Motor-Foguete S50 é testado com sucesso

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Imagem: FAB

Por Miriam Rezende Gonçalves (*)

No inicio da tarde de hoje, 01 de outubro, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea Brasileira (FAB) realizou, com sucesso, o primeiro ensaio de tiro em banco do motor-foguete S50, principal propulsor do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM).

Conhecida também como “Queima Estática”,  a avaliação foi realizada em uma bancada estática, em São José dos Campos (SP), onde o motor é preso em uma estrutura de aço ou metálica e vários sensores são espalhados ao redor do motor. O objetivo é medir cada dilatação, temperaturas, pressões dentro do motor, entre outros. Alguns destes testes chegam a usar até mil sensores de temperatura e extensômetros e, à partir disso, o motor então apresenta as condições de empuxo e vibrações que poderia apresentar em voo.

Esta etapa é crucial, entretanto não representa a finalização do projeto, ainda será realizada a verificação do motor em voo, um pouco mais complicada e extremamente importante, devido às torções e dilatações que acontecem durante a vibração de voo.

A importância do evento

O Programa Espacial Brasileiro (PEB) existe há mais de 60 anos (com a criação do GOCNAE, em 03 de agosto de 1951, por Jânio Quadros), contudo, para uma missão espacial ser considerada completa, é necessário existir o domínio de desenvolvimento de satélites, a existência de uma base de lançamentos e, também, a capacidade de desenvolver e operar um sistema de lançamento para colocar o(s) satélite(s) em órbita. Pouquíssimos países no mundo conseguem tal façanha e o Brasil está determinado a conseguir.

Nesse sentido, em termos estruturais e de definição de objetivos nacionais, integrados para o domínio completo desses principais segmentos do setor espacial (acesso ao Espaço, infraestrutura de solo e sistemas espaciais), pode ser dito que a Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), de 1978, foi o primeiro instrumento que amalgamou essa ideia de “lançar um satélite nacional ao espaço, a partir de uma base de lançamento em território nacional, usando um veículo lançador nacional”.

Entretanto, apesar de terem se passado mais de 60 anos da criação do PEB e mais de 43 anos da definição da MECB, mesmo desenvolvendo satélites nacionais (como os SGDC, o Amazonia-1 e outros) e implantando a infraestrutura de solo (Centro Espacial de Alcântara), ainda não fomos capazes de desenvolver um veículo lançador nacional.

Mais do que nunca, o Brasil precisa recuperar seus atrasos e para isso, a questão espacial deve ser vista de forma global. A principal aposta no momento é o projeto binacional VLM, um veículo lançador de microssatélites, financiado pela Agência Espacial Brasileira (AEB) e produzido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão (DLR).

Mais de R$300 milhões de reais já foram aplicados no desenvolvimento do motor S50, ao longo dos últimos 12 anos. Ele será usado no lançamento de foguetes em órbita terrestre, e ter sido submetido a este experimento foi um fator concludente. A evolução do motor ficou a cargo exclusivo do Brasil, enquanto a Alemanha se dedicou a outros componentes. A Avibras Aerospacial, uma das principais indústrias de defesa do país, teve participação decisiva no desenvolvimento do S50.

O foguete VLM poderá levar ao espaço não apenas microssatélites, como também um conjunto maior de nanossatélites, ambos, em órbitas baixas equatoriais (LEO) ou de reentrada. Ao todo, o veículo é formado por três estágios, com os três sistemas propulsivos, movidos por propelentes sólidos, sendo que os dois primeiros estágios impulsionados por motores S50, compostos com 12 toneladas de propelente cada um, e, um estágio orbitalizador equipado com o propulsor S44, com aproximadamente 800 kg de propelente.

O Brasil busca ter um lançador próprio há muitos anos, pois, além de autonomia, como dito anteriormente, o país concluirá sua missão espacial completa. Como exemplo da falta de autonomia no acesso ao espaço que ainda enfrentamos, o último satélite brasileiro, o Amazonia-1, foi enviado ao espaço pela Índia no foguete PSLV- C51 e custou aos cofres públicos aproximadamente 20 milhões de dólares, quantia essa que poderia ter ficado por aqui, se tivéssemos um veículo lançador. Vale ressaltar que a Índia e China são países que possuem problemas socioeconômicos similares ao do Brasil e já conseguiram se estruturar completamente na área espacial, assim como fazem nações evoluídas, mesmo tendo iniciado os seus programas depois do Brasil.

Em junho deste ano, a FAB, concluiu a segunda fase da Operação Santa Maria, que consistiu no transporte do motor, que pesa cerca de 13 toneladas, cujo translado foi realizado de São José dos Campos para o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Segundo relatórios oficiais, a operação foi realizada com sucesso.

O foguete VLM foi projetado para atender às demandas do mercado que pedem satélites de menor porte, alguns chegam a ter o tamanho de uma caixa de sapatos e são popularmente chamados de “cubesats” e “nanosats”, e, apesar de alguns especialistas do setor afirmarem que o VLM não terá competitividade em termos de mercado, ele terá o importante papel de validador tecnológico, elevando o Brasil ao seleto rol de países que possuem tal capacidade e dominam esse segmento.

Concepção artística do lançamento do VLM. Ele colocará o Brasil no seleto rol de países que possuem capacidade espacial (Imagem: AEB)

(*) Miriam Rezende Gonçalves é escritora e jornalista. Colunista da revista Tecnologia & Defesa. Autora do livro “Alcântara, a história inspirada na História”, uma obra de ficção científica, resultado de mais de 18 anos de pesquisa sobre o Programa Espacial Brasileiro.

4 Comentários

  1. bom dia ! Agora vai ! n/ programa espacial começou no início dos anos 80; os da China e Índia também ! Olhem como estão . . . nós ainda não temos um foguete lançador de satélites próprio. O VLS-1 foi cancelado há tempos. O VLM, que usará esse foguete recém-testado, S-50, está sendo desenvolvido há muito tempo, com a Alemanha. Abraços.

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