Sistema nacional de navegação para o Microlançador Brasileiro tem desempenho validado

Dados inéditos confirmam funcionamento de tecnologia desenvolvida no Brasil durante missão do foguete sul-coreano HANBIT-Nano

A análise dos dados obtidos durante o voo do foguete HANBIT-Nano, realizado em dezembro de 2025 pela empresa sul-coreana INNOSPACE, confirmou o bom desempenho do Sistema de Navegação Inercial/GNSS (SNI-GNSS), tecnologia desenvolvida no Brasil para aplicação em veículos lançadores. O equipamento participou da missão como carga tecnológica embarcada, em uma etapa de validação em ambiente real de lançamento.

Os resultados demonstraram que o sistema operou conforme o previsto desde sua energização, cerca de 30 minutos antes da decolagem, até a perda de sinal do foguete, aproximadamente 33 segundos após o lançamento. Embora a missão tenha sido interrompida precocemente em razão de um vazamento de gases de combustão no primeiro estágio, que levou à ruptura da câmara de combustão, os dados coletados permitiram avaliar parâmetros considerados críticos para esse tipo de tecnologia.

Desenvolvido por meio de uma Encomenda Tecnológica da Agência Espacial Brasileira (AEB), o SNI-GNSS é resultado de uma parceria entre a CONCERT Space, a HORUSEYE Tech e a CRON. O sistema foi projetado para integrar os subsistemas de navegação e controle de veículos lançadores e está previsto para utilização no Microlançador Brasileiro (MLBR), programa estratégico voltado ao desenvolvimento de um lançador nacional de pequeno porte para colocação de satélites em órbita.

“A análise demonstrou que o sistema respondeu conforme o esperado dentro das condições disponíveis para o teste. Mesmo em um cenário adverso e com tempo reduzido de operação, foi possível validar o funcionamento do equipamento em ambiente real de lançamento — e, de certa forma, em condições ainda mais severas do que as de uma missão convencional. O resultado representa um avanço relevante para o desenvolvimento da navegação nacional e um passo fundamental para que o Brasil amplie sua capacidade de produzir veículos lançadores próprios”, afirma Rafael Mordente, CEO da CONCERT Space.

Entre os aspectos avaliados com sucesso estão a resistência do equipamento às condições de vibração e choque do voo, o desempenho dos sensores inerciais, o funcionamento do receptor GNSS desenvolvido para aplicações espaciais, além do software de sequenciamento das fases de operação e dos algoritmos de navegação embarcados.

Segundo os desenvolvedores, os resultados indicam que o SNI-GNSS está apto para novas campanhas de testes sem necessidade de alterações estruturais ou correções de projeto. Para Valter Ricardo Schad, sócio-diretor da HORUSEYE Tech, o desempenho observado confirma a maturidade da solução.

“O SNI foi capaz de demonstrar um desempenho compatível com os resultados esperados para um primeiro voo com as características da missão HANBIT-Nano. Estamos preparados para avançar para novas e importantes etapas de validação”, afirma.

EHUP/Divulgação

As próximas fases do programa incluem novos ensaios em voo e aperfeiçoamentos voltados às condições específicas dos veículos nos quais o sistema será empregado operacionalmente.

Fortalecimento da capacidade espacial brasileira

A validação do SNI-GNSS em ambiente real de lançamento representa um marco para o fortalecimento da cadeia espacial brasileira, especialmente em um segmento considerado estratégico para a soberania tecnológica nacional. O desenvolvimento de tecnologias próprias para sistemas críticos de navegação e controle contribui para ampliar a autonomia do país no acesso ao espaço e reduzir a dependência de soluções estrangeiras.

De acordo com Leila Fonseca, coordenadora de Estudos Estratégicos e Novos Negócios da AEB, iniciativas desse tipo fazem parte da estratégia de fortalecimento das capacidades nacionais previstas no Programa Espacial Brasileiro.

“As Encomendas Tecnológicas têm como objetivo aproveitar as capacidades técnicas e científicas de empresas nacionais e instituições de pesquisa, direcionando-as ao desenvolvimento de tecnologias essenciais à sustentação do Plano Nacional de Atividades Espaciais, antecipando demandas e assegurando a prontidão de sistemas que viabilizam o avanço do Brasil no setor espacial”, destaca.

Cooperação internacional e geração de herança de voo

O experimento também reforça a cooperação entre Brasil e Coreia do Sul no setor espacial. A integração do SNI-GNSS à missão da INNOSPACE permitiu acelerar a validação de uma tecnologia nacional considerada crítica para futuros lançadores brasileiros, além de contribuir para um dos processos mais importantes da atividade espacial: a geração de herança de voo.

A experiência adquirida em condições reais de operação fornece evidências de desempenho que serão fundamentais para futuras certificações e aplicações do sistema.

“Integrar e testar com sucesso tecnologias críticas nacionais, como o SNI-GNSS, reflete o fortalecimento da parceria espacial entre a Coreia do Sul e o Brasil”, afirma Soojong Kim, fundador e CEO da INNOSPACE. “Continuaremos trabalhando em estreita colaboração com parceiros estratégicos para criar sinergias tecnológicas relevantes e contribuir para o avanço da indústria espacial global.”

Além de ampliar as possibilidades de colaboração tecnológica entre os dois países, a parceria entre CONCERT Space e INNOSPACE fortalece um ambiente de intercâmbio capaz de acelerar o desenvolvimento de capacidades estratégicas para acesso ao espaço e impulsionar a inovação no setor aeroespacial.

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