Por Paulo Bastos
No atual processo de modernização do Exército Brasileiro (EB) um tema bem específico, e restrito ao planejamento militar, passou a ser encarado como uma questão urgente: a retomada da capacidade operacional dos Regimentos de Cavalaria Blindada (RCB) localizados no Sul do Brasil.
Atualmente o Comando Militar do Sul (CMS) possui três RCB: o 4º RCB, aquartelado em São Luiz Gonzaga; o 6º RCB, em Alegrete; e o 9º RCB, em São Gabriel, todos no Estado do Rio Grande do Sul e subordinados às 1ª, 2ª, 3ª Brigadas de Cavalaria Mecanizadas (Bda C Mec), respectivamente (*). Estes estão equipados pelas viaturas blindadas de combate carros de combate (VBC CC) Leopard 1BE (chamados no EB como Leopard 1A1), adquiridos como excedentes do Exército Belga ainda na década de 1990. Embora tenham sido uma solução viável à época, hoje representam um gargalo crítico devido a sua alta taxa de indisponibilidade.

BASE DOUTRINÁRIA
Por doutrina, os RCB são as unidades de “Ação de Choque” das Brigadas Mecanizadas, ou seja, são concebidos como um “núcleo duro”, responsáveis por romper posições inimigas mais defendidas, explorar brechas e sustentar o avanço do restante da tropa, tendo que sustentar a posição até a chegada das Forças Blindadas.
Diferentemente das unidades sobre rodas, sua função não é apenas reconhecimento ou apoio, mas o combate decisivo. Para cumprir essa missão, é necessário que seu principal vetor de combate seja capaz de transpor obstáculos, operar sob fogo intenso e manter o ímpeto. E para isso, parece haver um consenso dentro da Força Terrestre: é indispensável operar carros de combate sobre lagartas. E mais do que isso, é fundamental compreender o papel mais amplo dessas Brigadas.
As Brigadas Mecanizadas constituem forças rápidas e estratégicas, capazes de dar a pronta resposta em diferentes cenários operacionais. Sua plena operacionalidade é essencial no combate moderno, marcado por alta mobilidade, integração de sistemas e necessidade de reação imediata. Nesse contexto, representam também um importante instrumento de dissuasão à disposição da Força Terrestre.
Entretanto, o Brasil mantém seus RCB, justamente o elemento de choque dessas brigadas, sem os meios adequados para cumprir a esse papel.

CAPACIDADE OPERACIONAL LIMITADA
A realidade dos RCB infelizmente é dura: limitações mecânicas, sistemas de tiro ultrapassados e comunicações defasadas comprometem a capacidade de combate. A expressão “não atiram, não andam e não comunicam”, comum entre os militares, deixou de ser um mero exagero e passou a destacar um reflexo da deterioração acumulada ao longo de décadas.
Houve tentativas de modernização, mas que foram canceladas antes de produzir efeitos concretos. Como paliativo, alguns Regimentos de Carros de Combate (RCC), as principais e mais importantes unidades da Arma de Cavalaria, passaram a ceder algumas de suas VBC CC Leopard 1A5, versão mais avançada da mesma família. Essa medida permitiu manter um nível mínimo de adestramento e preservar a existência operacional das unidades, mas, além de não resolver o problema, ainda desfalca os RCC.
O cenário atual de combate terrestre evoluiu rapidamente com o surgimento de redes integradas, sensores avançados, guerra eletrônica e coordenação em tempo real, que hoje são elementos centrais. Blindados que não conseguem se integrar a esse ambiente tornam-se vulneráveis e, em muitos casos, irrelevantes quando utilizados de forma isolada.
Manter os RCB com meios obsoletos compromete não apenas sua eficácia, mas a própria capacidade das brigadas mecanizadas de cumprir sua missão. Mais grave ainda, reduz o valor dessas unidades como força de pronta resposta e enfraquece seu papel dissuasório.

SUBSTITUIÇÃO ESTRUTURADA
Como as extensões sucessivas da vida útil de plataformas antigas se mostraram infrutíferas, é necessária a introdução de uma nova geração de viaturas de combate sobre lagartas, capazes de operar no ambiente de guerra contemporâneo. Esse movimento se torna ainda mais lógico diante do avanço recente na modernização dos demais meios das brigadas mecanizadas.
O processo de incorporação da viatura blindada de combate de Cavalaria (VBC Cav) 8X8 Centauro II BR elevou significativamente o poder de fogo e a capacidade de reconhecimento armado, que já contam as viaturas 6X6 Guarani como espinha dorsal de transporte de tropas, e seguem recebendo a 4X4 Guaicurus, ampliando sua mobilidade e flexibilidade. Diante desse cenário, torna-se incoerente manter justamente o elemento de choque da Brigada (os RCB) com os meios mais defasados.
A substituição dos Leopard passa a ser não apenas necessária, mas inevitável para manter a coerência operacional das brigadas. Além disso, a adoção de uma VBC CC que compartilhe seus principais sistemas com a VBC Cav Centauro II (no caso a torre HITFACT MkII) representa uma importante oportunidade de comunalidade logística nos armamentos e sensores.
As vantagens dessa logística unificada traria ganhos expressivos, como a redução dos custos de manutenção, padronização do treinamento, simplificação da cadeia de suprimentos e maior interoperabilidade entre unidades sobre rodas e lagartas. Ou seja, essa abordagem permitiria que diferentes elementos da força terrestre operassem de forma integrada, maximizando eficiência e capacidade de resposta.
Com tudo que foi exposto, a substituição dos atuais Leopard não é apenas desejável, é essência. Sem essa renovação, os RCB correm o risco de se tornarem estruturas simbólicas, sem capacidade real de combate. Portanto, para modernizar a Força Blindada do EB é necessário pensar no Programa Estratégico Forças Blindadas (Prg EE F Bld) de forma mais ampla, envolvendo também esses regimentos. E isso é mais do que adquirir novos blindados, mas garantir que as brigadas mecanizadas mantenham sua natureza de força rápida, estratégica e dissuasória, plenamente apta a operar no ambiente de combate do século XXI.

(*) Além dos três RCB citados, o EB ainda possui o 20º RCB, sediado em Campo Grande (MS), subordinado a 4ª Bda C Mec, do Comando Militar do Oeste (CMO), e equipado com a VBC CC M60A3 TTS. Muito que foi citado sobre os regimentos do Sul também se aplica a essa unidade.
Respostas de 7
Excelente artigo. Sendo o RCB uma unidade orgânica da Brigada C Mec e dependendo da minha logística das duas outras unidades que vão ser equipadas com Centauro, 2; o mais lógico é possuir um CC com comunalidade, ou seja, mesma torre e munição. Acho que o Tulpar seria uma excelente escolha.
exelente artigo, poderia fazer um explicando as diferenças e funções entre os Regimentos carro de combate, Regimentos cavalaria brindadas e os Regimentos cavalaria mecanizada, suas funções e localidades? pq qndo leio artigos sobre cavalaria de Exército sempre da um nó na cabeça para entender, obrigado.
Os RCBs do EB sempre forma quarternários, logo concluo que os RCBs do Sul estão no momento com dois esquadrões de CC cada, sendo um deles com Leopard 1A1, e o outro com Leopard 1A5 cedidos dos RCCs das Brigadas blindadas (os dois RCCs da Brigada de Infantaria blindada estão agora com 3 Esqd de CC de Leopard 1A5, restando apenas um dos RCCs da Cavalaria Blindada terem feito o mesmo). Confirmam?
Fiquei intrigado que as Comunicações nestes carros do artigo ‘ não comunicam ‘. Há longos anos atrás o EB ia optar pela tecnologia chamada de salto de frequência ( frequency hopping) nos rádios FM, tanto para blindados como para viaturas. Ou optar para o ‘ salto de frequência adaptativo’( rádios de HF). O tempo passou e a tecnologia dos rádios FM e HF , com certeza ultrapassou ( n-1) geração ou o rádio baseado em software. Sem as Comunicações não adianta ter a última geração de blindados.
Esse é um dilema clássico do Exército Brasileiro hoje: usar Leopard 1A5 nas Brigadas de Cavalaria Mecanizadas.
Direto ao ponto:
O Dilema em 3 partes
1. Doutrina
2. Logística
3. Operacional
1. Cav Mec ≠ Cav Blindada.
A missão da Cav Mec é reconhecer, segurança, economia de forças. Precisa de mobilidade, alcance e leveza. Não é feita pra choque frontal com CC.
2. Leopard 1A5 pesa 42t. É um MBT dos anos 60, modernizado nos 90. Beberrão, manutenção complexa, peças cada vez mais raras. Alemanha já aposentou.
3. Guarani 8×8 pesa 18t. O resto da Bda C Mec é sobre rodas. O Leopard quebra a mobilidade estratégica: não usa as mesmas pontes, não anda na mesma velocidade em estrada, limita o alcance.
Por que o EB colocou Leopard na Cav Mec então?
Disponibilidade imediata 2010-2014: O Brasil comprou 220 Leopard 1A5 por preço de ocasião. O EB precisava substituir o M41C obsoleto. Distribuiu pra RCC e pro RCB das Bda C Mec porque não tinha coisa melhor.
“Carro de combate é carro de combate”: Na falta de um blindado leve de reconhecimento, o Leopard virou tampão. Melhor um MBT antigo que nada.
Dissuasão: Ter 105mm em qualquer OM blindada ainda impõe respeito no cenário regional.
Por que isso virou problema?
Quebra o conceito de “mecanizado”: A Bda C Mec vira uma brigada “híbrida” que não é nem rápida como deveria, nem forte como uma Bda Bld. O Leopard atrasa o deslocamento de 500km que um Guarani faz em 1 dia.
Custo x Benefício ruim: Manter Leopard 1A5 rodando em 2026 custa caro. Motor MTU, suspensão, eletrônica. E o poder de combate dele já é superado por qualquer ATGM moderno que um fuzileiro carrega nas costas.
Substituição travada: O projeto do VBC Cav sobre Guarani 8×8 com canhão 105/120mm patina. Enquanto não vem, o Leopard segue lá, “quebrando galho”.
Os 3 caminhos que o EB discute hoje
1. Manter até acabar: Usar o Leopard até 2030-2035, canibalizando peça, e aceitar a limitação doutrinária. É o mais barato no curto prazo.
2. Padronizar tudo sobre rodas: Tirar o Leopard da Cav Mec, passar pra RCC de Bda Bld e acelerar o VBC Cav Guarani. Devolve a mobilidade pra Cav Mec. É o correto doutrinariamente, mas custa $$$.
3. Solução intermediária: Substituir por Centauro II 8×8 120mm ou similar. Mantém poder de fogo, mas com logística de Guarani. Depende de compra externa.
Resumo do dilema: O Leopard na Cav Mec é um remendo. Resolveu o problema de 2010, mas criou um problema doutrinário e logístico pra 2026.
A Cav Mec precisa de fogo, mas precisa mais ainda de velocidade e alcance. Leopard entrega o primeiro e atrapalha o segundo.
Acredito que uma viatura como o Tulpar deva resolver a velocidade, por ser leve, e o fogo devido ao canhão 120mm.
Texto tirado do chat gpt, não condiz em nada com a doutrina, sugiro estudar mais.