Ultrapassando os limites da Defesa. O adido sueco no Brasil fala à T&D

O Gripen E/F tem ocupado cada vez mais a pauta da aviação militar brasileira pelo conjunto de segmentos e áreas que abrange. Resultado de um dos maiores acordos de transferência de tecnologia celebrados pelo Brasil, em termos operacionais, o novo caça está impactando a Força Aérea Brasileira (FAB) com sistemas e sensores que até então eram inéditos na sua ordem de batalha. O poder dissuasório aumentou consideravelmente com a introdução em serviço deste sistema de armas e com o uso de mísseis ar-ar de última geração.

Em termos industriais, trata-se do primeiro caça supersônico produzido na América Latina, revertendo em benefícios e conhecimentos para a Base Industrial de Defesa e Segurança que vão impactar em programas atuais e futuros a serem desenvolvidos no Brasil.

A Saab, presente há décadas no País com produtos em operação no Exército Brasileiro aproximou mais, com o Gripen, duas nações que enxergaram muitos pontos em comum e possibilidades de estreitar ainda mais essa parceria estratégica.

Para falar do Gripen, que tem se destacado em países na Europa e em regiões de muita tensão como no Báltico, inclusive com a ampliação da frota desse caça na Hungria, e para comentar sobre a parceria Brasil-Suécia, a revista, por meio do editor adjunto João Paulo Moralez, conversou com o coronel-aviador Lars Bergström, adido de Defesa da Suécia no Brasil.

Tecnologia & Defesa – O senhor poderia falar sobre a sua experiência operacional?

Coronel Lars Bergström – A minha carreira se iniciou em 1986 na Escola de Voo da Força Aérea Sueca, na “F 5 Wing” em Ljungbyhed. Depois de formado, segui para a aviação de caça, tendo sido direcionado para a “F 4 Wing” (“Jämtland Wing”) em Östersund, região central da Suécia, distante aproximadamente 470km de Estocolmo. Essa base foi fechada em 2004, mas nos anos de 1980 comecei voando o Saab 37 Viggen na sua versão de caça, o JA 37. Quatro anos depois eu conheci a minha esposa, no Sul do país, então eu fui transferido para a “F 5 Ljungbyhed”, de volta para a escola de voo, como instrutor. Depois de alguns anos fui para a “F 17 Wing” (“Blekinge Wing”), em Ronneby, onde voltei a voar o JA 37 Viggen. Em 2002 fiz a conversão converti para o Gripen A/B, depois C/D e, com o passar dos anos, assumi cargos como de comando do esquadrão, do “171 Aquila” e do “172 Gator” da “F 17 Wing”, chefe das operações aéreas e até comandante daquela base em 2014.

Possuo aproximadamente 2.500 horas de voo na aviação de caça. Em 2021, fui convidado para assumir a Aditância Militar na Embaixada da Suécia no Brasil.

Como chefe das operações da “F 17”, eu não voei, mas participei da “Operação Unified Protector”, que foi a intervenção militar na Líbia, liderada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), criando as zonas de exclusão aérea e embargo de armas contra governo daquele país. O Gripen se mostrou um ativo fundamental naquele contexto, especialmente nas missões de reconhecimento tático que envolveram voos de longa duração com reabastecimento em voo em um ambiente contestado. Para nós foi muito valioso, demos um salto operacional enorme ao participar de uma operação como aquela em conjunto com a OTAN.

A partir do início dos anos 2000, a Força Aérea da Suécia expandiu da defesa nacional para uma Força internacional integrada com a OTAN. Nesse sentido, a participação na “Unified Protector” impactou de várias maneiras positivas nas nossas táticas.

 

T&D – Como estão distribuídos os esquadrões de Gripen C/D na Força Aérea da Suécia?

Coronel Lars Bergström – Nós temos seis esquadrões de Gripen C/D, sendo dois na “F 17”, dois na “F 21 Wing” (“Norrbotten Wing”) em Luleå, e dois na “F 7 Wing” (“Skaraborg Wing”) em Såtenäs. De maneira geral, todos os esquadrões possuem as mesmas tarefas, ou seja, emprego ar-ar, ar-solo e reconhecimento tático. Claro que alguns esquadrões são mais ou menos especializados em algumas tarefas, mas eles cumprem todas as missões.

Mas a “F 7 Wing” é especial, tendo em vista que eles também são responsáveis pelo treinamento básico dos pilotos de Gripen, seja da Força Aérea Sueca ou de outras nações. Assim, além dos dois esquadrões operacionais, existe um terceiro, o “Esquadrão Phoenix”, que é responsável e faz toda a parte de conversão e instrução no Gripen.

Ele é composto por pilotos da Força Aérea Sueca, da Saab e da “Försvarets MaterielVerk” (FMV, administração de materiais de Defesa da Suécia), sendo que esses últimos cumprem voos relacionados a testes e avaliações. Os instrutores são muito experientes, com centenas de horas de voo, incluindo alguns deles com a minha idade, carregando uma bagagem operacional importante para a instrução.

O “Esquadrão Phoenix” é equipado com os Gripen C/D e “mission trainers” do Gripen C semelhantes ao que existem hoje na Base Aérea de Anápolis para o Gripen E. Além disso, lá estão instalados dois “full flight mission trainers”, sistemas complexos montados em plataformas com movimento e com um sistema de projeção de alta qualidade.

Neles, os pilotos precisam usar as máscaras de oxigênio e traje anti-g, pois esses equipamentos funcionam para trazer mais realismo ao treinamento.

Essa missão de conversão operacional e instrução no Gripen C/D torna a “F 7 Wing” um pouco mais especial.

 

T&D – A “F 7 Wing” faz o desenvolvimento de táticas e doutrinas para o Gripen?

Coronel Lars Bergström – A Força Aérea Sueca possui uma unidade dedicada para testes e avaliação operacional, chamada “Gripen Operational Test & Evaluation Unit” (OT&E), sediada em Linköping, onde a Saab mantém a fábrica do Gripen. A FMV também está presente em Linköping. Assim, quando nós temos um novo avião, como o Gripen E, existem três entidades que atuam diretamente nele. A Saab, que faz os voos de testes, a FMV que desenvolve a avaliação técnica da aeronave e o OT&E, que desenvolve as doutrinas para aquele sistema de armas, quem de fato vai determinar a melhor maneira de utilizá-lo em um cenário operacional.

O primeiro Gripen E já foi entregue para a Suécia e está em operação na OT&E para o desenvolvimento de doutrinas.

Mas, até o final de 2024 ou começo de 2025, a “F 7 Wing” vai receber os primeiros Gripen E para início da operação na conversão dos pilotos para essa aeronave. No momento, a Força Aérea ainda não decidiu qual será a próxima ala a receber o Gripen E, se será a “F 17” ou “F 21”. Mas na “F 7 Wing”, os pilotos operacionais receberão as instruções e o treinamento do efetivo do OT&E.

 

T&D – O anúncio da contratação de novos processos de modernização para o Gripen C/D da Suécia indica que o país vai manter as duas gerações do caça em serviço simultaneamente, mudando o plano inicial de padronizar para o Gripen E?

Coronel Lars Bergström – A Suécia está investindo muito em defesa. Passamos de 1,5% do PIB para pouco mais de 2% em 2024 (o dobro comparado a 2020) e a intenção é ultrapassar os 3%.

Inicialmente, a previsão era desativar o Gripen C/D e converter para o Gripen E. Mas, depois da anexação da Criméia em 2014 e a invasão da Rússia na Ucrânia em 2022, a decisão foi manter o Gripen C/D em operação junto com o Gripen E, sendo que essa é uma situação que pode se estender para os próximos 10 anos.

A Força Aérea Sueca já comprou os 60 Gripen, temos um contrato para isso, mas cuja cadência de produção e entregas não podemos revelar.

A Força Aérea planeja manter a sua frota de Gripen C/D voando junto com o Gripen E. Esses caças vão passar por programas de modernização que já foram estabelecidos pela FMV junto com a Saab e que incluem a parte de software e também alguns sistemas do próprio Gripen E, como aqueles destinados à guerra eletrônica.

Também não ficou definido como será a divisão dessas aeronaves por modelos entre as alas. É possível que existam alas trabalhando exclusivamente com o Gripen E, enquanto as outras com o Gripen C/D, o que tornaria as questões logísticas mais eficientes.

Outro aspecto do Gripen E é que nós vamos entender por completo o que a aeronave será capaz de oferecer quando entrar em operação. O Gripen E atende a tudo aquilo que nós planejamos, mas acreditamos que essa aeronave vai superar, em muito, as nossas expectativas. Afinal, um avião novo nos dias de hoje é diferente de um avião novo nos anos 1980 quando falávamos de potência, de capacidade

de puxar muitos g’s, de manobrar rapidamente e fazer um bom dogfight.

Na guerra moderna, além desses pontos que eu falei, tudo sobre radares e armamentos de longo alcance, sobre sensores que enxergam não somente o que está voando à sua frente, mas também atrás de você. São nesses, e em muitos outros aspectos, que o Gripen E se mostra como um caça diferente e extremamente avançado. Os sistemas de guerra eletrônica, a maneira em que o Gripen E interage com outros aviões, veículos e navios, faz com que ainda não tenhamos uma imagem completa da totalidade que ele é capaz de oferecer, sabemos que será extremamente positivo.

 

T&D – De que forma a parceria com o Brasil beneficiou o programa do Gripen E para a Suécia?

Coronel Lars Bergström – O Brasil entrou no projeto muito cedo e isso foi extremamente estratégico. Esse desenvolvimento conjunto permitiu uma interação importante dividindo os requisitos dos países e aproveitando as estruturas de cada um.

Além de dividir os custos de desenvolvimento atual e futuro, é importante que as duas nações caminhem lado a lado nessa operação. O fato da Força Aérea Brasileira estar operando o Gripen é positivo para a Suécia e isso nos beneficiará.

O Brasil já faz parte do “Gripen User’s Group” que reúne os operadores dessa aeronave para discutir temas importantes da sua operação, desde as questões técnicas e logísticas que envolvem os mecânicos até os assuntos que dizem respeito aos pilotos. Esses encontros geram muitos conhecimentos e são importantes para a manutenção da frota, para as modernizações, soluções dos problemas, etc.

Hoje estamos muito felizes e empolgados pela participação do Gripen E na Cruzex 2024. Infelizmente, devido às distâncias, não podemos trazer os nossos aviões para o exercício, mas estaremos como observadores, incluindo técnicos, pilotos, mecânicos etc.

Essa será a estreia do Gripen E num exercício multinacional, o que traz uma série de desafios para os pilotos e para o avião, é claro.

 

 

T&D – Vários comentários foram feitos sobre a possibilidade de a Suécia adquirir o F-35 no momento do seu ingresso na OTAN. Essas afirmações são verdadeiras?

Coronel Lars Bergström – Eu não sei de onde isso veio. Eu já ouvi essas afirmações inúmeras vezes, e isso não é verdade. A Suécia não está interessada no F-35 e em nenhum outro avião de caça que não seja o Gripen, que é o nosso caça. Nós investimos tempo e milhões para o desenvolvimento de um sistema que está pronto, que está maduro, operacional e é extremamente eficiente. Trata-se de um caça altamente moderno, compatível com os padrões OTAN, operado por países-membros da aliança que, por sua vez, gosta muito do Gripen.

Além disso, é muito positivo e importante para a OTAN contar com países que operem diferentes tipos de caças. Se todos optarem pelo F-35 e esse tiver um problema no motor, por exemplo, toda uma frota ficará em solo prejudicando a prontidão operacional em um momento de crise.

 

T&D – Apesar do Gripen E não ser um caça “stealth”, os seus sistemas embarcados o tornam uma aeronave eletronicamente furtiva?

Coronel Lars Bergström – Eu costumo dizer que o Gripen E é um caça de 5ª geração. Se por um lado a construção do Gripen E não possui os elementos de um caça de 5ª geração, os sistemas de guerra eletrônica permitem que o caça alcance essa capacidade.

 

T&D – Logisticamente, como será o apoio para sustentar a operação do Gripen E pelas próximas décadas, especialmente para o Brasil e a Suécia que já são operadores dessa aeronave?

Coronel Lars Bergström – A Suécia e a sua Força Aérea estão comprometidas com o parceiro estratégico, o Brasil e a FAB. Estamos comprometidos em continuar conduzindo esse programa de forma conjunta. Isso é muito importante para nós, especialmente fazendo na maneira desta parceria.

Em termos logísticos para as próximas décadas, a estrutura montada para o Gripen E foi muito bem planejada e é muito complexa. Todo esse apoio e suporte foi pensado para um caça que será operado na Suécia até 2060.

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Comentários

5 respostas

  1. Ótima entrevista, então os Gripens C/D suecos não vêm para a Cruzex.
    Faltou assuntar sobre a “troca” do C-390 por mais Gripens, mas provavelmente ele não iria responder, mesmo que soubesse de algo.

  2. Eu tinha certeza de que as notícias veiculadas nas páginas de mídias digitais na Internet eram falsas, sobre o abandono do Gripen pela Suécia, para adquirir o caça americano F-35.
    Como que um projeto como o Gripen E onde foram investidos bilhões de dólares em seu desenvolvimento seria sumariamente abandonado sem mais nem menos, por um país que possue know-how na tecnologia de construção de caças supersônicos e avionica, em guerra eletrônica?
    Para simplesmente adquirir o caça americano F-35, só porque entrou na OTAN?
    E deixar um parceiro como o Brasil na mão?
    Isso aconteceria somente se fossem muito loucos.
    E caso tal loucura acontecesse, nunca mais a Suécia conseguiria vender no exterior nem uma agulha, pois perderia completamente a credibilidade junto a outras nações.

  3. Seria legal perguntar se ele considera o Gripen E da FAB de 5a geração também ou apenas o sueco, já que ele baseou esta consideração principalmente à capacidade de guerra eletrônica e o nosso Gripen é inferior neste quesito.

    1. Não sei de onde voce Tirou isso? Os modelos são iguais salvo os equipamentos que a otan exige

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