SALITRE 2026: com Super Tucano, Brasil marca “presença duplicada” em exercício chileno

Entre jatos supersônicos veteranos e estreantes, Super Tucanos no SALITRE 2026 são reflexo do sucesso aeronáutico brasileiro

Exercício no Chile evidencia a consolidação do A-29 como principal aeronave de ataque leve e treinamento avançado da América do Sul.
Por Gabriel Centeno e João Paulo Moralez

Como deveria ser, a grande novidade do Exercício Multinacional SALITRE 2026, em andamento até a próxima segunda-feira (12) na Base Aérea de Cerro Moreno, da Força Aérea do Chile, é a participação de seis exemplares do F-39E Gripen, da Força Aérea Brasileira.

A chegada do efetivo do 1º Grupo de Defesa Aérea – Esquadrão Jaguar, que emprega o caça mais avançado em serviço na América Latina, de fato elevou a complexidade e a exigência das demais tripulações de outros países visando reduzir a defasagem tecnológica e operacional. Assim tem sido em todos os treinamentos no qual o F-39E tem participado desde a Cruzex, em 2024.

No entanto, talvez tenha passado despercebido um fato extremamente relevante. Além do próprio Gripen, que tem profunda participação da Base Industrial de Defesa em todo o seu projeto, do desenvolvimento à produção, três dos seis países participantes com aeronaves – o próprio Chile, a Colômbia e o Paraguai, atuam ao todo com 12 Embraer EMB-314 Super Tucano. Isso não é um acaso, mas uma feliz consequência da qualidade do produto aeronáutico brasileiro.

A Embraer já negociou mais de 300 Super Tucano em todos os continentes. Da lista, fazem parte a Angola, Burquina Faso, Mali, Mauritânia e Nigéria, no continente africano; Líbano e Afeganistão, no Oriente Médio; Filipinas, Indonésia e Turcomenistão, na Ásia; Portugal, na Europa; e EUA, na América do Norte. O continente sul-americano é o que concentra mais operadores do Super Tucano. São oito no total, que juntos, somam a maior frota em serviço, com 184 aviões adquiridos e hoje tendo aproximadamente 163 em serviço descontando as perdas operacionais.

É o avião de combate tipo, o mais popular na região. O A-29 é a principal capacidade ofensiva para o Equador (17), Panamá (4), Paraguai (6), a República Dominicana (8) e o Uruguai (6). Em todos eles, faz a formação dos pilotos de caça das suas forças aéreas, especialmente no Chile, que já considerou publicamente como o “melhor treinador para o F-16”.

Na Colômbia, uma das primeiras clientes de exportação do modelo, selou a vitória contra as Forças Armadas Revolucionárias (FARC). Bogotá adquiriu 25 aeronaves em 2006 para substituir gradualmente os veteranos Cessna A-37 Dragonfly, e foi justamente lá que o A-29 consolidou sua reputação internacional como plataforma de ataque de precisão.

Em 2008, durante a Operação Fênix, a aeronave realizou seu primeiro emprego de bombas guiadas em combate, demonstrando capacidades muito além daquelas normalmente associadas a um turboélice.

Hoje, a Valkyrie Aero, companhia privada dos EUA, está trabalhando numa variante com uso de inteligência artificial para tornar o Super Tucano uma plataforma de combate a drones, tornando-o ainda mais relevante, eficiente e capaz contra uma das principais ameaças contemporâneas. 

Mas o que tornou o Super Tucano, melhor da sua categoria no mundo, tão popular na região?

Histórico

Antes de mais nada, o Super Tucano é o resultado da experiência acumulada da operação do seu antecessor, o EMB-312 Tucano, em missões operacionais de ataque ao solo, policiamento do espaço aéreo e apoio aéreo aproximado.

Em segundo lugar, se deve a capacidade inigualável da FAB em escrever requisitos operacionais para aquilo que necessita, e de dispor de profissionais gabaritados para conduzir, avaliar e fiscalizar que tudo aquilo que foi solicitado está de acordo com o contrato.

O Tucano e o Super Tucano são parecidos apenas no nome e um pouco no visual. Na prática são duas aeronaves completamente distintas, desenhadas a partir de requisitos específicos para funções claras.

Entre jatos supersônicos veteranos e estreantes, Super Tucanos no SALITRE 2026 são reflexo do sucesso aeronáutico brasileiro
Entre jatos supersônicos veteranos e estreantes, Super Tucanos no SALITRE 2026 são reflexo do sucesso aeronáutico brasileiro

O Super Tucano tem custo operacional baixo, necessita de pouco apoio de solo para operar, é simples de manter e, ao mesmo tempo, agrega tecnologias de cockpit semelhantes às dos caças de 4ª geração. Assim qualquer força aérea com baixo orçamento tem acesso à uma plataforma de armas que vai garantir a sua soberania frente às ameaças regionais do nosso continente, caracterizadas por ações de baixa intensidade contra atores não-estatais.

Por isso, o avião se espalhou entre os países da América Latina, perdendo apenas para o Cessna A-37/T-37, usado por 10 países. 

Caça do continente

Muito mais do que reunir diferentes pinturas, matrículas e operadores em uma mesma linha de voo, a presença simultânea de 12 Super Tucanos no SALITRE 2026 evidencia o espaço conquistado pela aeronave brasileira na América Latina. Em um exercício frequentemente comparado à Cruzex – guardadas as diferenças de escala – o A-29 aparece como o verdadeiro elo comum entre diversas forças aéreas da região.

Entre os participantes, a Força Aérea Colombiana (FAC) acumula uma das maiores experiências operacionais com o Super Tucano. No SALITRE, os aviões colombianos também chamam atenção pela nova pintura em dois tons de cinza, que lembra o antigo esquema utilizado pelos AT-27 Tucano da FAB, mas preservando a tradicional “bocarra de tubarão” pintada no nariz.

No Chile, o Super Tucano desempenha um papel diferente, mas igualmente estratégico. Incorporadas em 2009, as 12 aeronaves passaram a formar os futuros pilotos destinados aos caças F-5 Tigre III+ e F-16 Fighting Falcon, operando ao lado dos treinadores nacionais T-35 Pillán.

As capacidades de formação de aviadores já foram publicamente elogiadas pelo ex-comandante da FACH, general Arturo Merino, que destacou a elevada similaridade dos sistemas eletrônicos e a capacidade do A-29 em simular combates ar-ar durante o treinamento avançado, tal qual o F-16. A aquisição chilena incluiu ainda um amplo pacote de apoio logístico e um moderno sistema de instrução. 

A participação paraguaia representa uma das novidades desta edição do SALITRE. Os quatro A-29 enviados ao Chile pertencem ao lote de seis aeronaves adquirido em 2024 para complementar a operação dos veteranos AT-27.

Assim como no Brasil, pilotos de A-29 da FACH vão direto para os supersônicos F-5 e F-16

Recém-incorporados, os Super Tucanos paraguaios já estrearam operacionalmente. No fim do ano passado, pouco tempo após entrarem em serviço, realizaram sua primeira interceptação de uma aeronave ligada ao narcotráfico, missão que hoje figura entre as principais atribuições do modelo em diversos países latino-americanos.

E mesmo na Força Aérea Brasileira, onde não está na ponta da lança com o Gripen, AMX e o F-5M, o A-29 continua formando a espinha dorsal da aviação de caça, atuando diariamente na vigilância do espaço aéreo, na formação de pilotos de combate e em missões de defesa aérea. É a linha de frente da blindagem das fronteiras contra atividades aéreas ilícitas.

Prestes a receber um amplo e importante programa de modernização, o turboélice da Embraer segue demonstrando que, mais de 25 anos após seu primeiro voo, continua sendo uma das aeronaves militares mais relevantes produzidas no Brasil. 

Paraguai é um dos mais recentes clientes do A-29

Agora, frente às novas formas de “fazer guerra”, a Embraer prepara o A-29 para assumir um novo papel de destaque, fornecendo uma plataforma mais barata e adequada para enfrentar a ameaça dos drones. 

Numa atividade em que o destaque são os caças supersônicos, em especial o estreante Gripen, a presença dos A-29 de três nações diferentes rouba a cena em Cerro Moreno. Não é apenas uma coincidência estatística, mas o reflexo de mais de duas décadas de operação contínua de uma plataforma que conquistou espaço pela eficiência, confiabilidade e capacidade de adaptação. Em um cenário de ameaças em constante transformação, o A-29 mostra que ainda está longe de atingir o limite de seu potencial.

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