Por Gabriel Centeno
Anualmente, os integrantes da aviação de caça da Força Aérea Brasileira (FAB) se reúnem na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, para reverenciar os feitos verdadeiramente heroicos e já lendários do 1º Grupo de Aviação de Caça naquele 22 de abril de 81 anos atrás.
Em 2026, não seria diferente. A tradição segue como um dos pilares dessa comunidade, e a Reunião da Aviação de Caça (RAC) já ocorre na BASC, mantendo vivo um elo que atravessa gerações de aviadores.
Ainda assim, salta aos olhos, de forma inevitável e até inquietante, um contraste evidente entre a edição deste ano e as de outros tempos. A imagem do grupo de militares posando diante das aeronaves, com o icônico “Bibicão” ao fundo — o histórico Hangar do Zeppelin em Santa Cruz — revela um conjunto de apenas 15 vetores: F-5EM/FM Tiger II, F-39E Gripen, A-29 Super Tucano e A-1AM. O número repete o do ano anterior, mas com menor presença dos A-1, já em processo de retirada de serviço, com desativação prevista para o fim de 2027.
Quando a comparação volta apenas quatro anos, o impacto é ainda maior. Na RAC de 2022, o pátio em frente ao hangar estava tomado por caças. Em registros mais antigos, o cenário se amplia: há duas décadas, a Base Aérea de Santa Cruz chegou a reunir quase 60 aeronaves de combate. Fora as demonstrações de emprego armado dos aviões. A diferença não é apenas numérica. É simbólica.

Contrastes…
Recentemente, numa despretensiosa conversa de bar, debati as particularidades da Semiótica com o editor de T&D, Francisco Ferro. Para sintetizar, trata-se de um campo das teorias da comunicação dedicado a compreender como as imagens produzem sentido. Uma fotografia nunca é apenas registro: ela constrói narrativa quando inserida em determinado contexto.
É justamente sob essa luz que a imagem da RAC 2026 ganha outra dimensão. Além do encontro e da tradição viva, a foto deixa de ser mero registro para refletir o momento, o pano de fundo. No caso da FAB, o cenário inclui restrições de horas de voo, evasão de pilotos, atrasos em programas estratégicos e uma série de limitações que afetam diretamente o cotidiano de quem veste azul.
Os 15 caças alinhados no pátio de Santa Cruz não representam apenas mais um signo desse ciclo de restrição orçamentária (algo que, espera-se, seja transitório), mas também um tensionamento entre discurso e realidade. Soberania se tornou a palavra do momento, embora o grande público não tenha o hábito ou tampouco o interesse em compreender o que o termo significa, o que o Brasil precisa e que o é necessário para que isso ocorra na prática. Meios, planejamento, continuidade e previsibilidade.
A imagem que hoje simboliza a tradição, e o importante culto à memória dos nossos heróis, também é um convite à reflexão. Entre memória e presente, discurso político e capacidade concreta, permanece a questão: que tipo de soberania o Brasil pretende sustentar? E, sobretudo, se está disposto a investir de forma consistente para torná-la algo além de um termo viral.
Respostas de 13
muito bom 🙌
Muitas abstrações e pouca assertividade. Em números, a gestão de recursos insuficientes é clara: com toda a falácia de lado a lado, o atual governo tem priorizado o investimento em equipamentos, contra o anterior que priorizou gastos com pessoal:
Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), os investimentos em defesa tiveram queda significativa. O orçamento concentrou-se em pessoal e previdência militar, que consumiram cerca de 78–80% dos recursos. Isso deixou pouco espaço para investimentos em equipamentos e projetos estratégicos. Em 2021, por exemplo, os investimentos autorizados ficaram em torno de R$ 7 bilhões, o menor nível desde 2010. Os programas mais relevantes mantidos foram:
– KC-390 Millennium (avião cargueiro da Embraer, com contratos renegociados para reduzir custos).
– Caças Gripen (parceria com a Saab, mas com ritmo de entrega mais lento).
– Programa Calha Norte (infraestrutura militar na Amazônia, usado também como instrumento político).
– Submarinos da classe Riachuelo (parte do PROSUB, mas com recursos limitados).
Já no governo Lula (2023 em diante), houve uma reversão parcial dessa tendência. O percentual de investimento subiu para 7,4% em 2023 (R$ 9,2 bilhões), ainda baixo internacionalmente, mas maior que no fim da gestão anterior. Além disso, Lula lançou um plano de R$ 800 bilhões em 15 anos para modernização das Forças Armadas, com a Lei Complementar 221 garantindo R$ 30 bilhões até 2031. Os projetos mais relevantes são:
– Submarinos da Marinha (PROSUB), incluindo o futuro submarino nuclear.
– Caças Gripen E/F, com entregas aceleradas e integração de sistemas nacionais.
– KC-390 Millennium, agora com contratos internacionais e expansão da frota da FAB.
– Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), voltado para vigilância terrestre.
– Satélites e radares para vigilância da Amazônia, reforçando a presença na região.
Em resumo: Bolsonaro reduziu investimentos e concentrou recursos em pessoal, mantendo apenas alguns programas estratégicos em ritmo lento. Lula aumentou os aportes, criou espaço fiscal para reaparelhamento e priorizou projetos de modernização tecnológica e vigilância da Amazônia.
Perfeito. Gostaria de pedir autorização para utilizar esta análise, citando o autor e site, em outros debates sobre política pública de defesa.
Bom dia Glauco. Está autorizado.
Qualquer matéria do site pode ser utilizada, desde que não seja retirada de contexto e com citação da fonte original.
Um abraço!
Obrigado.
Isso aí. Sem falar da fabricação dos Blindados Guarani.
Números e informações claras são sempre importantes, Luiz Guilherme! Muito bom!
Parabéns pela análise fria, objetiva e sem torcida política!
Idem ao excelente texto!
Absurdo não termos 2 esquadrões completos voando! Nem falo só do Gripen mas somando F5 e A1…torço para que não comeram a loucura de se aventurar com F16, que é uma excelente aeronave mas mudaria cadeia logística, operacional, teríamos que comprar KC135 sem termos aeronave dedicada nacional voando…
Não sou economista, mas acredito ser fato que orçamento com 78% destinado a pessoal não dá para investir e aparelhar decentemente. Deveriam estudar junto com Poupex, BB, Caixa, enfim, como transferir os RR para alguma outra instituição.
Não tem como manter FA bem aparelhada com 80% dos recursos sendo consumidos com despesas de pessoal.
O Brasil tem passado por várias reformas. Está na hora dos militares aceitarem que também é necessário a reforma das FA.
A FAB precisa padronizar os tipos de aeronaves por esquadrão e também permitir que os esquadrões participem da próxima RAC… ( sei que vários esquadrões estavam presentes, mas preferi usar o sarcasmo por conta do número de aeronaves presentes na RAC desse ano).
Excelente reflexão, Gabriel.
O contraste das imagens diz tudo que os números às vezes não conseguem. Mas vale acrescentar uma camada ao debate que costuma ficar de fora: o problema de pessoal e o problema de equipamentos não são concorrentes — são faces do mesmo nó estrutural.
A concentração de 78–80% do orçamento de defesa em pessoal e previdência não é anomalia de uma gestão específica. É o resultado acumulado de décadas de uma política remuneratória que privilegiou progressões nas patentes mais altas enquanto a base da pirâmide — sargentos, cabos, soldados e os próprios aviadores em início de carreira — ficou sistematicamente para trás. Não por acaso, a evasão de pilotos é hoje um dos gargalos mais citados, e reter talentos com soldos defasados num mercado que oferece alternativas civis atrativas é uma batalha perdida antes de começar.
A solução, portanto, não passa por escolher entre gente e equipamento. Passa por uma reforma remuneratória inteligente: reequilibrar a pirâmide salarial de baixo para cima, reduzindo distorções entre os níveis hierárquicos, enquanto se cria previsibilidade orçamentária real para os programas de modernização — e não apenas compromissos de longo prazo que dependem de quinze anos de continuidade política para se materializarem.
Os 15 caças no pátio de Santa Cruz em 2026 não são culpa de um governo. São o recibo de uma equação que nenhum governo ainda teve coragem de resolver de verdade.
Concordo Plenamente. Tem que corrigir as distorções existentes entre os Soldos, bem como a retirada da tabela principal dos Soldos dos Militares em Estágio de 6 meses (Aspirante a Oficial).
Um estagiário ganhando mais que um Militar com 20 a 30 anos de serviço…
*Para frente Custe o que custar.*