O que a Suécia, os Emirados Árabes Unidos, a França e, possivelmente, o Canadá enxergaram no GlobalEye, o avião de alerta aéreo antecipado e controle (AEW&C, “Airborne Early Warning”) que tem ganhado cada vez mais atenção no mercado internacional? Juntos, exceto pelo último, que ainda não exerceu a sua opção de compra, 10 sistemas foram encomendados ou estão em serviço, colocando a Saab numa posição altamente competitiva e que vai demandar da empresa investimentos para ampliar a sua capacidade fabril neste segmento.
Lançado em 2015, o modelo agregou ao seu conceito a multifuncionalidade para as missões de vigilância. Se antes os tipos eram dedicados a monitorar um domínio (céu, terra ou mar), com a possibilidade de também realizar, secundariamente, outro tipo de vigilância, no GlobalEye todas são possíveis de serem com a mesma eficiência e prioridade, simultaneamente.
O GlobalEye está inserido numa estratégia de longo prazo da empresa, que buscou se desenvolver mais neste segmento. Durante a press trip oferecida pela Saab a jornalistas da América Latina, foi apresentado um retrato atualizado e detalhado sobre a Área de Negócios de Surveillance (Vigilância), onde o GlobalEye está inserido.
Para se ter uma ideia do seu crescimento, essa unidade possui hoje 10,1 mil funcionários e faturou, em 2025, R$ 15,83 bilhões (27,3 bilhões de coroas suecas), valor semelhante ao faturamento da Saab como um todo em 2015, quando a empresa tinha 15,5 mil funcionários.
Atualmente, a unidade é composta pelas áreas de negócios Fighter Core Capabilities, Naval Combat Systems, Safety and Security Solutions, Digital Battlespace Solutions, Surface Solutions e Airborne Early Warning (AEW). Sobre esta última é que vamos dar destaque nesta matéria.
Entendendo a trajetória
A Saab vem trabalhando neste programa desde os anos 1980 para atender a um requisito nacional de possuir uma plataforma capaz de manter a vigilância do espaço aéreo e detectando, inclusive, as ameaças em voo rasante, com a maior antecedência possível. Nascia o projeto do radar PS-890, conduzido em conjunto pela Saab com a antiga Ericsson Microwave Systems, empresa que foi adquirida pela Saab em 2006.
O radar foi inicialmente instalado nos turboélices bimotores Saab 340, que voaram pela primeira vez com o Erieye (em alusão a Ericsson Eye) em 1994. Dois exemplares foram adquiridos pela Força Aérea da Suécia.

Posteriormente, foi integrado ao jato regional de passageiros Embraer ERJ-145, atendendo à demanda da Força Aérea Brasileira (FAB). Anos mais tarde, foi compatibilizado com o turboélice bimotor Saab 2000, maior quando comparado ao Saab 340.
A quarta plataforma a receber o Erieye foi o jato executivo bimotor Bombardier Global 6000/6500, o que deu origem ao GlobalEye, que tem a característica de ser multimissão graças a uma série de sensores embarcados para detectar ameaças que estejam no céu, na terra e no mar, simultaneamente.
O GlobalEye
Agora na versão de alcance estendido, o radar Erieye ER tem aproximadamente 10 m de comprimento, pesa uma tonelada e dispõe de tecnologia de varredura eletrônica ativa (AESA) para localizar os mais variados tipos de alvos. O seu conjunto de 192 módulos transmissores e receptores é composto por nitreto de gálio, o que representa mais eficiência na busca de alvos.
Com essa tecnologia, é possível detectar os alvos mais difíceis. No ar, desde pequenos drones voando baixo e lentamente até mísseis hipersônicos se deslocando em alta velocidade e com grande manobrabilidade. Na água, jet skis, pequenos botes de borracha e plástico e até o periscópio de um submarino.
A altitude ideal de operação do GlobalEye é de 30 mil a 37 mil pés, mas a aeronave pode voar bem mais alto, chegando a 45 mil pés, cobrindo os pontos cegos dos radares de solo, que são limitados na detecção devido a curvatura da Terra.



Quando está em voo, segundo a Saab, o tempo de reação para o engajamento no ar aumenta em 20 minutos em comparação com os radares de solo, uma vez que o alcance instrumentado é de 650 km, embora, dependendo das condições, possa ultrapassar esse valor.
Para busca marítima, a detecção fica em 370 km para alvos de menor porte, como botes e periscópios.
A plataforma é oferecida em duas versões: G6000 e G6500, ambas com 30,3 m de comprimento, 28,7 m de envergadura, velocidade máxima de Mach 0,89 (0,90 no G6500), alcance máximo de 11.100 km (12.220 km no G6500) e dois motores Rolls-Royce BR710A2-20 (Rolls-Royce Pearl 15 no G6500).
Ambas podem levar até 17 pessoas na configuração máxima. Mas, quando se trata de uma plataforma como o GlobalEye, o que importa é a capacidade interna das estações de trabalho. O cliente pode optar por uma configuração de até sete, que podem cumprir diferentes funções de acordo com os sistemas embarcados.
Embora o Erieye ER seja o principal sensor, a aeronave é equipada com sistemas ativos e passivos de guerra eletrônica, imageador FLIR Star SAFIRE 380HD (que fornece imagens termais, designador laser com alcance de 25 km e alcance de imagem superior a 90 km), IFF (identificador amigo/inimigo) Modo 5, sistema de navegação ADS-B IN, AIS (que identifica navios por meio de sinais) e a possibilidade de integrar um radar específico de busca marítima Leonardo SeaSpray 7500E.
Assim, cada operador pode se concentrar em um equipamento, além de haver um militar dedicado a realizar o controle aéreo avançado do cenário operacional, direcionando os esforços e os meios operacionais em terra, mar e ar.

Ativos para a paz, crise e guerra
Existem alguns fatores que estão levando à necessidade de plataformas AEW&C. O primeiro deles é o envelhecimento natural dos tipos que estão há décadas em serviço, como os Boeing E-3 Sentry.
A outra razão é que a multifuncionalidade que os vetores mais modernos propiciam, como o GlobalEye, que se aplica a todos os cenários de uma sociedade, da paz aos conflitos.
Em tempos normais, esses aviões são importantes em missões de busca e resgate, patrulhamento marítimo, coibindo a pesca e atividades ilegais, como a pirataria, além da repressão aos voos a serviço do narcotráfico. Em crise, ajudam na vigilância marítima, coíbem ações de sabotagem, monitoram o êxodo de pessoas e atuam diretamente em conflitos localizados. Em cenários de guerra, são estratégicos e multiplicadores de força, uma vez que maximizam a consciência situacional de comando e controle para os tomadores de decisão.
Para atender a essa demanda, a Saab já projeta o aumento da capacidade de produção para até quatro aviões por ano, por um período de 10 anos, atingindo aproximadamente 40 novos exemplares vendidos.
Consolidado
Desde que entrou em serviço, o Erieye foi adquirido por 10 países, sendo quatro deles membros da OTAN.
Os Saab 340 foram operados pela Suécia (2), que os repassou à Ucrânia para serem usados no esforço de guerra contra a Rússia. A Tailândia adquiriu duas plataformas integrando-as à sua frota de Gripen C/D, enquanto os Emirados Árabes Unidos adquiriram outras duas, que posteriormente repassaram à Polônia com a chegada dos seus GlobalEye.
A Grécia chegou a arrendar dois exemplares para servirem como transição operacional para os quatro ERJ-145 AEW adquiridos pelo país.
O Brasil e o México compraram cinco e um exemplar do ERJ-145 AEW, respectivamente, enquanto a Arábia Saudita e o Paquistão adquiriram, dois e 10 Saab 2000.
A França se tornou operadora de dois GlobalEye na plataforma G6500, enquanto a Suécia comprou três e os Emirados Árabes Unidos outros cinco.
Com um mundo que despertou para a defesa, especialmente após o conflito entre Ucrânia e Rússia, haverá muito espaço para crescimento nos próximos anos.
