O anúncio da Força Aérea Indiana de adquirir 150 novos treinadores a jato avançados para substituir sua frota de BAE Hawk Mk.132 chamou atenção para uma mudança importante na formação de pilotos de caça. O treinador moderno deixou de ser apenas uma aeronave utilizada durante a instrução e passou a incorporar tecnologias e sistemas cada vez mais próximos daqueles encontrados nos caças de primeira linha.
Segundo o periódico “Times of India”, a Força Aérea Indiana (IAF) pretende utilizar os novos aviões na etapa final da formação de seus pilotos de caça, preparando-os para a transição das aeronaves HAL Tejas, Dassault Rafale e Sukhoi Su-30MKI.
O requisito indiano inclui cockpit digital, controles do tipo “fly-by-wire” com HOTAS (“Hands On Throttle And Stick”), navegação integrada e recursos de simulação de aviônicos e guerra eletrônica, com capacidade de treinamento em ambientes LVC (“Live-Virtual-Constructive”).
Dentre as plataformas a serem avaliadas, o M-346 Master, da Leonardo, surge como o mais cotado, pois oferece uma característica que a diferencia: sua versão M-346FA Fighter Attack transforma o treinador avançado em uma plataforma de combate leve.
O M-346FA incorpora radar multimodo Grifo-M346, sistemas de autoproteção e guerra eletrônica, enlace de dados e capacidade de emprego de diferentes armamentos. Com sete pontos de fixação externos, pode ser configurado para missões ar-ar, ar-solo, reconhecimento, ataque e defesa aérea.
Na prática, o M-346FA pode cumprir duas funções: a primeira durante a formação, atuando como treinador avançado e preparando os pilotos na transição para aeronaves de maior desempenho; e depois, pode continuar em serviço como caça leve, realizando missões operacionais que não necessariamente exigem o emprego de um caça de primeira linha.
Essa característica ganha importância em um cenário de restrições orçamentárias, pois nem toda missão exige uma aeronave como o Gripen, Rafale ou F-35. Utilizar um caça de alto desempenho em todas as tarefas pode representar um custo elevado e reduzir a disponibilidade da frota para as missões de maior valor estratégico. Ou seja, esse conceito permitiria a criação de uma camada complementar de capacidade para a força aérea, com os caças de primeira linha ficando concentrados nas missões de maior intensidade e complexidade, enquanto as aeronaves de menor custo operacional poderia assumir parte das tarefas rotineiras e, ao mesmo tempo, continuar sendo utilizada na formação e no treinamento tático dos pilotos.

E O BRASIL?
A Força Aérea Brasileira (FAB) está estruturando sua aviação de caça em torno do F-39 Gripen, uma plataforma de elevado desempenho e alto conteúdo tecnológico. Paralelamente, precisa garantir a formação dos pilotos, manter horas de voo suficientes para treinamento e preservar a disponibilidade dos caças para missões operacionais. E o M-346 tem é uma opção avaliada a bastante tempo.
O M-346FA poderia ser analisado não apenas como um treinador, mas como uma plataforma complementar ao Gripen. O mesmo avião poderia preparar o piloto para a transição ao caça de primeira linha e, posteriormente, continuar sendo empregado em missões como caça leve, policiamento aéreo, reconhecimento, ataque e defesa do espaço aéreo.
Essa solução também permitiria aumentar a quantidade de aeronaves disponíveis para determinadas missões, principalmente após a desativação dos Embraer A-1 AMX, sem necessariamente elevar os custos na mesma proporção de uma frota composta exclusivamente por caças de alto desempenho.
A experiência indiana mostra ainda outro aspecto fundamental: não existe uma força de caça moderna sem uma estrutura de formação compatível. A Índia prepara a incorporação de novas gerações de aeronaves, incluindo Tejas Mk-1A, Tejas Mk-2, Rafale e, futuramente, o AMCA. A aquisição dos novos treinadores está diretamente relacionada à necessidade de preparar pilotos para essa transformação.
O Brasil deveria observar esse movimento com atenção. O investimento em novas aeronaves de combate precisa ser acompanhado por uma estrutura capaz de formar pilotos em quantidade e qualidade suficientes. Se a aeronave escolhida para essa função também puder desempenhar missões operacionais, o retorno do investimento será ainda maior.
