Ala 7 – Prontidão no Hemisfério Norte – Parte 1

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Na capital mais isolada da federação, com metade do seu território composto por áreas indígenas e infraestrutura precária de vias terrestres, a Ala 7 é a ponta da lança e a primeira linha de contato da FAB no Hemisfério Norte. Num local onde o pôr do sol marca apenas a metade do expediente, a Ala 7 é demandada nas 24 horas do dia nos acionamentos para a defesa do espaço aéreo, nas atividades de apoio às forças coirmãs e órgãos governamentais e nas missões de misericórdia.

O Vale do Rio Branco, no extremo norte do Brasil, foi descoberto pelos portugueses duzentos anos depois da chegada das primeiras caravelas em 1500. Os colonizadores utilizaram, como acesso, o próprio rio Branco, já que a região é dominada pela selva amazônica e pelo cerrado.

Ao longo das décadas seguintes, os portugueses enfrentaram as invasões àquela localidade promovidas pelos espanhóis, a partir da Venezuela, e pelos holandeses, vindos da Guiana.

Em 1887, era criado o município de Boa Vista do Rio Branco, com o estabelecimento de uma vereda fazendo a ligação até Manaus. Em 13 de setembro de 1943, o então presidente Getúlio Vargas criou o Território Federal do Rio Branco, desmembrando-o do Estado do Amazonas.

Naquele momento, uma série de ações começaram a ser promovidas para desenvolver aquela área, incluindo a construção de casas e escolas. Em 20 de abril de 1961, o Exército Brasileiro (EB) ativou em Boa Vista a 9ª Companhia de Fronteira, transformando-a posteriormente no 7º Batalhão de Infantaria de Selva, subordinado à 1ª Brigada de Infantaria de Selva.

A Constituição Brasileira de 1988 alterou o Território para o Estado de Roraima, que na etimologia indígena significa “Monte Verde”, “Mãe dos Ventos” e “Serra do Caju”, ou “Serra Verde”, o que representa, em termos gerais, a geografia local.

Prédio principal da Base Aérea de Boa Vista. Foto: João Paulo Moralez

Roraima, porém, é o pedaço mais isolado e de difícil acesso do Brasil. Sem dispor de ferrovias, por terra, a única conexão está na BR-147 que liga Boa Vista à Manaus. Por meio fluvial, comum por lá, o acesso é limitado ao rio Branco e no trecho do rio Negro até Caracaraí, sendo de difícil navegação dada a sua baixa profundidade, principalmente com a estiagem. Em termos de energia elétrica, Roraima não faz parte do Sistema Integrado Nacional, sendo as suas fontes oriundas de hidrelétricas e de termelétricas.

Dos oito aeroportos existentes, apenas o de Boa Vista se constitui de porte internacional, sendo os demais menores.

Com quase todo o seu território situado acima da linha do Equador, a meteorologia sofre mudanças repentinas com a formação de grandes nuvens e tempestades tropicais e, em média, a temperatura varia de 20°C a 38°C dependendo do local e da época do ano.

Dos 224,3 mil quilômetros quadrados, o 14º maior da União, quase a metade, em torno de 104 mil quilômetros quadrados, é de áreas indígenas, a segunda maior do Brasil atrás apenas do Amapá, ao mesmo que tempo abriga a maior população de índios do País, em torno de 50 mil.

A Ala 7 é equipada com uma unidade aérea de caça, o 1º/3º GAV “Esquadrão Escorpião”. Foto: João Paulo Moralez

Quanto a fronteiras, são 1.922 km de extensão com a Venezuela e com a Guiana, país esse similar em área territorial com Roraima.

A aviação é, sem dúvidas, o principal e melhor meio de transporte em regiões isoladas e, no caso de Roraima, essa afirmação torna-se mais real. O avião é o meio mais rápido para apoiar a evacuação de pacientes, levar assistência média, odontológica e hospitalar, auxiliar campanhas de vacinação, fazer o transporte de cargas e pessoas em geral e permitir que a população exerça o seu direito ao voto ao deslocar urnas entre as seções eleitorais espalhadas.

Estrategicamente, e com foco na segurança e na defesa, o avião é um multiplicador de forças, sem o qual parte do efetivo do EB aquartelado pelos longínquos rincões, principalmente nos Pelotões Especiais de Fronteira (PEF), não conseguiria cumprir a sua missão.

Presença antiga

A chegada definitiva da Força Aérea Brasileira (FAB) aconteceu ainda quando a região era o Território do Rio Branco. A Base Aérea de Boa Vista (BABV), criada em 15 de maio e ativada em 25 de outubro de 1984, numa expansão e consolidação da FAB ao norte,  foi imprescindível para o Projeto Calha Norte que surgia com o objetivo de ocupar militarmente uma faixa de 160 km de largura em 6,5 mil quilômetros de extensão, da Colômbia até a Guiana Francesa.

A FAB apoiou fazendo o transporte aéreo logístico para os pelotões de fronteira do EB e ajudou no estabelecimento de melhor infraestrutura nas cidades. Esses voos, levando pessoas, materiais e cargas, em geral, eram feitos pela 1ª Esquadrilha do 7º Esquadrão de Transporte Aéreo (1ª/7º ETA), sediada na BABV, inicialmente com o Embraer C-95B Bandeirante e, depois, com o Cessna C-98 Caravan.

A chegada dos anos de 1990 mudou a atenção da FAB, concentrando-se na intensificação das missões de policiamento do espaço aéreo, tendo como foco aeronaves em voos clandestinos ou ilícitos, num momento em que estudos e planejamentos estabeleciam o Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM).

O C-98 é um dos sinônimos de integração numa região isolada como a do estado de Roraima. Foto: João Paulo Moralez

Dessa forma, os Esquadrões de Transporte Aéreo foram transformados em Esquadrões de Emprego Tático e Adestramento, mantendo a sigla ETA, através do Decreto nº 768, de 10 de março de 1993. Em Boa Vista ficou sediada a 1ª Esquadrilha do 7º ETA com três Embraer EMB-312 Tucano armados para o cumprimento de missões de defesa e policiamento o espaço aéreo. Dois anos mais tarde, a Esquadrilha ganhou mais aviões e se transformou no 1º/3º GAv “Esquadrão Escorpião”, pertencente à antiga aviação de ataque da FAB, que foi convertida em unidade de caça no final de 2001.

Em Porto Velho (RO) houve, nos mesmos moldes, a criação do 2º/3º GAv “Esquadrão Grifo” oriundo da 2ª Esquadrilha do 7º ETA, enquanto a então 2ª Esquadrilha de Ligação e Observação deu origem, em Campo Grande (MS), ao 3º/3º GAv “Esquadrão Flecha”.

Em 3 março de 2017, num processo de reestruturação, a BABV foi desativada, sendo o seu material e pessoal transferidos para a recém-criada Ala 7.

Na parte de baixo, o Aeroporto Internacional de Roraima. Acima, as instalações da Ala 7. Foto: João Paulo Moralez

6 Comentários

  1. Prezados senhores redatores do Tecnodefesa, desejo expressar minha enorme satisfação de ler esse trecho da reportagem que será publicada em partes. Parabéns! Ficou fantástica e bem direcionada, penso que vale um esforço de algum produtor independente, a realização de uma edição áudio visual (video) da matéria inteira no futuro e posterior distribuição da mesma na Internet.

    Sou sgt reformado do EB do serviço de saúde, estive presente em Clevelandia do Norte – Amapá durante 6 meses, incorporado ao 34º Bis para realização de atividades ACISO. Sou testemunha viva do trabalho fundamental da FAB no resuprumento de nossas guarnições no extremo norte do país.

    Desejo expressar um parabéns especial ao aviador Moralez, que certamente colocará alma na série de reportagens!

    CM

    • Muito obrigado senhor Claudio! Quem sabe no futuro não saia alguma coisa pela Hunter Press nesse sentido.
      Agradeço pelo aviador. Não tenho brevê, mas me considero um…de alma.

  2. Estive por lá em 2015 e passei pela BABV e pela 1ª Bda Inf Sl. A cidade me surpreendeu pela estrutura, visto ser tão distante do resto do território nacional. Roraima e toda a Região Norte merecem mais atenção do resto do país.

  3. Parabéns à FAB pela contribuição na integração desta região com o restante do Brasil. Nosso país é gigantesco e sem este tipo de iniciativa o desenvolvimento regional e a própria sensação de pertencimento nacional não existem.

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