Modernização do Cascavel, os próximos passos

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No inicio da tarde da ultima quinta-feira, dia 07 de julho, na concha do “Forte Caxias”, o Quartel General do Exército (QGEx), ocorreu a cerimônia de assinatura do primeiro contrato de modernização da viatura blindada de reconhecimento – média sobre rodas (VBR-MSR) 6X6 EE-9 Cascavel entre a Diretoria de Fabricação (DF), subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército Brasileiro (EB),  e o consórcio Força Terrestre, constituído pelas empresas Akaer Engenharia (responsável pelo projeto e integração), Opto Space & Defense (sistemas da torre) e Universal – Importação, Exportação e Comércio (recuperação do chassi e torre).

A assinatura foi feita pelo o diretor de Fabricação do Exército, general de Divisão Tales Eduardo Areco Villela, e o diretor executivo e presidente do Grupo Akaer, César Augusto Teixeira Andrade e Silva, e foi acompanhada por membros do alto comando da Força, de autoridades civis e militares e de representantes de instituições envolvidas no convênio.

O general Tales Villela e o sr. César Augusto Teixeira assinam o contrato

No inicio da solenidade, o chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general de Exército Valério Stumpf Trindade, disse em seu discurso que “o dia de hoje marca mais uma etapa na modernização de nossa força. O Cascavel era um blindado antigo que precisava ser atualizado”, e ressaltou “estamos incrementando a capacidade de operação e de dissuasão da nossa Força”.

O Consórcio Forças Terrestres foi o vencedor de uma concorrência, lançada pela DF em novembro de 2021, para ao desenvolvimento do projeto, a construção de dois protótipos e de um lote piloto com sete viaturas, que seria a primeira etapa de um programa mais amplo, envolvendo a modernização, ao todo, de um número entre 98 e 201 viaturas, das atuais 409 em carga no Exército, e da qual participaram o consórcio ARES-AEL, formado pelas empresas Ares Aeroespacial e Defesa e AEL Sistemas, o consórcio NORCXSI, das empresas Norinco do Brasil, XCMG, Columbus e Sigma Delta Tecnologia, e a empresa Equitron Equitron Automação. As duas primeiras foram desclassificadas na parte de habilitação e a ultima na fase de proposta.

O general Tales Villela apresentando o projeto para os generais do Estado-Maior do Exército

 

O pacote de melhorias proposto envolve:

  • Revitalização completa do chassi, torre, transmissão, suspensão e canhão de 90 mm;
  • Troca do grupo propulsor;
  • Implantação de optrônicos de ultima geração, em substituição das miras ópticas, integrados a um novo moderno computador de tiro, responsável pela execução de todos os cálculos balísticos, proporcionando um aumento significativo na probabilidade de acerto de alvos;
  • Implantação de um computador de comando e controle (C2) para análises dos sensores de leitura dos parâmetros ambientais que interferem na execução das missões, em tempo real, dando maior consciência operacional ao comandante;
  • Implantação de um sistema lançador de mísseis anticarro (ATGM) na torre; e
  • Instalação de um sistema de ar-condicionado para melhorar o ambiente da tripulação.

 

Concepção artística do pacote de modernização proposto

O valor deste contrato é de R$ 74.643.957,23, sendo que já foi feito um empenho de  R$ 23.388.321,97, referente ao desenvolvimento e construção dos dois protótipos. É importante destacar que a produção propriamente dita somente ocorrerá se o valor unitário (com todos os custos diretos e indiretos apropriados) não exceder a 30% do valor de uma VBC Cav, que está sendo adquirida.

Este contrato se refere ao desenvolvimento do projeto e construção de dois protótipos e de um lote piloto com sete viaturas, em um programa que prevê a modernização de 98 viaturas (podendo chegar ao total de 201), das atuais 409 em carga no Exército.

O programa

 A partir de agora se inicia o projeto efetivo da viatura, com base nos requisitos definidos pelo EME, para a construção dos protótipos, que passarão por testes no Centro de Avaliação do Exército (CAEx), e a definição dos componentes e sistemas que integrarão o pacote de modernização, cujos estudos foram iniciados pelo EB no lançamento do programa.

A principal novidade deste programa, o sistema de mísseis que integrará a viatura, encontra-se em fase final de definição, sendo que a Força vem avaliando diversas opções no mercado, levando em conta tanto sua parte operacional quanto logística.

O novo trem de força também está na fase final de definição, sendo que primeiro a ser proposto foi o motor Cummins ISB 5.9, de seis cilindros m linha e 325 hp, mas a  agora se estuda o  ISB 6.7, mais moderno, com potência de até 350 hp.

Um fato importante a ser lembrado é que na viatura EE-9U (ou EQ-12), apresentado pela Equitron em 2016, o motor instalado era o MTU 6R926, de 320 hp, que por conta de suas dimensões, obrigou uma alteração na parte traseira de seu chassi, criando uma espécie de protuberância, e, por consequência, elevou sua torre, aumentando sua altura e expondo de o anel da torre, uma das partes mais sensíveis da viatura. Este fato está sendo levado em conta na escolha do novo motor, para evitar estes problemas, mas elevando suas as capacidades de mobilidade nos mais variados tipos de terreno.

O protótipo do veículo EQ-12, em testes na Equitron, com o anel da torre exposto (Foto Equitron)

Em relação aos optrônicos, que serão de ultima geração, é importante a definição do projeto de obtenção da viatura blindada de combate de Cavalaria média sobre rodas (VBC CAV – MSR) 8X8, cujo aviso de solicitação  do requerimento das propostas (request for proposal – RFP) foi lançado na mesma semana da assinatura do contrato de modernização das VBR  Cascavel, e que deverá ser definido até o final deste semestre, para se obter a maior comunalidade logística possível.

O exemplar da VBR Cascavel definido para se tornar primeiro protótipo já foi escolhido e está desmontado no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), local onde ocorrerá toda a parte de construção dos protótipos, lote piloto e viaturas de série. A previsão de entrega do primeiro protótipo é julho de 2023, e o segundo dois meses depois, mas, de acordo com o general Tales Villela, “temos muito trabalho pela frente, mas, se tudo ocorrer bem, o cronograma será adiantado”.

Este projeto é de fundamental importância para o país, pois, além de “estar calcada em empresas da Base Industrial de Defesa”, como disse César Augusto Teixeira, incrementará suas as capacidades operacionais da Força Terrestre. “Uma maior oferta de maior poder de combate às nossas unidades de cavalaria mecanizada”, de acordo com o general de exército Guido Amin Naves, chefe do DCT, e sua assinatura representam a continuidade dos programas de modernização do Exército.

O general Amin, chefe do DCT, durante entrevista à Tecnologia & Defesa.

 

Crédito da imagens: Paulo Bastos, subtenentes Ageu e Huelison (CCOMSEX) e Akaer

Nota do Editor: a revista Tecnologia & Defesa agradece ao Centro de Comunicação Social do Exército e a Diretoria de Fabricação do Exército pelo convite para este evento e por todo o apoio para a realização deste trabalho.

 

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18 Comentários

  1. Sem querer ser chato, mas já sendo: R$10mi por unidade modernizada ficou caro, não?
    Digo, acredito que esse não deva ser o valor final, haja vista que o próprio EB afirmou que o valor não deverá ser superior a 30% do VBC-Cav.
    Mas se por um acaso ficar mesmo em R$10mi/unid, usado por usado acho que há opções mais modernas e capazes no Sierra Army Depot por cerca de U$2mi/unid.

    • Estes R$ 10 milhões por unidade ainda representam um custo inferior aos 30% do preço do “VBC Cav” desejado (Centauro II), que custará mais R$ 30 milhões por unidade. Traduzindo essa matemática: o Cascavel ainda tem muito espaço para ficar ainda mais caro, pq o VBC Cav será muito caro.

      • Exatamente. LAV700 temos o contrato com a Arábia Saudita e o Centauro 2 o contrato com o exército italiano. O LAV700 saiu por quase U$ 11 mi, mas apenas parte dos blindados serão da versão AG com canhão de 105 mm o que pode indicar que esta versão poderá sair mais cara do que esse valor médio. O Centauro 2 alguns contratos como o adicional de 10 blindados saiu por cerca de U$ 18,6 mi cada.

        Seria interessante uma matéria analisando custos. Algumas versões do ST1 chinês foram vendidas por cerca de U$ 1,7 mi. Resta saber quanto custa a versão com canhão de 105 mm….
        O Eitan 8×8 israelense também tem valor divulgado entre U$ 2 e U$ 3 mi, mas para versões IFV. Resta saber quanto os israelenses cobrariam para a versão com canhão de 105 mm ou 120.
        Se ficar próximo de U$ 3 mi, será uma opção muito mais barata do que o Centauro 2. Da mesma forma se a versão ST1 com canhão de 105 mm tiver preço próximo da versão IFV, também será uma diferença muito grande para os valores do Centauro 2 e do LAV 700 AG.

        8,5 milhões de Reais para modernizar o Cascavel é considerado “barato” quando a referência são os preços do LAV700 e do Centauro 2, porém é praticamente o mesmo preço de contratos do ST1 vendidos na versão IFV.
        Caso o Exército se interesse por este blindado chinês ou caso o blindado israelense também possua um preço baixo, acho que a modernização pode ser preterida em favor de mais unidades de blindados novos.

    • Se você dividir o valor de 74,6 milhões de reais por 9 (2 protótipos + 7 do lote pilotos), dá 8,3 milhões de reais, o que ao câmbio de hoje, dá 1,54 milhão de dólares. Mas, a tendência, se tudo der certo, é o valor das unidades de produção serem um pouco mais baratas. Mas, como o Bardini disse, mesmo custando 1,6 milhão de dólares a unidade, fica abaixo dos 30% do valor de uma viatura nova.

    • O valor máximo, estipulado no edital da concorrência nº 01/2021, é de R$ 13.651.578,03 para cada protótipo e R$ 8.480.826,86 para cada viatura do lote piloto.
      As viaturas do lote se série, descontando a inflação, deverão ficar abaixo desses valores.

      • Isso considera o reajuste e o câmbio? A medida em que o tempo passa o preço sobe.
        Se for o teto de 8,4MBRL até a última entrega, ou vai ter menos equipamento ou não vai andar.

  2. Nota-se a diferença absurda no tamanho do sistema optico do novo cascavel em relação ao apresentado em 2016, metade do tamanho, o que permite a instalação de 2 sistemas para o atirador e comandante.
    A opto e equatorial são na minha opinião as grandes joias da BID brasileira que poucos prestão atenção, estão envolvidos em multiplos projetos entre a força aérea e o exército,(não sei do envolvimento com a marinha), a akaer é sem dúvida nenhuma a empresa mais importante da BID fora a embraer, já que a avibras anda de pernas fracas recentemente…

    • Isso é apenas uma configuração artística para exemplificar o projeto, o modelo definitivo só ocorrerá após a escolha dos optrônicos.

  3. Paulo, boa tarde.

    Com a revitalização do canhão, ele será capaz de utilizar munição cinética de de 90 mm ?

    Obrigado!

    Pedro

    • Revitalização é só para deixa-los em condições de novos, nenhuma mudança operacional ocorrerá.

  4. Caro Paulo: haveria previsão para implementar pontos de fixação eventual de elementos de blindagem passiva/ativa adicional (is)?

  5. Só para reforçar meu entendimento de que a modernização ficou demasiadamente cara, saíram notícias de que a Argentina pretende comprar (via Israel) 150 Guarani ao custo de U$350 milhões. Isto é, aproximadamente U$2,3 milhões por unidades novas em folha, valor muito parecido com o do lote piloto desse programa de modernização.

    • Felipe, com todo o respeito, essas história de”saíram notícias” é argumento de quem não tem acesso a informações, mas quer posar de “insider”
      Acompanho de perto esta negociação e posso lhe afirmar que isso é informação falsa.
      Tanto os valores, quanto as quantidades, ainda estão em negociação.
      E lembrando, o Guarani não atende os requisitos operacionais do Cascavel.

    • Mesmo que os valores de 150 unidades e de 350 milhões de dólares se confirmem, o que duvido, mesmo assim o Guarani não possui uma torre de 90 mm e não faz as mesmas missões do Cascavel. E, se optarem por Guaranis com torres como a UT-30, o valor por unidade praticamente dobra.

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