Andersonn Kohl (*)
O artigo “SISFRON: uma solução do passado para os desafios do presente?” traz uma discussão oportuna sobre a modernização da vigilância de fronteiras. Entretanto, ao associar a atualidade do SISFRON às tecnologias originalmente empregadas em sua implantação, termina por atribuir ao programa uma obsolescência que não corresponde à sua concepção arquitetural.
O SISFRON foi concebido entre 2009 e 2012 como um sistema integrado de C4ISR destinado a detectar eventos na faixa de fronteira, integrar informações provenientes de múltiplas fontes, produzir consciência situacional e apoiar a resposta operacional. Desde sua origem, sua arquitetura previa a incorporação progressiva de novos sensores, plataformas e algoritmos, preservando os princípios estruturantes do sistema.
A Figura 1 evidencia essa concepção. Observa-se que sensores, bancos de dados, componentes de fusão e aplicações de comando e controle foram organizados em camadas independentes, permitindo a substituição contínua dos componentes tecnológicos sem alteração da arquitetura.
Essa característica demonstra que o SISFRON nunca foi concebido como um conjunto estático de equipamentos, mas como uma arquitetura aberta de integração de capacidades. É justamente essa distinção que parece ter sido desconsiderada pelo artigo analisado.

1. O artigo confunde arquitetura com implementação tecnológica
O principal equívoco do artigo consiste em confundir a obsolescência natural de determinados equipamentos com a suposta obsolescência da arquitetura que os integra.
Sensores, radares, enlaces de comunicação, drones e algoritmos evoluem continuamente e possuem ciclos de renovação relativamente curtos. Em contrapartida, arquiteturas de comando e controle são concebidas para permanecer válidas por décadas, justamente porque permitem incorporar sucessivas gerações desses componentes sem necessidade de reconstrução do sistema.
O SISDACTA (Sistema de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo) ilustra esse princípio. Desde sua concepção no final da década de 60, praticamente todos os seus radares, softwares, enlaces e centros operacionais foram modernizados, enquanto sua arquitetura integrada permaneceu como elemento estruturante da defesa e do controle do espaço aéreo brasileiro, mesmo após a especialização funcional em SISDABRA e SISCEAB, a partir da década de 80. O mesmo raciocínio aplica-se ao SISFRON.
Por essa lógica, avaliar a atualidade do programa pela obsolescência de alguns sensores seria equivalente afirmar que a Internet se tornou obsoleta porque os primeiros roteadores envelheceram. Os equipamentos podem, e devem, ser substituídos; a arquitetura permanece como o verdadeiro patrimônio estratégico.
2. Sensores fixos e drones não competem; eles se complementam
O artigo também estabelece uma oposição entre sensores permanentes e drones que não encontra respaldo na prática operacional.
A vigilância de fronteiras exige persistência, cobertura contínua e capacidade de resposta. Sensores fixos oferecem monitoramento permanente; drones ampliam a flexibilidade, confirmam eventos e estendem temporariamente a cobertura em áreas de interesse. Essas capacidades não competem entre si, mas se complementam.
Essa lógica está presente em praticamente todos os sistemas modernos de vigilância. O próprio Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro combina radares fixos, aeronaves E-99, radares transportáveis e diversas outras fontes de informação, todas integradas por uma arquitetura comum de comando e controle.
O próprio SISFRON já previa, em sua concepção inicial, a possibilidade de emprego de drones, à época tratados como VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados), para fins de sensoriamento e de atuação, como drones armados, bem como a utilização de ferramentas de Inteligência Artificial no nível 2 de fusão de dados.
As capacidades de atuação seriam providas pelos demais Programas Estratégicos do Exército – PEE (à época ainda denominados Projetos Estratégicos), como ASTROS 2020, Guarani, Defesa Antiaérea e RECOP.
Assim, a afirmação do artigo de que “SISFRON continua baseado em uma lógica operacional típica do início dos anos 2010: sensores fixos, centros de comando centralizados e um modelo em que a coleta de dados ocupa papel mais importante do que a capacidade de resposta imediata”, não se sustenta, pois a lógica operacional sugerida já contemplava a capacidade de pronta resposta a ser provida pelos demais PEE, com uma capacidade de resposta mínima, materializada por drones armados e guerra eletrônica.
Assim, drones, inteligência artificial, sensores oportunísticos e futuras tecnologias representam a evolução natural do SISFRON, e não sua substituição.
3. A principal lição da Ucrânia não são os drones
As experiências mais recentes da guerra na Ucrânia demonstram que a vantagem estratégica não decorre simplesmente da adoção de novas tecnologias, mas da velocidade com que elas são incorporadas às operações.
Essa foi precisamente a principal conclusão apresentada por operadores, desenvolvedores e especialistas reunidos na conferência Meridian Forge. O aspecto decisivo não foi a disseminação dos drones, mas a existência de um ecossistema capaz de integrar operadores, indústria, universidades, startups, investidores e mecanismos ágeis de aquisição, reduzindo drasticamente o tempo entre uma necessidade operacional e sua transformação em capacidade disponível.
A tecnologia, isoladamente, não produz superioridade militar. Ela precisa estar acompanhada de adaptação doutrinária, treinamento, processos de aquisição compatíveis e capacidade institucional de absorver rapidamente as lições aprendidas.
Aplicada ao contexto brasileiro, essa experiência reforça que o principal desafio do SISFRON não consiste em substituir sua arquitetura, mas em acelerar sua evolução contínua, permitindo incorporar com rapidez novas tecnologias à infraestrutura já existente.
4. O verdadeiro desafio do SISFRON não é tecnológico, é institucional
A discussão estratégica sobre o SISFRON deveria concentrar-se menos na substituição de equipamentos específicos e mais na capacidade institucional de manter sua arquitetura em permanente evolução.
Isso significa fortalecer mecanismos de experimentação, integração tecnológica e aquisição ágil, aproximando operadores de fronteira, universidades, centros de pesquisa, Base Industrial de Defesa e empresas inovadoras. O objetivo não é reconstruir o sistema, mas reduzir continuamente o tempo necessário para transformar necessidades operacionais em capacidades efetivamente empregadas.
Sob essa ótica, o risco estratégico não é o SISFRON representar uma arquitetura concebida há mais de uma década, mas permitir que sua evolução ocorra em ritmo inferior ao das ameaças que pretende enfrentar.
CONCLUSÃO
Pelo exposto, a questão central não reside na concepção do SISFRON, mas na interpretação de sua arquitetura e de seu processo evolutivo. Concebido entre 2009 e 2012, o sistema continua oferecendo uma base arquitetural capaz de incorporar sucessivas gerações de sensores, algoritmos, plataformas e meios de atuação, preservando sua aderência às características próprias da fronteira brasileira.
O debate estratégico, portanto, não deveria ser “substituir o SISFRON”, mas transformá-lo em um ecossistema nacional de inovação em vigilância de fronteiras, conectando Exército, universidades, Base Industrial de Defesa, startups, centros tecnológicos e operadores, de modo a assegurar uma evolução contínua das capacidades operacionais.

(*) Andersonn Kohl é coronel veterano engenheiro militar do Exército Brasileiro da Turma de 1987 da AMAN. Formou-se engenheiro de comunicações pelo IME em 1996 e mestre em ciências militares pela EsAO em 1998, sendo gerente de desenvolvimento do software C2 em Combate de 2005 a 2008; gerente do Projeto do Sistema Tático de Enlace de Dados – 2008 a 2012; e chefe da Divisão de C2 – 2012 a 2017. Atualmente é gerente de Negócios para o segmento de defesa (Exército) da Atech S.A.