Opinião: o “Pula Pirata” dos TANKs russos

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A falha mortal na construção dos TANKs russos que tem levada constante “ejeção” de suas torres.

Por Adriano Santiago Garcia (*)

A desenfreada corrida armamentista da Guerra Fria ocorrida entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Pacto de Varsóvia geraram carros de combate (TANK) com cada vez mais tecnologia agregada em seus sistemas de controle de tiro, motores mais potentes e um crescente incremento no diâmetro de seus tubos.

O aumento dos calibres, bem como adição de armamentos menores, como metralhadoras de apoio, coaxial, de torre ou em sistemas de armas remotamente controlados (SARC), acabou gerando a necessidade de estocar esta munição de forma segura. Tentando obedecer ao máximo trinômio de combate e construção de blindados, os engenheiros criaram soluções de cofres e depósitos e sistemas para receber as munições de todos os calibres disponíveis na plataforma.

Em primeira analise não parece ser uma problemática estocar munições dentro de um “Titã de Aço” como um TANK, entretanto a necessidade de alocar também uma vasta quantidade de ferramentas, material de campanha da tripulação e os próprios militares começam a racionalizar os espaços interno.

A adoção dos sistemas de autocarregamento (“autoloaders”) do tipo “carrossel”, adotado nos modelos de soviéticos pós T-54/T-55, representou uma marca de construção desta escola de blindados sendo os carros de Moscou muito menores aos seus equivalentes da OTAN.

A seguir serão expostos dados acerca de como uma solução criativa, a primeira vista, tornou-se uma condenação às tripulações de carros da época soviética desde as Operações no Iraque (1991) até as atividades ainda em curso na Ucrânia.

Inicio

A segunda metade do século XX foi o palco de diversas corridas entre as duas superpotências que buscavam supremacia em todas as áreas e campos tanto do conhecimento quanto do poder. A visão acerca da dominação militar terrestre ainda estava muito arraigada aos padrões da Segunda Guerra Mundial, tendo assim como parâmetro o numero de forças blindadas disponíveis bem como o calibre de suas armas e logo se convém pensar no trinômio de combate e construção de blindados: Poder de Fogo, Proteção Blindada e Mobilidade.

Trinômio de Combate e Construção de Blindados (Fonte: Internet)

É notório que os aspectos são quase que inversamente proporcionais, pois, se é aumentada a proteção blindada é perdida a mobilidade dentre outras comparações.

A utilização de calibres mais avantajados em TANKs de produção soviética teve inicio com carros IS-3, desenvolvidos em 1944 equipados com canhões de 122 mm. Para poder receber tal arma era necessário ter espaço para receber as munições de armamentos, primário e secundário, demais ferramentas e materiais. A grande quantidade desses materiais exigiu um carro de enormes proporções físicas e um grande motor para deslocar essa massa.

O estudo simplificado acima mencionado parecia dominar o imaginário das escolas de construção de blindados dando origens ao “Muse” alemão e o T-28 americano.

Na segunda metade do século XX as escolas de construção de blindados divergiram seguindo a da OTAN na direção de buscar a melhoria de estocar as munições e os soviéticos apostando na mesma solução com evoluções em outros sistemas. Tal escolha é hoje a falha fatal que coloca em xeque qualquer força que esteja equipada com materiais do antigo Pacto de Varsóvia.

Escolas de construção de Blindados

Entende-se por escolas de construção as linhas gerais que balizaram o desenvolvimento dos Tanks no pós Segunda Guerra Mundiais, nos quais os países membros da OTAN reduziram de cinco para quatro membros das guarnições, ou tripulações, dos carros de combate, dada a extinção do atirador de metralhadora de chassis. Os Soviéticos também fizeram tal redução em um primeiro momento e, posteriormente para apenas três militares, com a adoção do sistema de auto carregamento de carrossel.

Nos dois casos o fator determinante para essa diminuição foi espaço dado o aumento dos calibres dos canhões embarcados.

OTAN

As décadas de 50 e 60 representaram uma grande efervescência na guerra blindada terrestre, tendo os Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha Ocidental se lançando ao desenvolvimento de plataformas completamente distintas, sendo padrão apenas o canhão de 105 mm, quatro militares na guarnição e munições colocadas em dois compartimentos separados.

O primeiro compartimento é denominado cinta de primeira intervenção, pois se situa junto ao militar que tem por função de carregar o canhão principal, metralhadora coaxial e de teto de torre. Tal compartimento foi abolido nas versões mais modernas dos carros ocidentais, sendo substituídos por compartimentos na parte traseira das torres, denominados “bunkers”, que possuem resistente parede anti-explosão nas laterais e uma mais fina na parte superior.

Munições 105mm presas na cinta com mais duas, uma direto no canhão e outra nas mão do municiador (Fonte: Adriano Santiago)

A ideia era salvaguardar a guarnição da ignição da munição por simpatia, ou seja, derivado do impacto de outras armas no TANK canalizando a explosão, caso ocorra para a parte de cima.

O segundo compartimento é localizado exatamente onde se sentava o atirador de metralhadora do chassis em todos os carros OTAN, sendo colocada a munição sobre o escudo da frente do chassis, posição onde a blindagem é a mais resistente e grossa no blindado.

Compartimento do chassis do CC Leopard 2 (Fonte: Adriano Santiago)

Escola Soviética

Os Soviéticos iniciaram sua evolução do pós-guerra na mesma linha dos ocidentais, reduzindo sua guarnição para quatro militares e distribuindo munição em todos os locais disponíveis dos modelos T-54 e T-55.

Distribuição de munições T-54 e T-55 (Fonte: Internet)

Foi o desenvolvimento dos Blindados T-64/ T-80, T-72/T-90 que consagraram a solução que permitiu a esses TANKs ter um tamanho físico muito menor aos seus equivalentes a leste da cortina de ferro e reduzir sua tripulação de apenas três militares: o autocarregador de munição em carrossel.

O sistema trata-se de dois carrosséis sobrepostos onde no superior se encontra o propelente da munição e no inferior o tipo de cabeça de guerra selecionado podendo ser química ou cinética.

Autocarregador em carrossel (Fonte: Internet)

Ao contrario das munições ocidentais, que se encontravam montadas no formato de um cartucho único, exceto no TANK Challenger britânico, a munição soviética é separada, estando o propelente explosivo encerrado em um frágil invólucro.

A Mortal Falha “Pula Pirata” e as conclusões do autor

Existia um brinquedo antigo nas décadas de 80 e 90 do século XX chamado “Pula Pirata”, que consistia em um boneco “pirata” colocado dentro de um barril, que era apunhalado por espadas pelos participantes. Em determinado momento o boneco era arremessado por uma mola, vindo o autor da apunhalada a perder o jogo.

Local de estoque de munições nos T-72 e M1 Abrams (Fonte: Internet)

A metáfora é pertinente com a mortal realidade que o sistema de carrossel destinou aos TANKs soviéticos, cujas imagens da frota do antes “grande Exército de Saddam Hussein”, em 1991, até as “lives” feitas contra a invasão russa na Ucrânia são as mesmas. TANKs com a torre arremessada a vários metros de distancia ou com sinais que a tripulação ardeu em chamas, quando o propelente se iniciou, fruto do disparo de RPG-7 ou míssil Javelin.

Infelizmente ouve-se novamente a voz dos “especialistas” clamando que os TANKs estão condenados, pois os drones isso, os mísseis aquilo. O que não se pode aprender na faculdade do “Call of Duty” é que a utilização de plataformas blindadas é algo realizado em largas formações em que:

  • TANKs consistem da ponta de lança da conquista dos objetivos em campos abertos;
  • A progressão dos TANKs ocorre sobre o guarda-chuva da proteção aérea e fogos de artilharia de médio e curto alcance; e
  • As tropas de infantaria blindada protegem as formações dos TANKs contra caçadores a espreita com misseis ou armas anticarro.

As tropas blindadas sejam sobre rodas ou lagartas devem possuir alto grau de prontidão material e preparo pessoal para ser empregado em combates urbanos posto o grau de risco de emboscadas neste tipo de terreno.

Antes de parecer estar em busca de escusas as conclusões acima são pormenorizadas ao máximo em relatórios do Centro de Desenvolvimento de Doutrina do Exercito dos EUA.

Teriam os russos sempre negligenciado tal falha?

É impossível saber o que se passou na mente dos construtores da União Soviética, mas é certo que eles não acreditavam estar facilitando as coisas para os ocidentais. É possível inferir que a baixa silhueta proporcionada pelo menor tamanho, e mobilidade dos TANKs seria um trunfo dificultando ser detectados, engajados e destruídos. A adoção em massa de pacotes de blindagem reativa pode ter sido uma hipótese em uma melhor sobrevivência dos carros.

É sempre sábio pensar que quando os equipamentos são deficientes ou as instruções de todos os níveis mal ensinadas cedo ou tarde às tropas irão pagar com sangue essa dívida.

TANK iraquiano destruído durante a Operação Tempestade no Deserto 1991 (Fonte: Internet)

REFERÊNCIAS

JANE’S. Tecnhology of Tanks 1. 1. London, UK: Jane’s Group Information, 1991.

SHACKLETON, Michael. Leopard 1 Trilogy. 1. Bainbridge Island, USA: Barbarossa Books, 2003.

DEFENCE. Pakistan Defence. Disponível em: https://defence.pk/pdf/threads/tank-protection-levels.171837/. Acesso em 02Jul2019.

ELBIT SYSTEMS. Tank ammunition. Empresa de Material de Defesa. Disponível em: https://http://www.imisystems.com/whatwedocat/firepower-precision/land-firepower precision/tank/#main-form. Acesso em 02Jul2019.

REPORT. Tank gun ammunition Europe. Relatório de material de defesa. Disponível em https://www.forecastinternational.com/archive/disp_pdf.cfm?DACH_RECNO=843. Acesso em 02Jul2019.

 

(*) Adriano Santiago Garcia é capitão de Cavalaria, formado pela AMAN, turma de 2009, especialista com 10 anos de trabalho com os carros de combate Leopard 1A1 e 1A5.
Fez curso de instrução do Leopard 1A5BR e Master Gunner, sendo posteriormente instrutor desses cursos.

 

2 Comentários

  1. Muito bom o artigo! agora…eu fiquei aqui pensando…dentre os carros de combate em operação hoje (independente da geração) os russos, assim também como os chineses, iranianos e paquistaneses ( já que esses, também seguiram este design de auto carregamento em carrossel) emfim…esses carros de combate do oriente, que adotaram esse sistema de auto carregamento, tendem a ter maiores chances de sua torre, ser arremessada caso o carro de combate seja destruído?
    Falo isso porque uma vez, me lembro de ter visto carros de combate Leopard 2a4, da Turquia destruídos por guerrilheiros, daquela insurgência curda que ocorre na Turquia já faz uns anos, que tinha essas mesmas características, o carro de combate estava com a torre a metros longe do chassi, devido a ignição da munição. (Lembrando que o Leopard também tem suas munições armazenadas em cofres blindados, na traseira da torre)

  2. Acho o comentário do Gabriel muito pertinente, tínhamos Abrams sem torre também no Iraque, acredito que as torres serão ejetadas com ou sem compartimento blindado graças ao tamanho do projetil que atingir o tanque e o peso da sua torre que provavelmente nos tanques ocidentais devem pesar 3 vezes mais que os tanques Russos.

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