A guerra na Ucrânia redefiniu o combate terrestre e, dentre todas as inovações observadas no conflito, nenhuma teve impacto tão profundo quanto os drones FPV (First Person View).
Originalmente desenvolvidos para uso civil, esses drones foram adaptados para atacar tropas, posições fortificadas, peças de artilharia, veículos militares, postos de comando e sistemas de defesa. Com alcance entre 5 e mais de 50 quilômetros, tornaram-se uma das armas mais letais e eficientes do campo de batalha moderno. Hoje, praticamente qualquer posição descoberta pode ser rapidamente localizada e atacada: blindados, ninhos de metralhadoras, equipes de morteiro e até soldados isolados passaram a conviver com uma ameaça constante, difícil de detectar e ainda mais difícil de neutralizar.
Não por acaso, exércitos de todo o mundo estão absorvendo as lições da Ucrânia e a produção em larga escala de drones FPV tornou-se prioridade. Diversos países já incorporam centenas de milhares de unidades aos seus arsenais, tratando esses equipamentos como um consumível indispensável para as operações terrestres. E o Brasil não pode permanecer à margem dessa transformação.
Em dezembro de 2025, o Exército Brasileiro (EB), por meio da Diretoria de Fabricação, lançou uma consulta pública para um programa para sondar o mercado a respeito de drones de ataque. Chamada de “Iniciativa Drones de Ataque”, o projeto tem como objetivo credenciar empresas produtoras desse tipo de sistema, no Brasil e no Exterior, para uma possível aquisição futura.
Esse projeto é um grande avanço, pois demonstra que a Força Terrestre já identificou o potencial desse sistema de armas e a necessidade de ser incorporado às suas unidades de combate, além de rever sua doutrina, formar operadores especializados e desenvolver táticas específicas para seu emprego em todos os escalões.
Porém, o mais importante é que o país deve buscar um parceiro estratégico confiável, que já possua drones FPV comprovados em combate e tecnologias maduras, incluindo modelos guiados por fibra óptica, praticamente imunes às ações de guerra eletrônica e ao “jamming”, uma das principais formas de neutralização desses sistemas.
Essa parceria deve ter como objetivo a transferência de tecnologia e a implantação de uma capacidade nacional de produção seriada. Em um conflito moderno, não basta adquirir alguns milhares de drones; é necessário ter capacidade industrial para produzi-los continuamente, garantindo reposição rápida e independência logística. O Brasil possui uma Base Industrial de Defesa capaz de absorver essa tecnologia e produzir esses sistemas no país. O desafio agora não é tecnológico, mas estratégico.
A revolução dos drones FPV já aconteceu e os exércitos que compreenderam essa mudança estão adaptando sua doutrina e fortalecendo sua indústria. Os que demorarem a agir correrão o risco de entrar no próximo conflito preparados para uma guerra que já ficou no passado. Para o EB a hora de agir é agora.
