Parte 3: Os desafios da defesa antiaérea de Média Altura no Exército Brasileiro

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Leia a primeira parte desta matéria aqui: https://tecnodefesa.com.br/os-desafios-da-defesa-antiaerea-de-media-altura-no-exercito-brasileiro-parte-1/

A segunda parte aqui: https://tecnodefesa.com.br/parte-2-os-desafios-da-defesa-antiaerea-de-media-altura-no-exercito-brasileiro/

Uma das maiores carências que o Exército Brasileiro enfrenta na atualidade é sua capacidade defesa antiaérea para vetores que operem de média altura, que podem ser aviões, helicópteros, misseis ou veículos aéreos não tripulados (VANT). O problema já foi identificado e algumas soluções já estão sendo estudadas. Conheça alguns caminhos que podem ser seguidos pela Força Terrestre nessa reportagem de Paulo Roberto Bastos Jr. e João Paulo Moralez

As opções

São diversas as opções disponíveis no mercado e o EB já analisou algumas ou o está fazendo.

A Rússia é o país que mais tem feito esforços nesse segmento específico. Em 2013 foram iniciadas as negociações entre a agência estatal russa de exportação Rosoboronoexport e o Ministério da Defesa do Brasil para a aquisição de três baterias completas do KBP 96K6 Pantsir-S1, um sistema híbrido, dotado de canhões duplos 2A38M, de 30mm, e mísseis 57E6M-E, com alcance de até 30 mil metros e um teto de 18 mil metros. A ideia era de que cada Força recebesse uma bateria. Porém, para o Exército, o Pantsir-S1 não atendia os seus requisitos por completo, continuando-se os estudos e a busca por informações sobre outros sistemas, o que se mostrou uma atitude inteligente já que, no início de 2017, o programa, que era muito mais político do que técnico, foi abandonado pelo Governo Federal.

Uma das metas do Prg EE DAAe é fomentar a indústria nacional, inclusive para se conquistar independência logística e operacional. Mas é sabido que o desenvolvimento de um programa inteiramente nacional pode ser um passo muito grande nesse momento de dificuldades financeiras, técnicas e políticas e, mesmo assim, algumas empresas já se capacitaram, ou estão em vias disso, e começaram a apresentar soluções que podem compor uma solução híbrida.

A Bradar, do grupo Embraer Defesa & Segurança, já produz o radar de busca e vigilância de baixa altura SABER M60, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e que hoje equipa os GAAAe e as Bia AAAe.

Agora está trabalhando, novamente em conjunto com o CTEx, no SABER M200, um radar multimissão de defesa antiaérea de média altura, tridimensional e de varredura eletrônica. O M200 faz a detecção e acompanhamento de diversas aeronaves simultaneamente, pode orientar mísseis, realizar missões de vigilância, meteorologia e aproximação, num raio de 200 quilômetros, ou seja, um equipamento nacional imprescindível para integrar qualquer sistema que possa vir a ser adotado.

Outra companhia que está mostrando interessantes respostas para sanar essa lacuna é a Avibras Indústria Aeroespacial S/A, que possui em seu portfólio o ASTROS 2020, reconhecido como um dos mais modernos sistemas de Artilharia para saturação de área do mundo.

Tendo sido exportado para diversos países, a Avibras ofereceu um modelo antiaéreo chamado de ASTROS AV-MMA. A primeira versão foi apresentada na LAAD 2013, em associação com a MBDA, usando o MICA VL. Na época, o Dassault Rafale era um dos três finalistas do programa FX-2 e aquele míssil fazia parte de seu sistema de armas. Logo após (2014), foi anunciado um novo desenvolvimento conjunto, novamente com a MBDA, utilizando o CAMM, tendo em vista a escolha desse sistema para equipar a Classe Tamandaré, demostrando a capacidade de integrar mísseis diferentes ao seu sistema.

Outras fabricantes do exterior também têm se feito presentes e as propostas da Diehl, MBDA, Saab e Rafael foram as que mais se destacaram.

A fabricante alemã Diehl BGT Defence desenvolveu o sistema IRIS-T SLM, que utiliza o míssil ar-ar de curto alcance IRIS-T (Infra Red Imaging System Tail/Thrust Vector-Controlled).

Tendo entrado em serviço em 2005, o programa é liderado pela Alemanha, responsável por 46% dos trabalhos de desenvolvimento, tendo a Itália por outros 19%, a Suécia por 18%, a Grécia por 13% e os restantes 4% divididos entre o Canadá (substituído depois pela Espanha) e a Noruega. O míssil é guiado por calor, possui vetoração de empuxo e foi desenvolvido para substituir o AIM-9 Sidewinder, é resistente em ambientes com elevada presença eletromagnética uma vez que o seu sensor utiliza dados de uma biblioteca interna, fazendo a análise de imagens, diferenciando uma contramedida eletrônica de um alvo real. É ainda da categoria fire and forget e com lock-on after launch, onde faz o engajamento depois de ter sido lançado, com manobrabilidade suportando 60g de carga e curvas com 60º por segundo e em quaisquer condições meteorológicas.

O IRIS-T é operado por 12 países e o Brasil será o próximo cliente com a chegada dos primeiros Gripen E prevista a partir de outubro de 2021 no 1º Grupo de Defesa Aérea em Anápolis (GO).

Aproveitando todas as suas características, a Diehl desenvolveu a variante antiaérea designada IRIS-T SL (Surface Launched) que pode atingir alvos até 25 mil metros e com um teto operacional de 16 mil metros e na versão ER esses valores são de 40 e 25 mil metros, respectivamente. Está equipado com GPS e navegação inercial, junto aos próprios sistemas de guiagem por infravermelho, sendo capaz de combater mísseis de cruzeiro e pequenos VANTs. Uma outra grande vantagem é a integração entre os modelos ar-ar e terra-ar, podendo, na sua versão short range air defence (defesa antiaérea de curto alcance, SHORAD), ser utilizado também por caças.

Alemanha, Itália, Suécia e Noruega já o operam. Os Estados Unidos demonstraram interesse e, neste caso, a Diehl pode estabelecer uma parceria com a Lockheed Martin e a Saab, que entraria com o radar Giraffe 4A Active Electronically Scanned Array (radar de varredura eletrônica ativa, AESA). Chamado de Falcon, utilizaria a versão ER para complementar o MIM-104 Patriot, de maior alcance, proporcionando uma defesa em camadas, uma capacidade perdida com a desativação do MIM-23 Hawk, em 1994.

Já a MBDA está oferecendo o CAMM (Common Anti-air Modular Missile). Seu conceito se baseia na utilização de um vetor que atenda as demandas de defesa antiaérea em solo (Sky Sabre) ou proteção de ponto para navios (Sea Ceptor), com elevada comunalidade entre as versões, o que significa uma redução dos custos de aquisição, operação e complexidade logística.

O Sea Ceptor, escolhido pela Marinha do Brasil para o programa Classe Tamandaré, pode engajar mísseis convencionais com elevado ângulo de ataque na trajetória final ou aqueles navegando a baixíssima altura, menos de 50 metros. Ou, ainda, ser utilizado contra navios de pequenas dimensões provendo capacidade superfície-superfície. Na Royal Navy, substituirá o já antigo e obsoleto Sea Wolf nas fragatas Type 23 e Type 26.

Na variante terrestre, o Sky Sabre atinge velocidade supersônica (Mach 3), é all-weather e com alcance que varia de 1 a 25 mil metros e altura de 10 mil metros, possibilitando a função de curta e média altura em um mesmo sistema. Em voo, o míssil pode receber, informações via datalink antes que o buscador de radar ativo retorne para a aproximação final.

O Exército Britânico começou a utilizá-lo em 2018, com uma composição de um TEL (Transporter Erector Launcher, ou veículo de transporte e lançador vertical), sobre um caminhão MAN SV HX60 8X8, com guindaste para autocarregamento, que pode transportar em até 12 mísseis, e um veículo radar, sobre o mesmo chassi, com o Saab Defence 3D Giraffe AMB. Substituiu os antigos Rapier.

O disparo inicial acontece por gás até que o míssil saia por completo da cápsula. Somente então o motor é acionado, o que resulta em economia do combustível ampliando o raio de ação. Por fim, está em desenvolvimento uma versão com 45 mil metros de alcance, denominada ER.

A Saab Defence and Security possui o RBS 23 BAMSE (Bofors Advanced Missile System Evaluation), equipado com os mísseis all-weather do tipo Automatic Command of the Line of Sight (Comando Automático da Linha de Visada, ACLOS), com alcance útil de 20 mil metros e teto de emprego de até 15 mil metros de altura, e é capaz de cobrir uma área de 2,1 mil km²; em termos de ameaças, pode atacar tanto alvos convencionais como aeronaves e helicópteros, até bombas guiadas, mísseis de cruzeiro, antirradiação e VANTs.

Suas baterias de tiro, possuem lançadores em carretas rebocáveis, que ficam prontas para serem empregadas em menos de 10 minutos e remuniciadas em menos de cinco. São orientadas por um centro de controle e vigilância operado por uma guarnição de um ou dois militares instalados num container blindado de 6,06m de comprimento, 2,43m de largura e 2,59m de altura e preparado para ambientes de guerra química, bacteriológica, radiológica e nuclear, que possui um radar de vigilância 3D Giraffe AMB, de varredura eletrônica na banda C e na frequência de 5.4-5.9GHz, cobrindo elevação de 70º com alcance de 20 mil metros de altitude.

Durante a Mostra da Base Industrial de Defesa (BID-Brasil) 2016, em Brasília (DF), a empresa apresentou ao EB o BAMSE SRSAM, totalmente móvel, baseado em caminhões Ashok Leyland HMV 8X8, onde uma bateria seria composta por um centro de controle e vigilância e até seis TELAR (Transporter Erector Launcher and Radar, ou veículo de transporte, lançador e radar), com seis lançadores cada, mais mísseis extras para remuniciamento, e radar de tiro doppler monopulso atuando na banda K, em 34-35Ghz de frequência.

De Israel, a Rafael Advanced Defense Systems conta com o SPYDER (Surface-to-air PYthon and DERby), projetado desde o início para ser operado por recrutas do seu Exército, ou seja, militares sem muita experiência.

O SPYDER possui lançadores para oito mísseis, que podem ser tanto o Python 5 guiado por infravermelho, quanto o Derby, de radar ativo, e que faz parte do inventário da FAB nos caças Northrop F-5EM/FM. Com velocidade de Mach 4 (4.939km/h) a bateria consiste num centro de comando e controle que pode receber informações de outros radares e ainda gerenciar outros centros que estejam a até uma distância de 100 quilômetros; seis unidades de tiro; e um veículo para ressuprimento.

O SPYDER MR usa o radar Elta EL/M 2106 ATAR 3D de varredura eletrônica e capaz de rastrear até 60 alvos simultaneamente, e o míssil faz o engajamento após ser lançado e uma das suas vantagens é a capacidade de ser integrado em variados caminhões. A Índia, por exemplo, emprega os caminhões Tatra T-816 6X6, o mesmo chassi dos veículos ASTROS 2020.

O Python 5 tem alcance de 15 mil metros e teto operacional de 9 mil metros, enquanto o Derby tem alcance de 35 mil metros e teto de até 16 mil metros de altura. O sistema pode ainda utilizar o novo I-Derby-ER, com um alcance consideravelmente maior.

 

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