Mísseis IRIS-T para os F-5 da FAB: uma possibilidade?

No início de julho, a AEL Sistemas e a Diehl Defence assinaram um memorando para ampliar a cooperação entre as empresas no contexto do desenvolvimento das capacidades de defesa aérea do Brasil. Segundo o comunicado conjunto, o acordo também reforça a parceria de longa data voltada para a planejada integração do míssil IRIS-T à frota brasileira de caças F-5M. 

A iniciativa, que já chamou atenção à época, voltou ao debate após recentes declarações do comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, à Revista Força Aérea. Na ocasião, o oficial afirmou que os F-5M Tiger II deverão permanecer em operação pelo menos até 2035, com possibilidade de extensão da vida útil até 2040.

O programa de modernização brasileiro para os F-5 representa um dos maiores avanços realizados para o modelo da Northrop, que recebeu, entre diversas melhorias, uma nova suíte aviônica incluindo novo radar, sensores de guerra eletrônica, cockpit digital e, acima de tudo, a capacidade para empregar os mísseis Python IV, de curto alcance orientados por infravermelho, e Derby, de médio alcance guiado por radar ativo, ambos da fabricante israelense Rafael. O salto operacional foi significativo para uma aeronave originalmente projetada nos anos 1950 e que, até então, utilizava os mísseis AIM-9B Sidewinder, MAA-1 Piranha e Python III.

Com possíveis 15 anos de serviço pela frente, surge uma questão natural: faz sentido integrar o IRIS-T aos F-5M da FAB?

Cockpit do F-5EM Tiger II da FAB (João Paulo Moralez)

Míssil de 5ª Geração

Desenvolvido pela alemã Diehl Defence, o IRIS-T (Infra Red Imaging System Tail/Thrust Vector Controlled) é um míssil ar-ar de curto alcance guiado por imagem infravermelha (IIR). O programa foi lançado em 1995 após a Alemanha deixar o projeto do AIM-132 ASRAAM e liderar uma parceria internacional com Itália, Suécia, Noruega, Espanha, Grécia e Canadá, sendo que este último deixou o consórcio. O tipo foi concebido para substituir os AIM-9 Sidewinder, é testado em combate e hoje equipa 11 países.

Entre seus diferenciais estão a elevada resistência a contramedidas, a capacidade de aquisição de alvos em ângulos extremos, maior capacidade de engajamento e a integração com sistemas de mira montados no capacete. 

A FAB se tornou a primeira cliente do IRIS-T  na América Latina, ao adquirir uma quantidade não divulgada para equipar os caças Saab F-39E/F Gripen. 

Integração já testada

Da mesma forma que o IRIS-T não é uma novidade nos paióis brasileiros, não seria a primeira vez que o míssil europeu encontra as asas do F-5.

A Força Aérea Real Tailandesa já opera o armamento em seus F-5E/F modernizados pelo programa F-5TH Super Tigris, integrados na terceira fase de atualizações realizadas pelo país asiático em 2017 e concluída em 2023 com a entrega dos dois últimos aviões. Tendo a Elbit Systems e a RV Connex como contratadas, o projeto abrangeu a digitalização completa do cockpit com telas coloridas multifuncionais; mísseis Derby; pod designador de alvos Litening III; e os kits de bombas guiadas a laser Lizard II. Também foram integrados o enlace de dados Link T, o consagrado radar Elta EL/M-2032B, um pouco superior ao italiano Grifo F/BR usado no modelo brasileiro, e o alerta de emissão de radar (RWR) do Grupo Elisra.

F-5TH com IRIS-T e bombas Lizard III (RTAF)

Diferentemente do processo adotado no Brasil, os F-5 tailandeses foram modernizados em fases. A primeira ocorreu em 1988, abrangendo o sistema de controle de fogo (FCU); novo “head-up display” (HUD, mostrador digital ao nível dos olhos) da GEC Marconi, receptor de alerta radar AN/ALR-46; lançadores de “chaff/flare” ALE-40; sistema de navegação inercial; e integração com o míssil Python III. Em 2002, a Elbit Systems foi contratada para realizar a segunda fase que integrou uma tela multifuncional; o capacete com display integrado Dash IV; GPS; Python IV; e o sistema HOTAS, com os principais comandos de voo e táticos ao alcance do manche e da manete de potência. Os aviões foram designados F-5T Tigris.

Embora realizada em três fases distintas, a modernização dos F-5TH é, em geral, bastante similar à realizada pela AEL Sistemas nos F-5EM/FM brasileiros. O Super Tigris e os F-5EM usam os mesmos displays, HUD, HMD, RWR e armamentos, com exceção às bombas guiadas e o próprio IRIS-T.

O F-5TH com mísseis IRIS-T (RTAF)

A integração com o IRIS-T, que já era empregado pelo país nos JAS-39C/D Gripen e F-16A/B e MLU, permitiu combinar sensores e aviônicos de nova geração com um dos mais modernos mísseis ar-ar de curto alcance disponíveis no mercado, demonstrando que a adaptação técnica é viável e reduz parte dos riscos normalmente associados a um programa dessa natureza.

O que diz a FAB?

A Revista Tecnologia & Defesa entrou em contato com a Força Aérea Brasileira, que informou que não possui, no momento, estudo ou programa formal voltado à integração do IRIS-T nos seus F-5M, nem mesmo há previsão de aquisição adicional desses armamentos com esse propósito.

A posição faz sentido dentro do contexto orçamentário atual. Os caças já dispõem do Python IV, um armamento moderno e plenamente integrado à plataforma. Ainda em 2026, a Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa contratou a Rafael Advanced Systems para prestar “serviço de suporte logístico para o projeto Python IV” , sinalizando a intenção de mantê-lo em operação pelos próximos anos.

Mísseis Rafael Python IV e Derby em um F-5EM da FAB (Gabriel Centeno)

Ao mesmo tempo, as conhecidas restrições orçamentárias enfrentadas pelas Forças Armadas brasileiras são mais um fator nessa equação. Por mais que a FAB possa se beneficiar da experiência tailandesa na integração do armamento, qualquer novo processo nesse aspecto exigiria investimentos adicionais em engenharia, certificação, ensaios em voo, treinamento e atualização de documentação técnica, fatores que precisam ser considerados em um cenário delicado como o atual.

Vantagens potenciais

Por outro lado, essa integração do IRIS-T poderia oferecer benefícios importantes. 

Do ponto de vista logístico, simplificaria parte da cadeia de suprimentos, do treinamento de pessoal e do gerenciamento de estoques. A padronização é uma prática comum em forças aéreas que buscam otimizar os custos.

Sob a ótica operacional, o IRIS-T representa uma evolução em relação ao Python IV em alguns aspectos. Seu buscador infravermelho mais moderno, a elevada resistência a contramedidas e a alta performance do míssil podem garantir um elevado desempenho em cenários de combate aéreo aproximado.

Foto: HaraF

Além disso, a adoção do mesmo armamento empregado pelo Gripen permitiria maior padronização doutrinária entre os dois principais vetores de caça da FAB durante o período de transição em que F-5M e F-39 operarão lado a lado.

Por enquanto, a integração permanece apenas como uma possibilidade. Entretanto, considerando a expectativa de operação dos F-5M até pelo menos 2035 e a existência de um histórico de cooperação entre AEL e Diehl nessa área, o tema dificilmente deixará de ser discutido nos próximos anos.

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Respostas de 25

      1. “Outro elemento que expõe as dificuldades da defesa aérea brasileira é a situação dos mísseis IRIS-T, adquiridos da Alemanha para equipar os caças Saab JAS 39 Gripen. Embora o contrato tenha sido assinado há cerca de cinco anos, os mísseis ainda não foram entregues. Nos círculos de defesa, há suspeitas de que possa existir algum tipo de embargo ou restrição informal, embora não exista confirmação oficial pública sobre o tema. Sem esse armamento, o Gripen — projetado para operar com o IRIS-T como seu principal míssil de curto alcance — ainda não dispõe plenamente de uma de suas capacidades fundamentais de combate aproximado.”

  1. já vi várias fotos de outros F5 de outros países com mísseis diversos….só os nossos que tem está burocracia….o que me deixou realmente surpreso é f5 até 2035 ou até 2040…..
    preocupante

    1. Vc sabe que não é assim. Tem que compatibilizar hardware, software, testar, etc. Não é como rebaixar um carro ou fazer um fogão, tudo em aviação tem que ser homologado. Não acho vantagem já que temos os F-39 já usando e ainda temos os Pyton IV.

  2. Na minha opinião se for colocar IRST e IRIS-T deveria colocar o radar ELTA 2032 Block 3 que é o AESA encontrado no KFiR C-20 pelo menos com essa arquitetura dá pra manter o F-5 ainda operacional
    Detalhe: não só se manter com IRIS-T adquirir Derby ER mantendo a silhueta BVR

    aqui vai um problema e observação o Radar Grifo F/BR é denominado devido a modificações feita pelo ITA ou seja um radar que era na mesma proporção do ELTA 2032 Block I mais que foi recortado pra caber no nariz do F-5 Tiger II e com modificações do ITA junto da AEL SYSTENS que deu a esse radar capacidade BVR algo que era impossível de se fazer ao Elta 2032 Block I tanto que F-5 Tiger III chileno que usa o ELTA 2032 Block 1 recortado não tem alcance BVR e mas mantém sua angulação para combate do tipo Dogfight
    detalhe nessa modernização do F-5 Tiger III chileno é que mantém 2 canhões a bordo
    o F-5 Tiger II do Brasil devido a modificação feita pelo ITA e AEL com apenas 1 canhão removido manteve capacidade BVR algo que foi surpreendente
    e justamente aqui é o ponto o Derby ER junto do IRST e IRIS-T teria que obrigar a FAB em caso de substituir o Radar Grifo F BR pelo ELTA 2032 Block 3 seria quitar o canhão algo similar ao que aconteceu com o F-5 TH ST de Tailândia tanto que o nariz do F-5 Tailandes é bem mais angular e maior que o do F-5EM

    e é justamente aqui o ponto que eu toco perder canhões pra ficar dependendo de mísseis de curto alcance não parece ser uma boa opção a se decidir o F-5 Tiger II atualizado com IRIS-T IRST e Derby ER com um radar AESA mesmo sem os canhões seria algo bem atentador mas a única espera é esperar a decisão da FAB

    1. complementando meu comentário o F-5 Tiger II da FAB nesse caso o F-5EM e FM ( mono posto e bi-posto ) caso realmente seja feita uma atualização como eu mencionei sobre não só substituir o radar e integrar IRST e IRIS-T mas também o Derby ER que seria muito bom e positivo pra FAB aprimorar seus combates BVR quem está saindo do AMX-A1 e A-29ST para o F-5

      1. Trocar o radar do F-5M? Agora? Qual o custo e tempo para fazer isso? E qual o resultado/desempenho superior que um novo radar, nessa altura da vida útil da aeronave, valeria a pena? O F-5M vai operar até 2035/2040 e até lá o Grifo F é suficiente. Poderia trocar o radar? Tecnicamente, sim. Na realidade, poderia modernizar todo o avião novamente, pois há poucas coisas o impossíveis de fazer. Mas, o que define o que vai ser feito, ou não, é o custo/benefício de uma empreitada dessa.

  3. o f5 é um baita caça, basta moderniza lo q faz frente a qualquer outro, a FAB tem q parar de frescura em tentar desativar o f5 , é até mais veloz q muitos caças modernos

    1. Piada, né?
      O F-5 está mais para um LIFT (treinador) do que um caça.
      No máximo, é um caça de 2a categoria da década de 60 com eletrônica modernizada com tecnologia dos anos 90.
      Quatro caças Gripen E voando em formação, destruiriam uns 30 F-5M sem nenhuma perda, com facilidade.

    2. O F-5 FOI um baita caça. Celula envelhecida, cara de operar para o que oferece, e por mais modernizado que seja, tem limitaçoes severas para o teatro atual.

      Ja passou da hora de deixarem o “tigre véio” descansar em paz

      1. É fácil … basta aparecer o dinheiro para pagar em dia o contrato atual do Gripen e para encomendar um lote adicional, que os F-5 serão desativados. Não é porque a FAB quer operar o F-5 além do tempo previsto e nem porque acham ele um super caça. Acontece que os atrasos e a pequena quantidade contratada do Gripen não permite ainda a desativação do caça da Northrop.

  4. Não entendo tantos sábios em aviônica, discutindo desativar ou não os F5.
    Sendo bem realista com todos os F39 entregues e mais um lote adicional, os F5, os Amx, os Super Tucanos não são o suficiente para o tamanho do território nacional. Países muito menores tem frotas muito maiores.
    O ideal é reformar os F5, os AMX, comprar mais F39, fabricar mais F39, fabricar mais Super Tucanos.

    1. Isso qualquer criança sabe. Mas, precisa de previsão orçamentária e liberação constante dessa verba para que o projeto do Gripen avance e possa ser aumentado, com encomenda de mais exemplares.

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