As Forças Armadas e a terceirização

Terceirizar para empresas privadas um leque de serviços pode ser o caminho para a otimização de recursos e orçamentos de defesa que são cada vez mais restritos.

A guerra na Ucrânia demonstrou de uma vez por todas que o caminho adotado por vários países, incluindo na Europa, de reduzir gastos militares, estava na contramão dos acontecimentos reais. Em 2018, os países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Europa investiam em torno de 1,4% do seu produto interno bruto em Defesa, número que saltou para 1,85% em 2023 e 2% (estimado) em 2024. A deflagração do conflito entre a Rússia e a Ucrânia foi determinante para a mudança de postura.

A aquisição de novos produtos, os investimentos em treinamentos e operações, a modernização e o aumento das forças são algumas das prioridades da OTAN, especialmente num momento em que a região passa por grande tensionamento político.

Por isso, os investimentos devem ser cada vez mais eficientes, para que sempre se atinja a máxima de “fazer mais com menos” e se concentrando na atividade fim de cada força armada.

Um caminho para ampliar essa eficiência é o aumento da terceirização de serviços, um modelo que não é novo mas que cresce a cada ano neste segmento.

Muitos países optaram pela terceirização daquelas atividades que não estavam diretamente ligadas com a parte operacional ou combativa de cada serviço. Não podemos confundir a terceirização de serviços com empresas privadas que fornecem tropas para combater diretamente no terreno no lugar de soldados de exército profissionais.

O Reino Unido apostou muito nessa linha de ação terceirizando alimentação, acomodações, transporte e outros. Estudos realizados na década de 1980, tomando como base serviços que haviam sido terceirizados como de lavanderia e limpeza, indicaram uma economia anual de 50 milhões de libras esterlinas. Estudos mais recentes indicam que a terceirização pode economizar até 23% dos cofres públicos, porém nem todo o tipo de serviço compensa ser terceirizado e isso deve ser analisado em cada situação.

Voltando ao Reino Unido, em alguns casos, a terceirização atingiu o apoio ao combate. Na Royal Air Force (RAF), o transporte estratégico logístico é  feito pelo AirTanker Consortium, que possui uma frota de 14 Airbus A330 MRTT. A RAF faz o leasing desses aviões com direito a voar 18 mil horas por ano garantidas pelo consórcio, que por sua vez pode usar as horas ociosas para atender outras nações parceiras do Ministério da Defesa do Reino Unido ou para responder a demandas do mercado civil. Nesse formato, é possível ganhar eficiência reduzindo custos.

Outro exemplo em termos de reabastecimento em voo é visto nos EUA. Em julho de 2023, pela primeira vez, uma aeronave da USAF foi reabastecida em voo por um avião de uma empresa privada. O marco aconteceu durante o exercício Resolute Hunter, quando um RC-135 Rivet Joint and Boeing E-3 Sentry foram reabastecidos por um dos quatro KC-135R da empresa norte-americana Metrea, totalizando 40.823kg de combustível transferidos em 13 contatos.

A Metrea se orgulha de manter índices de segurança de voo elevados, tendo a sua frota voado mais de 130mil horas sem acidentes, em várias missões e localidades em apoio aos objetivos de segurança nacional dos EUA, Reino Unido e outros governos aliados e parceiros.

O amplo portfólio de serviços da Metrea inclui também as missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, treinamento tático de pilotos de helicópteros, transporte de mobilidade especial e serviços de MRO.

Ainda neste segmento, a Omega Aerial Refueling System, criada em 1999 com o objetivo de oferecer serviços especializados de reabastecimento em voo, possui uma frota de seis aeronaves KC-707 e KDC-10, sendo certificada, em 2001, para operar com quaisquer aeronaves de combate e táticas em serviço na US Navy e US Marine Corps.

Em 2008, foi contratada pela Royal Australian Air Force para prover serviços de reabastecimento em voo para a sua frota de Boeing F/A-18 Super Hornet cobrindo a lacuna da desativação do KC-707 e a entrada em serviço do Airbus A330 MRTT.

Até hoje, a empresa realizou mais de 10 mil missões, 95 mil contatos, 158 milhões de toneladas de combustível transferidos.

O mesmo acontece, com muito mais frequência, no segmento de treinamento.

Em Israel, por exemplo, a experiência com serviços terceirizados começou em 2002, quando a Elbit Systems, por meio da sua subsidiária Cyclone Aviation Products Ltd., recebeu os primeiros de 27 treinadores básicos Grob G-120A, monomotores a pistão de fabricação alemã, para prover serviços para a escola de aviação da Força Aérea de Israel. A empresa ficou responsável pela manutenção e gerenciamento dos aviões, deixando um número de aeronaves e de horas de voo mensais disponíveis para a força aérea conduzir, sem afetar o seu cronograma, os voos de treinamento com os cadetes.

Em 20 anos de serviço, mais de 140 mil surtidas foram realizadas com mais de 85 mil horas de voo mantendo disponibilidade de quase 94% da frota.

O sucesso dessa operação possibilitou à força aérea dar outro passo, dessa vez, em relação ao Leonardo M-346 Master. Por meio da joint-venture entre a Elbit Systems e a Israel Aerospace Industries, estabelecida em 2011, 30 M-346 foram comprados pelas empresas que passaram a fazer o gerenciamento e a manutenção da frota vendendo as horas de voo para a Israel. O modelo da aeronave foi escolhido por Israel para substituir os então obsoletos McDonnell Douglas A-4 Skyhawk no treinamento avançado de voo.

Na Itália, a Leonardo, em parceria com a Força Aérea da Itália, fundou em 18 de julho de 2018, a escola internacional de treinamento de voo (International Flight Training School, IFTS), sendo esta situada em Lecce operando com 18 exemplares da AMI e mais quatro encomendados pela própria escola, elevando a frota para 22 aeronaves, além de todo o sistema de apoio de solo como simuladores de voo.

A escola conjunta entre a AMI e a Leonardo fornece o treinamento de fase 4 para pilotos da AMI e de outras nações. Ao todo, a IFTS tem capacidade de absorver 70 alunos instruídos por 15 instrutores de voo da AMI e 25 militares da reserva selecionados pela AMI, preparando-os para voar caças de 4ª e 5ª geração.

Na América Latina, a Argentina tornou-se o primeiro país a vislumbrar as possibilidades e as vantagens da terceirização dos aviões para o seu treinamento básico e avançado. Anteriormente, a formação dos cadetes da Força Aérea Argentina era feita pelos Beechcraft B-45 Mentor e Embraer T-27 Tucano, mas devido a falta de peças sobressalentes e ao envelhecimento natural das aeronaves, a disponibilidade estava cada vez mais baixa e os custos operacionais mais altos.

Por meio de um contrato de arrendamento, as aeronaves Grob G-120TP, treinadores turboélices monomotores passaram a serem usados na etapa básica da instrução de voo na Escuela de Aviación Militar (EAM), com a Fábrica Argentina de Aviões provendo a manutenção e as horas de voo para a EAM.

Na América Latina como um todo tem crescido a presença de empresas privadas que assumiram a manutenção de vários modelos de aeronaves em serviço nos países da região, aliviando a necessidade de cada serviço em manter pessoal dedicado nessas funções. Porém, este é um campo que ainda pode ter muito crescimento,  ajudando os países a otimizarem os seus orçamentos, fazendo mais com menos.

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Comentários

3 respostas

  1. É tão coerente quanto se terceirizar no casamento! Além de ser ralo para interesses privados, e esquemas, cujo único objetivo é o lucro e podem destoar bastante do interesse de Estado. Soberania, essa é a missão! Os serviços de terceirização começam acessórios e logo se tornam a regra. E os custos tendem ao infinito. É necessário rever gastos excessivos, penduricalhos, pensões entre outros… Gastar com melhor qualidade sobretudo em equipamentos e colocar a indústria de defesa como prioridade no PIB e produzir retorno em escala? Com certeza! Comprar de prateleira não agrega, empregos, conhecimento e desenvolvimento são exportados, parte do problema é falta de visão de médio Prazo também do comando. Más, Forças Armadas não é Super Mercado nem padaria. Não dá lucro!

    1. Perfeita a sua observação. ko Brasil várias privatizações pioraram e encareceram os serviços de fornecimento de água e energia… Porque nas forças armadas seria diferente? Empresas visam lucro, não soberania, F.A.s não foram criadas para dar lucro, mas para dissuadir e proteger…

  2. Prezado Amigo,

    Falta muita coisa no Brasil, concordo com você. Prioridade de longo prazo para a BID, investimentos que sejam de Estado e não de governo, modernizações, aumento do PIB para Defesa e outros. Entretanto, com orçamentos pequenos que nós temos, não é uma questão de gerar lucro para o Estado, mas sim de aproveitar melhor o orçamento que nós temos. E não se engane, para o setor privado, manutenção e serviço é algo que gera muito dividendo. O mesmo para terceirização de algumas atividades.

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