M-346 e a formação de elite: como a Força Aérea de Israel prepara pilotos para a guerra moderna

Um relato recente atribuído a um ex-piloto de F-16 da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), com experiência em missões de combate sobre o Iraque e o Afeganistão, voltou a chamar atenção para o elevado nível operacional dos pilotos da Força Aérea de Israel. Em conteúdo divulgado em mídias especializadas do setor de defesa, o piloto afirmou que, apesar de já ter voado longas distâncias em território inimigo, o que os israelenses realizam em operações envolvendo o Irã estaria em um patamar completamente diferente, destacando missões com reabastecimento em voo, penetração em ambientes com sistemas de defesa aérea e execução consistente de ataques de precisão, com retorno seguro das tripulações. Essa percepção é amplamente compartilhada no meio aeronáutico sobre a qualidade da formação desses pilotos.

Essa reputação não surge por acaso. Ela está diretamente ligada ao modelo de treinamento adotado por Israel, no qual se destaca o papel do M-346, conhecido localmente como “Lavi”. A aeronave, desenvolvida e produzida pela Leonardo, passou a ocupar uma posição central na formação avançada ao substituir os A-4 “Ahit” (Skyhawk), tornando-se a plataforma responsável por preparar pilotos para operar aeronaves de primeira linha como o F-35I “Adir”, o F-15I “Ra’am” e o F-16I “Sufa”.

O M-346 “Lavi” em voo sobre Israel (Foto: IDF)

A doutrina israelense parte de um princípio claro: o piloto deve chegar à unidade operacional pronto para o combate real. Nesse contexto, o M-346 não é apenas um treinador avançado, mas uma ferramenta de simulação que permite reproduzir, ainda na fase de instrução, cenários complexos e realistas de combate contemporâneo. Equipado com aviônicos digitais modernos, arquitetura de missão semelhante à de caças de gerações mais avançadas e sistemas de simulação embarcados, o avião possibilita que o aluno tenha contato antecipado com conceitos como combate além do alcance visual, guerra eletrônica, emprego de armamentos inteligentes e operações integradas.

Outro elemento fundamental desse modelo é a integração entre diferentes ambientes de treinamento, permitindo que missões combinem aeronaves reais com cenários simulados e ameaças virtuais. Isso possibilita a construção de situações extremamente realistas, envolvendo múltiplas plataformas, coordenação de ataques e gestão de ameaças, preparando o piloto não apenas para voar, mas para atuar dentro de um sistema de combate complexo.

Dentro desse contexto, vale destacar que, segundo análises no meio especializado, as missões de combate executadas pela Força Aérea de Israel envolvendo o Irã refletem diretamente esse modelo de preparação. Os perfis de missão, a coordenação e a execução observados são compatíveis com cenários previamente treinados e ensaiados em plataformas como o M-346. Essa abordagem baseada em treinamento intensivo e simulação avançada tem contribuído para elevados níveis de eficácia operacional, frequentemente associados a altas taxas de sucesso nas missões e à preservação dos meios empregados.

A evolução natural desse conceito pode ser observada na versão de combate da aeronave, o M-346FA. Essa variante incorpora e amplia muitas das capacidades desenvolvidas no ambiente de treinamento avançado, carregando consigo a mesma lógica operacional que orienta a formação de pilotos da Força Aérea de Israel. Sensores modernos, capacidade de emprego de armamentos guiados de precisão, integração com redes de combate e aptidão para missões complexas fazem do M-346FA não apenas uma plataforma leve de ataque, mas um vetor capaz de operar dentro de conceitos modernos de guerra aérea, semelhantes àqueles praticados e refinados no ambiente operacional israelense.

O rigor do processo seletivo também é um fator determinante. O curso de pilotos da Força Aérea de Israel é um dos mais exigentes do mundo, com uma taxa de conclusão bastante reduzida. Durante a fase de formação no M-346, os candidatos são avaliados continuamente em aspectos como consciência situacional, capacidade de decisão sob pressão, liderança e trabalho em equipe, com foco na formação de combatentes capazes de operar em ambientes de alta intensidade.

Os “Lavi” em seus hangaretes na Base Aérea de Hatzerim, no meio do deserto de Negev (Fotos: Paulo Bastos)

A experiência histórica acumulada por Israel, desde a Guerra dos Seis Dias até os conflitos mais recentes, moldou uma cultura operacional pragmática e orientada para resultados. O treinamento reflete essa realidade, com missões que simulam ataques de precisão, interceptações complexas, supressão de defesas aéreas e operações em ambientes altamente contestados.

Nesse contexto, o M-346 consolida-se como muito mais do que uma aeronave de instrução. Ele é parte de um sistema integrado de formação que combina tecnologia, doutrina e exigência operacional. Essa combinação ajuda a explicar por que a Força Aérea de Israel é frequentemente considerada uma das forças aéreas mais eficazes do mundo. No cenário atual, a superioridade aérea não começa apenas na aeronave ou no armamento empregado, mas na forma como os pilotos são preparados — e, nesse aspecto, o M-346 — e sua evolução para a versão M-346FA — desempenham um papel central na formação e na projeção de poder aéreo no combate moderno.

Base Aérea de Hatzerim, localizada no deserto de Negev, perto de Beersheba, é o centro da academia de voo israelense e a base operacional do M-346 “Lavi”. O autor foi um dos primeiros jornalistas do mundo autorizado a entrar no “Ninho das Águias“ da Força Aérea de Israel.

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Respostas de 12

  1. Se a IAF – entre outras – selecionou o M346, eu não discuto a qualidade da aeronave. Quando vemos o sucesso operacional deles na guerra sabemos que treinam como lutam e lutam como treinam. Seria importante replicarmos isso no Brasil.

    1. Israel comprou 30 M-346 mas possui mais de 300 caças modernos.
      O Brasil tem 11 Gripen E, então podemos comprar no máximo 1 M-346

      É muito dinheiro para uma força aérea que não tem caças.

      Alguns contratos do M-346 ficam em cerca de U$ 50 mi por unidade quando se divide o valor total pelo número de aeronaves.
      Ou seja, 24 M-346 para a FAB poderia custar, no pacote completo, cerca de U$ 1,2 Bi.

      O Gripen E no pacote completo fica próximo de U$ 150 mi a unidade, ou até mais que isso dependendo do contrato e da quantidade de armamentos.

      Mas como já temos a linha de produção aqui, algumas unidades adicionais de Gripen E poderiam custar entre U$ 66 e U$ 83 mi.

      Pelo menos é a conta que da para ser feita quando a SAAB confirmou que negociava entre 12 e 15 Gripen E adicionais com o aumento de 25% no valor do contrato.

      O contrato de cerca de 39 bi de coroas suecas = U$ 4,2 bi hoje
      25% seriam cerca de U$ 1 bi
      E comprariam cerca de 12 a 15 Gripen E

      Então a FAB tem que avaliar o que é melhor: 24 M-346 ou talvez 14 ou 15 Gripen E.

      Para Israel com mais de 300 caças modernos faz sentido investir em 30 LIFT, ainda mais considerando o preço do F-35 e do F-15.
      Mas para nós com uma encomenda pequena de apenas 36 Gripen não sei se compensa investir tanto dinheiro em um LIFT, dinheiro que poderia ser investido em mais caças Gripen.

  2. Excelente artigo. Minha pergunta. Porque até hoje não compramos essa aeronave para substituir os A1? Seria uma salto tecnológico e operacional a a FAB.

    1. irmão. Não temos dinheiro para isso! E vou te falar mais é dos F5 ( quando os dois estão operacionais para voar) de plantão para voar e patrulhar todo o território brasileiro. As equipes de mecânica fazem milagres para por em decolagem em caso de emergência.

  3. Será que a Força Aérea do Brasil não poderia adotar este avião? Ele até poderia ser fabricado pela Embraer sob licença, como o Xavante. Também poderiam fazer, a partir dele uma versão de ataque para ficar no lugar do AMX.

    1. Marcos, já existe a versão de ataque do M346, que é o M346FA, versão de combate/ataque leve/reconhecimento tatico. Possui radar multimodo, sensores de autodefesa, painel glass cockpit, integração com mísseis ar-ar, ar superfície, pods de navegação, designação de alvos e reconhecimento, bombas guiadas, etc.

  4. muito bom o artigo, essas aeronaves seriam uma excelente opção para as nossas FFAA, o 1º e 2⁰ esquadrões 10⁰ grupo de aviação seriam os candidatos ideais para opera-los mantendo a doutrina e treinamento já consolidados na força a um custo de manutenção e operacional que já estamos acostumados, com um custo de aquisição compatível com nossa realidade financeira, mas me atreveria a propor uma aquisição na versão original de treinamento para a conversão operacional de nossos pilotos para a versão de combate FA do 346 e para o F39 gripen , se manteria o A29 na formação avançada e o posterior envio dos jovens pilotos para uma temporada inicial nos esquadrões do 3⁰ grupo deixando , no tempo certo, seu regresso para conversão operacional no T346 , quanto a marinha seria prudente a aquisição de unidades, pelo menos 12 para o VF1 onde se manteria a capacidade já instalada na força aliada a capacidade de interdição naval, e me atreveria a propor a aquisição de até 16 AV8 harrier II, aproveitando a janela que se abre com a desativação dos mesmo dos Mariner para reintroduzir a capacidade de operações embarcadas, sei que a turma vai criticar, mas vamos pensar aqui, nossa estatura estratégica não precisa de um nael CATOBAR mas sim um STOLBAR, que seria condizente com nossas necessidades de proteção da força em alto mar e apoio a operações anfibias limitadas em um ambiente de baixa intensidade, lembrando que existem hoje muitas plataformas consolidadas na europa disponíveis para exportação de naels de pequeno a medio porte com destaque ao novo navio Italiano que cabe no bolso, essa proposta manteria nossa capacidade estratégica e criaria uma doutrina VSTOL na MB abrindo uma janela para daqui a 15, 20 anos operamos os F35B uma vez que os mesmos estariam liberados para países extra OTAN, fica aqui um exercício de reflexão!

  5. Acho que uns 12 M346 FA seria o suficiente para a base aérea de Santa Maria. Aliado a isso uns 4 drones turcos Akinci. Seria muito bom para a FAB

  6. Boa tarde. Discutir orcamento será sempre problema, dado as carencias dos diferentes setores da sociedade, mas me parece racio al, embora nao necessariamente barato, integrar aeronaves com distintas funçoes. Assim os 68 A-29 e os 45 F-39 ( os 36 originais mais um lote de 09 anunciado há tempo poderiam ser complementados por 24 M 346 para a FAB, bem como 06 para a Marinha em lugar dos A-4 Skyhawk

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