O crescente avanço dos Estados Unidos sobre a Groenlândia, alegando a incapacidade de Europa em defender a ilha, liga o alerta no Brasil.
Por Paulo Bastos
Em um ambiente internacional marcado por disputas por áreas marítimas, cabos submarinos, rotas comerciais, recursos energéticos e presença de potências extrarregionais no Atlântico Sul, ilhas desprotegidas equivalem a vulnerabilidades abertas. Além disso, a discussão atual sobre o interesse americano na Groenlândia cria um alerta sobre a incapacidade do Brasil em manter o controle e assegurar a posse e a defesa das suas principais ilhas oceânicas.
O Brasil possui uma das maiores áreas marítimas do planeta, que foi nomeada pela Marinha do Brasil (MB) como “Amazônia Azul”, devido aos seus vastos recursos e grande extensão, similar à Amazônia, e dentro desse contexto ilhas oceânicas como Fernando de Noronha e a Ilha da Trindade não são meros pontos geográficos, são ativos estratégicos de alto valor para projeção de poder naval e controle marítimo. A pergunta que precisa ser enfrentada, sem ambiguidades institucionais, é direta: quem deve proteger e vigiar essas ilhas, e com quais meios?
Noronha e Trindade ampliam significativamente a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira e funcionam como postos avançados naturais para vigilância, alerta antecipado e dissuasão e, no atual cenário geopolítico, tratá-las apenas como destinos turísticos, ambientais ou científicos é um erro estratégico grave. No caso específico dessas ilhas, a lógica estratégica é inequívoca: a responsabilidade primária pela defesa deve ser da Marinha.
As ilhas estão no centro de algumas das principais rotas marítimas do Atlântico Sul, próximas às linhas de comunicação marítimas críticas e inserida no espaço onde se projeta o poder naval brasileiro. A MB é a força naturalmente vocacionada para garantir a defesa costeira e marítima da ilha, manter presença naval permanente, com meios de superfície e patrulha e operar sensores marítimos e costeiros, integrados a sistemas de comando e controle.
FERNANDO DE NORONHA, O GUARDIÃO DA COSTA
Descoberto oficialmente em 1503, o arquipélago de Fernando de Noronha inicialmente serviu como ponto de apoio para navegação e exploração do pau-brasil, mas sua posição isolada e estratégica rapidamente despertou o interesse de outras potências europeias e, ao longo dos séculos XVI e XVII, foi ocupado por franceses, ingleses e holandeses, sendo palco de disputas coloniais no Atlântico Sul. Para evitar novas invasões, Portugal passou a investir na fortificação do arquipélago, transformando-o em um complexo sistema defensivo, com fortes como o Forte dos Remédios, Santo Antônio e São Pedro do Boldró.
Durante a Segunda Guerra Mundial tornou-se um ponto estratégico crucial, e o Exército Brasileiro (EB) enviou tropas para garantir sua defesa contra uma possível invasão da Alemanha, com destacamento misto, subordinado ao comando da 7ª Região Militar, principalmente de Infantaria e Artilharia, como o 1º Grupo do 2º Regimento de Artilharia Antiaérea (I/2ºRAAAé), de Osasco (SP), equipado com os que a artilharia antiaérea tinha de mais moderno: os canhões Krupp, de 88mm, que ironicamente eram alemães.
Em 1942 foi concedido aos Estados Unidos a permissão temporária de estabelecer uma base aérea e de apoio logístico no Atlântico Sul, porém, recentemente, tem surgido notícias que o interesse americano na ilha voltou, utilizando o argumento do “direito histórico de retorno operacional, com base em investimentos realizados pelos EUA durante a Segunda Guerra Mundial e o período da Guerra Fria”, como citado em artigo por Nelson During.
A ausência de uma estrutura naval robusta e permanente em Noronha está criando um vácuo operacional incompatível com o discurso oficial de defesa da Amazônia Azul. O arquipélago deveria apoiar forças aeronavais necessárias não somente à segurança da ilha, mas como base permanente e porta-aviões natural para a projeção do poder naval brasileiro no Atlântico Sul e a cobertura aérea das operações da Esquadra Brasileira naquela região.
TRINDADE, O POSTO AVANÇADO DO ATLÂNTICO SUL
A Ilha da Trindade, a mais isolada e próxima ao limite oriental da ZEE brasileira, foi descoberta em 1502 por navegadores portugueses, sendo inicialmente chamada de Ilha da Ascensão, nome posteriormente alterado para Trindade.
Devido à sua posição remota, Trindade nunca teve colonização permanente, mas foi alvo de interesse de diversas potências marítimas ao longo dos séculos, sendo o principal em 1895, quando o Reino Unido tentou ocupar a ilha com o objetivo de instalar uma estação telegráfica submarina. O Brasil reagiu diplomaticamente, apresentando documentos históricos que comprovavam a posse portuguesa e, posteriormente, brasileira do território, brigando os britânicos a reconhecer a soberania brasileira em 1896.
O papel estratégico de Trindade não pode continuar sendo visto apenas como um posto científico, mas como um sentinela geopolítico.

ENXERGAR MAIS LONGE E REAGIR
A instalação de radares de vigilância aérea e marítima de longo alcance em Fernando de Noronha e Trindade não é opcional, é uma necessidade básica, afinal não existe defesa sem consciência situacional. Esses sistemas devem permitir o monitoramento contínuo do tráfego aéreo e naval, a detecção antecipada de aeronaves e embarcações e possuir integração com centros de comando nacionais, garantindo a o real controle do território. Sem radares, o Brasil reage tarde. E quem reage tarde, no ambiente marítimo moderno, já perdeu a iniciativa.
Porém a vigilância não se sustenta apenas com sensores fixos. É imprescindível a presença de aeronaves de combate e drones para demonstrar presença, dissuasão e capacidade de reação imediata. Operar aviões de combate, mesmo em caráter de alerta rotativo, é uma medida necessária para dissuasão e prover cobertura aérea em defesa do meios navais operando na área.
Trindade não tem possibilidade de possuir uma base mais robusta, mas Fernando de Noronha tem, mesmo que com limitações, e a MB, que deve liderar sua defesa, precisa instalar urgentemente estruturadas militares permanentes, apoio aéreo, radares modernos e capacidade real de resposta.
Para atender as demandas que estão surgindo, os recursos da MB terão que ser ampliados, refletindo em novos meios, mais capazes e modernos. As novas Fragatas Classe Tamandaré trarão o salto tecnológico necessário, mas sua quantidade impede que nossa costa fique realmente protegida.
Outro ponto crucial é a ausência de um navio aeródromo que permita o uso de caças na MB, pois ela também é a responsável pela defesa aérea na ilha, obriga que a ilha dependa exclusivamente da Força Aérea Brasileira (FAB) , e de suas bases no continente, para a função. Para mudar isso, terá que criar uma estrutura de base aérea permanente, como os britânicos fazem nas Falklands/Malvinas, capaz de receber caças que possam operar nas limitações impostas pela ilha e que ao mesmo tempo não suguem todos os recursos da Força Naval, ou seja, um caça leve.
Como os atuais AF-1 Falcão (A-4KU Skyhawk) estão com uma condição operacional muito baixa, além de estarem se aproximando perigosamente do final de sua vida útil, uma nova aeronave terá de ser adquirida, sob a pena da MB jogar fora todo seu esforço de recuperar sua aviação de asa fixa.
Qualquer arranjo diferente disso é subdimensionar a importância estratégica do Atlântico Sul.

(*) Imagens geradas com o uso de inteligência artificial
Respostas de 2
Excelente artigo.
O binômio Fragata Tamandaré é M346 seria uma ótima opção para a Marinha do Brasil.
O Brasil não consegue ter caças suficientes para a FAB então não vejo sentido na MB ter aviação de caça, muito menos Navio Aeródromo.
Outrossim, diante das limitações físicas da Ilha de Trindade, o ideal é a MB operar drones de asas fixas que necessitariam de uma pista menor e proveriam uma razoável segurança para o local. Menos que um caça novo, é claro, mas mais do que se tem hoje e, a bem da verdade, mais do que os Skyhawks com com bombas burras conseguem fazer ainda que operassem embarcados.
Por fim, a capacidade da MB de operar aviões é mínima e sua perda não fará nenhuma diferença para a Defesa nacional.