Por Paulo Bastos
O anúncio da retirada da França do programa Eurodrone representa mais do que o provável fim de um projeto europeu de drone MALE (medium-altitude long-endurance), pois escancara uma transformação estrutural na indústria de defesa global, mas demonstra que, no século XXI, a capacidade de projetar e fabricar somente uma estrutura e aeronave já não é suficiente. Para garantir liderança tecnológica já que, no universo dos sistemas aéreos remotamente pilotados (SARP), o verdadeiro diferencial não está mais na estrutura em si, mas nos sistemas que tornam a plataforma capaz de navegar, enxergar, sobreviver e combater em ambientes contestados. Afinal, uma aeronave remotamente pilotada (ARP) não passa de um aeromodelo comercial mais sofisticado.
Durante décadas, a Europa consolidou uma posição de excelência na aviação tripulada, com empresas capazes de produzir aeronaves de combate sofisticadas, aviões comerciais de ponta e sistemas complexos de missão, mas o mundo dos drones revelou uma divisão tecnológica muito mais profunda. O design e a produção da aeroestrutura — asas, fuselagem, trem de pouso, superfícies de controle — são competências que hoje várias indústrias aeronáuticas possuem. Quase todos os países do mundo que possuem uma mínima capacidade industrial possuem a potencial de produzir plataformas aéreas modernas, portanto, o “corpo” do drone deixou de ser um desafio, passando aos sistemas embarcados.

Esses sistemas são o de navegação, resiliente o suficiente para permitir sua operação em ambientes hostis e guerra eletrônica, os sensores eletro-ópticos, radares e sistemas ISR, que transformam a plataforma em um multiplicador de força, os enlaces de dados seguros, a integração com armamentos guiados, os sistemas de autoproteção, a guerra eletrônica ofensiva e defensiva, além do software que gerencia autonomia, comunicações e consciência situacional. Pouquíssimas empresas no mundo dominam essa cadeia completa.
Historicamente, esse grupo foi restrito aos Estados Unidos, Israel e, mais recentemente, à China. A Europa tentou adentrar nesse seleto clube com o Eurodrone, um projeto que deveria garantir autonomia estratégica no segmento de drones armados de média altitude e longa permanência. Mas, como em tantos outros programas multinacionais europeus, a iniciativa esbarrou em custos crescentes, disputas industriais, lentidão burocrática e falta de convergência política. A decisão francesa de abandonar o projeto praticamente enterra sua viabilidade e evidencia a incapacidade europeia de responder com velocidade às transformações do campo de batalha moderno.
É nesse vazio que a Turquia emerge como o caso mais impressionante de transformação industrial no setor de defesa das últimas décadas. A Baykar deixou de ser uma empresa regional para se tornar a principal exportadora mundial de drones armados. Hoje, a companhia responde por cerca de 60% do mercado global de exportação desse segmento, um número que revela não apenas competitividade comercial, mas superioridade em tempo de resposta, custo-benefício, capacidade operacional e integração tecnológica.
O sucesso da Baykar não veio apenas da produção de plataformas como o Bayraktar TB2, amplamente testado em conflitos na Síria, Líbia, Nagorno-Karabakh e Ucrânia. O diferencial da empresa foi ter construído um ecossistema completo: sensores, sistemas de comando, integração de armamentos, software embarcado e doutrina operacional. Enquanto muitos países ainda enxergavam drones como ferramentas auxiliares, a Turquia os transformou em instrumentos centrais de guerra moderna.

Mais recentemente, a Baykar deu diversos passos ainda mais simbólico rumo à vanguarda tecnológica, como o desenvolvimento de SARP’s com capacidade de serem “naves-mãe” para os enxames de drones, do caça não tripulado Kizilelma ou da versão navalizada do Bayraktar TB3.
Esse último, projetado para operar em navios-aeródromo de pista curta, realizou com sucesso decolagem e pouso a bordo do navio TCG Anadolu, tornando-se o primeiro drone de asa fixa de sua categoria a operar de forma embarcada em um navio desse tipo. Esse feito não foi apenas um marco tecnológico: ele demonstrou que a Turquia já domina também conceitos avançados de projeção de poder marítimo por meio de sistemas não tripulados. Isso a coloca à frente de muitas potências tradicionais que ainda discutem conceitos, enquanto Ancara já testa e emprega capacidades reais.
Ao mesmo tempo, a TAI (Turkish Aerospace Industries, ou TUSAŞ, como é conhecida na Turquia) complementa esse ecossistema com novas plataformas, ampliando a autonomia industrial turca e consolidando o país como um dos poucos no mundo capazes de dominar toda a cadeia crítica de drones de combate.
O movimento de Itália e Espanha em direção a parcerias com empresas turcas mostra que essa percepção já chegou à Europa. Não se trata apenas de uma escolha comercial mais barata ou mais rápida. Trata-se do reconhecimento de que, neste segmento, a Turquia conseguiu fazer em duas décadas o que a Europa não conseguiu em um esforço multinacional: desenvolver uma base tecnológica integrada, ágil e orientada para resultados operacionais.
A lição estratégica é clara. No passado, dominar a indústria aeronáutica significava saber construir aviões. Hoje, dominar a guerra aérea do futuro significa controlar sensores, software, guerra eletrônica, integração de armamentos e redes de comando. A plataforma física é apenas o ponto de partida.
O colapso do Eurodrone simboliza o fracasso de um modelo industrial lento e excessivamente fragmentado. A ascensão da Turquia, por outro lado, mostra que soberania tecnológica no século XXI depende de integração, foco estratégico e capacidade de execução. A pergunta central já não é mais quem consegue construir um drone. A verdadeira questão é: quem consegue fazê-lo pensar, operar sob interferência, atacar com precisão e sobreviver em combate. Nesse campo, a Turquia já deixou de ser promessa — e se tornou referência global.
Que fique a lição para o Brasil…

Uma resposta
A pergunta que não quer calar é: porque o Brasil, um dos países do mundo que precisam com mais urgência dos drones turcos TB2, TB3, Aksungur, ANKA etc, ainda não adquiriu esses equipamentos superiores, absolutamente vitais pra nossa segurança nacional cada vez mais ameaçada e exposta?