Substituição dos avisos de instrução da Escola Naval ganha impulso

Por Paulo Maia

A Marinha do Brasil (MB) apesar de viver em continua restrição orçamentaria, imposta através de décadas por sucessivos governos, é reconhecida internacionalmente por seu alto grau de competência e profissionalismo. Tal constatação entre as Marinhas amigas resulta de esforços realizados para alcançar eficiência e eficácia no cumprimento de suas missões através da administração judiciosa dos parcos recursos disponíveis.

São exemplos dessas iniciativas o Plano Diretor da MB que permite o planejamento, gestão orçamentaria e controle de metas, organizando de forma permanente a execução de ações estratégicas da Força Naval, os programas de manutenção preditiva que permitem a otimização das capacidades dos meios navais, aéreos e de Fuzileiros Navais e a formação e aperfeiçoamento do seu pessoal, sejam civis, praças e oficiais.

Entre os estabelecimentos de ensino da MB pode ser destacada a Escola Naval, considerada a mais antiga instituição de ensino superior do Brasil. Criada com o nome de Academia Real de Guardas-Marinha em 1728 em Lisboa, foi transferida para o Rio de Janeiro em 1808 com a chegada da Família Real. No mesmo ano, D. João VI criou respectivamente a Escola Cirúrgica da Bahia e a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro, instalada no Hospital de Misericórdia.

Escola Naval instituição de ensino superior da Marinha do Brasil localizada na Ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro (Divulgação).
Escola Naval instituição de ensino superior da Marinha do Brasil localizada na Ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro (Divulgação).

A MB, assim como as principais Forças Navais do mundo, tem mantido em operação um navio-escola utilizado no estágio final da formação dos guardas-marinha. No momento, o navio da Esquadra dedicado a esta missão é o Brasil, que através da chamada “viagem de ouro”, proporciona por um longo período de tempo o contato com o ambiente marinho, dispondo de recursos pedagógicos indispensáveis â fase pratica que corrobora os conhecimentos teóricos adquiridos no curso da Escola Naval, além de contribuir para a formação cultural dos futuros oficiais e representar o País nos portos visitados através da diplomacia naval, promovendo o bom relacionamento com as nações amigas.

Navio-escola Brasil

Na Escola Naval, pode ser destacada a existência de três avisos de instrução (AvIn), batizados com o nome de praças especiais que morreram em combate na Guerra do Paraguai e na II Guerra Mundial, os Aspirante Nascimento, Guarda-Marinha Jansen e Guarda-Marinha Brito.

Esses navios ampliam o conhecimento das coisas do mar iniciado no Colégio Naval com o embarque periódico nos AvIn, de menor tonelagem, batizados com termos próprios da linguagem naval; Rosca Fina, Voga Picada e Leva Arriba, construídos devido ao excelente resultado alcançado com a operação dos seus irmãos maiores e incorporados em 1983.

Os Avin

Os Aspirante Nascimento, Guarda-Marinha Jansen e Guarda-Marinha Brito foram idealizados com o objetivo de melhorar a formação marinheira para os aspirantes a oficial da MB atendendo a uma antiga aspiração da Escola Naval. Esses navios integrados aos meios navais planejados no Programa de Reaparelhamento da Marinha da década de 1970, que não foi implementado, foram construídos entre os anos de 1979 e 1981 no estaleiro Ebrasa (Empresa Brasileira de Construção Naval), de Itajaí (SC).

O Guarda-Marinha Jansen

O Aspirante Nascimento, incorporado a MB em 13/12/1980, e os Guarda-Marinha Jasen e Guarda-Marinha Brito incorporados em 22/07/1981, deslocam 153 toneladas e medem 28 metros de comprimento, 6,5 metros de boca e 1,85 metros de calado e, junto da tripulação de até 16 militares pode receber 18 alunos para realização de viagens de instrução ao longo da costa. Atualmente são poucas as Marinhas que possuem AvIn com o mesmo conceito, entre essas podem ser mencionadas as da Argentina, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália e Rússia.

Os AvIn da Classe Aspirante Nascimento, há 46 anos têm prestado relevantes serviços, incorporados à cultura pedagógica da Escola Naval, contribuindo para a motivação naval militar e formação do espirito marinheiro, complementando com aulas práticas e em cenários táticos reais e imprevisíveis os conhecimentos recebidos em sala de aula, simuladores e laboratórios. Esses AvIn também permitem que seja observado o comportamento e adaptação dos alunos ao seu ambiente de trabalho, o navio em operação no mar, auxiliando uma avaliação refinada do oficialato dos aspirantes, referente a valores e posturas necessários ao homem do mar, como espirito de equipe, entusiasmo, liderança, dedicação e conhecimento técnico profissional.

 

O francês Guépard
O canadense Lobo
Aviso de instrução norte-americano YP 706

As praças e oficiais dos navios, mais que operar e manter as embarcações, são responsáveis por conduzir as aulas e adestramentos a bordo. A disponibilidade de instrutores e as características dos equipamentos de navegação, comunicações e máquinas, além da existência de armamento orgânico, as metralhadoras 12,7 x 99mm, proporcionam condições para a condução de adestramentos similares aos realizados pelos meios da Esquadra ou dos Distritos Navais. Também é por meio dos Avin que os aspirantes são iniciados na rica cultura nacional e conhecem e aprendem a respeitar a diversidade da sociedade brasileira, vivenciando, em cada porto visitado, valores e tradições distintas, inclusive as viagens internacionais, quando ocorrem, também atingem os mesmos propósitos.

É importante destacar que os AvIn, sem que seja comprometida a missão de contribuir com a formação dos alunos, também são utilizados no apoio a outras escolas como o Centro de Instrução Almirante Wandenkolk – CIAW e o Centro de Instrução Almirante Graça Aranha – CIAGA (oficiais – alunos da Marinha Mercante).

No porto de Montevidéu

O futuro

No ano de 2009, quando foram elaborados os Planos de Equipamento e Articulação das três Forças Armadas para o período de 2010-2030, no da MB, em sua previsão de necessidades de meios navais (navios e embarcações) havia seis novos AvIn até o ano de 2026. Entretanto, por óbices políticos e orçamentários esses planos foram alterados ou mesmo abandonados.

Apesar das dificuldades a MB manteve a meta de substituição dos AvIn da EN. Apesar da qualidade de construção, das modernizações realizadas e da esmerada manutenção as embarcações estão chegando inexoravelmente ao final de suas vidas. Contudo, diante de um quadro de penúria e contingenciamento rotineiro, no mês de maio surgiu uma ótima notícia, a publicação de um Aviso de Licitação – Pregão Eletrônico para a aquisição de chapas de aço ASTM A131 com o objetivo de viabilizar a construção de AvIn no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).

De acordo com informações os novos AvIn serão navios de pequeno porte, concebidos especificamente como plataformas de ensino e adestramento embarcado. Sua finalidade principal será apoiar a instrução prática dos oficiais da MB e da Marinha Mercante (MM). Incorporando soluções modernas de engenharia naval, com ênfase na aplicação didática e operacional, os navios têm emprego prioritário em águas interiores e costeiras das Águas Jurisdicionais Brasileiras.

A obtenção desses navios assegurará maior regularidade, segurança e qualidade à instrução embarcada, contribuindo diretamente para a preparação dos oficiais navais brasileiros. Atuando como verdadeiras salas de aula no mar os AvIn proporcionarão aos aspirantes da EM e da EFOMM a oportunidade de transformar o conhecimento teórico em competência profissional, exercitando navegação, manobra, marinharia, liderança, trabalho em equipe, segurança e operação dos sistemas de bordo.

A Portaria nº 105/DGMM, de 18 de junho de 2026, estabeleceu uma nova estrutura gerencial para acompanhar o cronograma físico-financeiro, a construção, a montagem, o comissionamento, os testes e a aceitação dos navios, mas não apresenta novas datas de entrega. A construção dos três avisos de instrução será conduzida de forma seriada, iniciando-se pelo navio cabeça de série, cuja montagem, integração e avaliação produzirão informações e as lições aprendidas serão aplicadas às unidades subsequentes.

A concepção prevê uma Classe de três navios padronizados, projetados prioritariamente para instrução embarcada. O extinto Centro de Projetos de Navios (CPN) foi inicialmente encarregado da elaboração do projeto básico, enquanto o documento de governança atribui ao AMRJ a função de estaleiro para os AvIn.

A construção será acompanhada por uma estrutura integrada de governança, envolvendo:

– Diretoria Industrial da Marinha (DIM), como Gerente de Projeto;

– AMRJ, como estaleiro construtor;

– Diretorias Especializadas, responsáveis pelos sistemas e equipamentos de suas jurisdições; avaliação de engenharia no primeiro navio, considerado o cabeça de série; montagem, integração e comissionamento dos sistemas; experiências de máquinas; provas de mar; testes de integração; testes de aceitação no mar; e correção de pendências antes do recebimento definitivo.

A lógica é utilizar a experiência adquirida no primeiro navio para aperfeiçoar os testes, corrigir pendências e reduzir riscos nas unidades subsequentes. Ressalte-se a importância do AMRJ como polo moderno de construção naval militar dedicado a construção dos NPa 500 BR e embarcações auxiliares, com perspectivas de produzir os futuros NaPaOc planejados. De acordo com a configuração constante do Termo de Abertura de Projeto (TAP), as principais características previstas são:

 

 

Cortes 3D dos futuros AvIn da Escola Naval

 

 

Tecnologia & Defesa agradece ao Centro de Comunicação Estratégica da Marinha, ao almirante de Esquadra Edgar Luiz Siqueira Barbosa – diretor geral do Material da Marinha (DGMM) e a primeiro-tenente (RM2-T) Giselle Rafaela Clara – assessora de Comunicação Social da DGMM pela inestimável contribuição para a realização desta matéria. 

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Respostas de 2

  1. Fazendo muito com pouco ,sem chamar atenção. hoje na reserva dos fuzileiros quando servia no 1 batalhão manilha do governador , implementei a informática na 3Ciafuz , pagava ( custeava do meu bolso ) ao mensageiro do PC da companhia aulas de informática em uma escola no bairro do cacuia pela manhã , a tarde ele repassava o aprendizado aos demais , assim teve a origem da informática nas Subunidades dos Batalhões do CFN .
    Este episódio passou sem ser notado , o qual trouxe modernidade ao setor o
    Operativo da MB.

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