está posicionada em todo o avião. Na ponta das asas, no topo da empenagem, próximos à entrada de ar e na saída de gases do motor, sobre e sob a fuselagem.

A soma de todos esses sensores provê um dos grandes diferenciais do Gripen quando inserido num cenário tático e no espaço aéreo inimigo.

Como qualquer aeronave moderna de combate, o Gripen possui o Identification Friend or Foe (IFF), que reconhece se a emissão de radar de um veículo, navio ou avião que está captando a sua presença é amigo ou inimigo.

O Radar Warning Receiver (RWR), por sua vez, detecta a origem da emissão de radar, o seu tipo (se é de uma estação de radar de solo, de um navio, de outro avião etc) e informa a sua localização para o piloto.

Há ainda o Laser Warning System (LWS), que alerta o piloto sobre qualquer fonte de emissão laser contra a aeronave, podendo ser um laser rangefinder ou designador laser. Por fim, o caça é equipado com Missile Approach Warning System (MAWS) que alerta sobre a aproximação e direção de mísseis lançados contra a aeronave.

Todos esses sensores trabalham de forma passiva, ou seja, atuam detectando e captando as emissões contra eles.

Como a maior parte dos aviões de combate, o Gripen possui lançadores de chaff e flare para despistar, respectivamente, mísseis guiados por radar e por infravermelho.

Designado BOP pela Saab, são quatro conjuntos localizados no lado direito e próximo à saída de gases do motor da aeronave, totalizando 160 cargas pirotécnicas.

O BOP também pode lançar os decoy BO2D, que são rebocáveis ficando a uma distância de 100m da aeronave, cujo objetivo é o de atrair para a sua direção os mísseis lançados por baterias de defesa antiaérea (SAM), gerando RCS de 200m2. O Gripen pode receber dois lançadores instalados na parte de trás do cabide interno das asas, com seis unidades cada, sem tirar espaço para cargas externas como mísseis, bombas e tanques de combustível.

Há também o BOL, cuja instalação é semelhante à do BOP nos cabides subalares.

O sistema atua de forma eletromecânica e é lançado através da turbulência e do vórtex aerodinâmico causado pelas asas do Gripen. A proteção é feita de modo preventivo ou reativo contra mísseis guiados por radar ou infravermelho. O Gripen pode levar até quatro lançadores que contém 160 cargas cada.

Em relação ao BOP, o BOL tem a vantagem de não se tratar de um sistema pirotécnico, ou seja, um explosivo que depende de uma estrutura adequada para armazenamento e manuseio. Em situações em que é necessário o deslocamento de forma emergencial para um aeródromo de fronteira, essa característica torna-se uma vantagem imprescindível, pois não há a necessidade de mobilizar uma estrutura mais complexa de apoio.

A suíte do MFS-EW conta ainda com outros recursos

O Gripen possui sistemas que causam confusão, desorientação ou impedem que os radares inimigos marquem o caça como um alvo. O MFS-EW pode criar uma imagem falsa do Gripen para o radar, orientando o seu sistema de defesa antiaérea para atacar um caça que não existe.

Por fim, deve-se destacar outros dois sistemas que auxiliam na baixa detecção do Gripen.

Com o datalink, ainda em solo, o piloto por obter, em tempo real, uma visão clara e tática de uma região onde está ocorrendo o combate antes mesmo de decolar, criando uma consciência situacional que pode ser decisiva na vitória ou na derrota da batalha.

Em voo, ao compartilhar dados e imagens via datalink, é possível atacar alvos através do recebimento de informações de outras fontes, como de um navio ou um AEW&C, mantendo o seu radar constantemente desligado e dificultando a sua localização por parte do inimigo. O Infra Red Search and Track (IRST), um sensor passivo e de longo alcance, é outro sistema fundamental para manter a baixa probabilidade de detecção do Gripen. Com ele é possível utilizar a emissão infravermelha de aviões, navios ou veículos para fazer a busca, localização e o ataque contra esses tipos de alvos, sem emitir qualquer tipo de sinal.

É válido notar que esse conjunto de soluções, atuando de forma integrada, aliado as pequenas dimensões do Gripen, multiplica a sua capacidade de baixa detecção pelo inimigo.

Por fim, a filosofia do Gripen é de um conjunto de sistemas que pode ser atualizado ou modernizado em curtos intervalos de tempo, ao contrário dos custosos mid-life upgrade.

Assim, esse processo pode ser feito a cada três ou quatro anos, de maneira mais rápida e por um custo mais atrativo, tendo em vista que o hardware e o software são independentes entre si.

Essa capacidade mostra-se um diferencial para manter-se atualizado diante das contramedidas eletrônicas que possuem a característica de evoluírem constantemente.

6 Comentários

  1. O Gripen E/F é um sistema de sistemas de armas altamente moderno e adaptável, um verdadeiro camaleão, mortal para suas presas, golaço de placa da FAB na sua escolha !!!
    Texto excepcional, parabéns!!!

  2. Não vejo a hora de ver estes aviões combate simulado contra o que tenso hoje, F5M, e nos exercícios da Cruzex.

  3. EXCELENTE artigo, João. Até salvei em meus favoritos. Sempre encontro pessoas desmerecendo um caça fantástico que é o Gripen. Agora, toda vez que alguém disser besteira, irei mandar este artigo pra pessoa ler.

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