Por Paulo Bastos
O campo de batalha moderno não perdoa improvisações. Sensores onipresentes, drones de reconhecimento e ataque, munições guiadas de precisão e artilharia de longo alcance aumentaram em muito a letalidade do combate terrestre.
Nesse cenário, insistir em operar carros de combate principais (“main battle tank” – MBT) sem o apoio orgânico de veículos de combate de infantaria (“infantry fighting Vehicle” – IFV) sobre lagartas, denominadas pelo Exército Brasileiro (EB) como viaturas blindadas de combate de fuzileiros (VBC Fuz), não é apenas uma limitação, é um risco operacional direto.
E uma frase da Cavalaria mostra a obviedade que muitos não querem enxergar: Blindados isolados não vencem guerras. Formações combinadas vencem.

DOUTRINA INCOMPLETA, VULNERABILIDADE AMPLIADA
O Leopard 1A5BR continua sendo o núcleo da capacidade blindada do EB. Entretanto seu emprego pressupõe, desde a “Guerra Fria”, a integração com a Infantaria blindada. Para o deslocamento dessa tropa a Força Terrestre utiliza a viatura blindada de transporte de pessoal (VBTP) M113, um veículo versátil, mas sem a capacidade real de acompanhar o carro de combate em manobra e sem adicionar nada a sua capacidade operacional, seja em poder de fogo ou consciência situacional.
Uma Força Tarefa Blindada (FT Bld) sem a presença de uma VBC Fuz em um campo de batalha atual configura em um carro de combate sem proteção contra tropas equipadas com armas anticarro, principalmente em ambientes com muitos obstáculos e/ou de combate de proximidade, como o urbano, além de reduzir sua capacidade de manter o já terreno conquistado.
Na chamada “Guerra Moderna”, onde drones comerciais adaptados podem usar munições de precisão e equipes antitanque operam com mísseis de longo alcance, o carro de combate isolado, seja ele qual for, torna-se alvo prioritário. E isso ficou demonstrado de forma brutal na Ucrânia, onde colunas blindadas sem infantaria embarcada sofreram perdas desproporcionais.
A VBC Fuz não é apenas um “transportador blindado”, como o M113, mas um sistema de armas que complementa o carro de combate e amplia suas capacidades. Combinando uma proteção blindada equivalente, um grande poder de fogo (com canhão de tiro rápido) e capacidade anticarro garantida por mísseis anticarro, bem como uma suíte de sensores e optrônicos efetiva, a nova viatura não somente transporta um grupo de combate completo, mas garante o apoio de fogo e aumenta a capacidade de “enxergar” o campo de batalha. A VBC Fuz não é só um suporte, mas uma ferramenta efetiva para o sucesso da missão.
Diferentemente de veículos sobre rodas, a VBC Fuz manterá toda a mobilidade tática equivalente da formação blindada, principalmente em terrenos difíceis e irregulares, formando uma sinergia perfeita em uma ação de choque. O carro de combate rompe as defesas, a VBC Fuz limpa a área e sustenta o fogo, enquanto a Infantaria desembarcada consolida o terreno. De forma simples e direta: sem essa tríade, a força blindada está incompleta!
Além disso, a presença de viaturas dotadas de canhões automáticos de 30x173mm (o padrão do EB), com capacidade de utilizar projéteis de fragmentação com explosão programada, garantiria alguma capacidade de defesa antiaérea a FT Bld, principalmente contra a ameaça de drones armados e munições remotamente pilotada (“loitering munition”).

O PROGRAMA BRASILEIRO
Para suprir essa deficiência, o Estado-Maior do Exército publicou, em dezembro de 2022, a Portaria Nº 877 que aprova a diretriz para a prospecção inicial para aquisição das novas VBC Fuz e VBC CC, criando um grupo de trabalho para “avaliar as opções de obtenção, incluindo o desenvolvimento em parceria nacional ou internacional”, resultado dos estudos realizados desde 2019, pelo antigo Grupo de Trabalho (GT) NOVA COURAÇA.
O objetivo era a obtenção inicial de até 78 VBC Fuz e 65 carros de combate médios, considerando o prazo até 2040, conforme o planejamento do Programa Estratégico do Exército (Prg EE) FORÇAS BLINDADAS. Essas quantidades iniciais foram definidas, de acordo com informações da Força Terrestre, “a partir do cálculo de subunidades de Infantaria blindada (Cia Fuz Bld) e de subunidades de carros de combate (Esqd CC) a serem modernizadas”.
A primeira consulta ao mercado ocorreu em março de 2023 e, em agosto de 2024, foi publicado o edital da consulta pública (“request for information” / “request for quote” – RFI/RFQ).
A proposta é de se utilizar uma plataforma comum para as ambas as viaturas, promovendo uma simplificação da cadeia logística, flexibilidade doutrinária e economia nos custos operacionais, além de favorecer o desenvolvimento versões especializadas, como posto de comando, engenharia, recuperador e outros.
Além dos benefícios operacionais, a adoção de uma plataforma comum resultará em uma escalabilidade industrial, permitindo a participação da base industrial de defesa (BID) em todas as etapas do projeto, como sua produção sob licença com transferência de tecnologia, bem como a participação no aperfeiçoamento dos blindados e desenvolvimento das versões citadas, diminuindo a dependência externa e fomentando o desenvolvimento industrial e tecnológico brasileiro.

A AMEAÇA DA SOLUÇÃO PRONTA
A ideia inicial do programa VBC Fuz se mostra como a solução ideal para o Brasil, pois, ao mesmo tempo que extingue a deficiência operacional na Cavalaria blindada, surge como a possibilidade de dar continuidade a programas já consagrados e efetivos, como o do blindado sobre rodas Guarani, alavancando ainda mais a indústria nacional, para que a mesma possa voltar aos patamares da década de 80, quando tínhamos a capacidade plena de desenvolver os meios que necessitávamos para nossas forças armadas. Mas existe um problema…
Apesar de todo esse esforço, que já vem de estudos iniciados em 2018, todo esse trabalho pode simplesmente ser perdido por conta da tendência brasileira nas chamadas “compras de oportunidade”, que nada mais são do que aquisição de meios usados, já desativados em seus países de origem, com um alto nível de desgaste e obsolescência, com pouco ou nenhuma cadeia logística e que são implantados sem nenhum estudo prévio ou adaptação doutrinária, resultando em uma operacionalidade e vida útil limitada.
Já houve propostas de carros de combate pesados M1 Abrams, dos Estados Unidos, que foram sabiamentes recusadas, mas ainda existe a oferta da Alemanha para os Leopard 2A6 (que inclusive foram rejeitados para um processo de modernização pelo seu próprio exército). E isso sem contar a problemática do peso, mas isso será assunto para um outro artigo.
A opção por uma solução desse tipo, além de literalmente jogar todo os estudos feitos pela Força Terrestre, mata a possibilidade de desenvolvimento tecnológica nacional, bem como manterá os “grilhões” da dependência estrangeira (e todas as consequências políticas e econômicas que isso possa acarretar).
Em suma, o projeto da VBC Fuz pode ser uma grande solução para o EB, e para o Brasil, ou mais um problema, mas o fato é que essa decisão impactará a Força Terrestre pelos próximos 40 anos.

Respostas de 9
Excelente artigo.
sou a favor de usar uma plataforma comum e que possamos produzir sob licença.
Acho que Tulpar seria o ideal.
A proposta da IDV de desenvolver um IFV com a torre Hitfist e um MMBT com a torre do Centauro é a melhor das opções, mantendo a linha de produção, manutenção e conhecimento em Três Lagoas.
mas aí teríamos um problema, um veículo novo que provavelmente só o Brasil usaria pequena quantidade, ou seja o custo seria alto
Tanto o Lynx da Rheinmetal/Leonardo, o Tulpar da Otokar, quanto o CV 90 da BAe, parecem ser excelentes plataformas e adequadas as necessidades do Exercito Brasileiro. Restaria definir a real possibilidade de aquisição pelo EB em termos financeiros e a sua integração tecnológica em relação a nossa BID. Neste aspecto me parece que o Lynx sai na frente graças a participação da Leonardo no projeto, tendo em vista o controle desta sobre a IDV.
Espero que o CV-90 ganhe a concorrência
Torço pelo Tulpar. E já vou sonhando com uns Altay.
Na torcida por uma produção sob licença da família Tulpar com a torre do Centauro e uma 30mm da Leonardo
já temos a UT30 BR nos Guarani, torre a equipar os IFV será uma variante mais alta e pesada, a UT30 MK2..
Gostaria de ver uma família baseada no Tulpar da Otokar. Acredito que agora é o momento de se construir uma parceria estratégica com a Turquia