Há 50 anos, a Força Aérea Brasileira incorporava uma de suas capacidades mais estratégicas: o reabastecimento em voo (REVO). Realizado pela primeira vez em 4 de maio de 1976, o procedimento ampliou de forma decisiva o alcance, o tempo de permanência e a flexibilidade das operações aéreas, permitindo que aeronaves operem por longos períodos sem necessidade de pouso.
A origem dessa capacidade remonta ao fim da década de 1960. Em meio ao contexto da Guerra Fria e a um amplo processo de modernização do setor aeronáutico nacional, o então Ministério da Aeronáutica identificou a necessidade de ampliar o raio de ação das aeronaves militares. Em 20 de outubro de 1969, o Aviso nº R-033-GM4 formalizou essa demanda, destacando o reabastecimento em voo como fator essencial ao planejamento estratégico e determinando a realização de estudos para sua implementação.
Na primeira metade da década de 1970, foram definidos os vetores que viabilizariam a nova capacidade. O Lockheed KC-130H Hércules foi selecionado como aeronave reabastecedora, enquanto o Northrop F-5E Tiger II passou a equipar a Aviação de Caça como vetor receptor.
As unidades designadas para a missão foram o 1º Grupo de Transporte de Tropa (1º GTT) e o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa), então sediados no Rio de Janeiro. A regulamentação foi formalizada em 1974, e, a partir de 1975, com a chegada das aeronaves e a estruturação dos cursos, a FAB passou a reunir as condições necessárias para executar o REVO.
A capacitação das tripulações contou com apoio internacional, com instrutores da Força Aérea dos Estados Unidos e das fabricantes das aeronaves, que ministraram treinamentos teóricos e práticos envolvendo procedimentos operacionais, segurança de voo e manutenção. A formação inicial teve duração de 20 dias e preparou os primeiros pilotos e tripulantes brasileiros para a nova missão.

O primeiro REVO
O marco histórico ocorreu em 4 de maio de 1976. Na ocasião, o Segundo Esquadrão do Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (2º/1º GTT) – Esquadrão Cascavel, operando o KC-130H, e o Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Aviação de Caça (1º/1º GAvCa) – Esquadrão Jambock, com os F-5E, realizaram com sucesso o primeiro reabastecimento em voo nos céus brasileiros.
A bordo do KC-130 estavam o tenente-coronel Wílson Freitas do Valle, comandante do 1º GTT, e o copiloto capitão Bernadino de Paiva Neto, além dos instrutores norte-americanos capitão Bill Engenstrong e George Garger, do suboficial Hugo Guimarães e dos sargentos Alfredo Bences Rodrigues, Armando Ferreira da Silva e Dionísio Camargo Barbosa. Já os F-5E eram pilotados pelo então tenente-coronel Carlos de Almeida Baptista, comandante do 1º GAvCa, acompanhado do major Clyde L. Johns, instrutor da USAF.

Após o primeiro REVO, um dos F-5E apresentou dificuldades no acionamento do trem de pouso durante o retorno, evidenciando, na prática, a importância da nova capacidade: com combustível suficiente, a aeronave pôde permanecer em voo até a solução do problema, garantindo a segurança da operação.
Ainda em 1976, a FAB avançou rapidamente na consolidação do REVO. Em 14 de maio, foi realizada a Operação LO-LO-LO, primeiro treinamento tático com reabastecimento em voo em perfil de baixa altitude. Em agosto, ocorreu o primeiro REVO noturno, ampliando a complexidade das missões.
Em setembro, a Operação Tucunaré marcou o primeiro exercício operacional com a nova capacidade, percorrendo mais de 9.700 quilômetros pelo território nacional e integrando aeronaves-tanque, caças e unidades de apoio.

Ao longo das décadas, o reabastecimento em voo se consolidou como atividade essencial da FAB. Em 1986, a Força recebeu o Boeing KC-137, ampliando sua capacidade estratégica até a aposentadoria do modelo em 2013. Os KC-130H, por sua vez, permaneceram em operação até 2024.
Atualmente, a missão é desempenhada pelo Embraer KC-390 Millennium, capaz de abastecer vetores como A-1 AMX, F-5 e F-39 Gripen. Em paralelo, a incorporação dos Airbus A330-200 (KC-30) em 2022 representa o primeiro passo para a retomada da capacidade de reabastecimento estratégico de longo alcance, ainda dependente da conversão para o padrão MRTT. O processo ainda não foi realizado por conta das restrições orçamentárias.
Cinco décadas depois, o REVO segue como um dos pilares do poder aeroespacial brasileiro. Mais do que ampliar distâncias, a capacidade garante autonomia operacional, prontidão e flexibilidade, permitindo à Força Aérea Brasileira responder com eficiência a cenários cada vez mais complexos.
Com informações da FAB
Respostas de 3
País gigante, e mais que isso, um subcontinente, o Brasil precisa de forças capazes de chegar, rapidamente, em lugares e distâncias que para muitos outros países seria um verdadeiro pesadelo. Seria ótimo se pudéssemos ter dezenas de bases aéreas e centenas de aeronaves, incluindo caças, em vários pontos desse subcontinente, de modo que cada base pudesse rapidamente chegar a todos os pontos de suas respectivas áreas de responsabilidade. Mas não somos um país rico a esse pontos; então, que bom que em um passado onde a capacidade de abastecimento em voo (inclusive noturno!) estava apenas dando passos iniciais em países que já eram potências, tivemos visão de futuro suficiente para a incorporar e desenvolver também aqui. Parabéns aos visionários do passado e do presente! Que venham mais KC390, mais caças e mais unidades de apoio, cada vez mais modernos, de preferência com indústria nacional proporia, e tropas cada vez mais profissionalizadas e remuneradas adequadamente!
Observei por muitas vezes o REVO, tanto diurno, quanto noturno nos céus de São Lourenço/MG. Era um evento que não perdíamos. Escutávamos os barulhos dos motores das aeronaves e corríamos para ver. Hoje já não acontece mais, por aqui. Uma pena.
Em Duque de Caxias / RJ era comum ver esse procedimento.