Akaer é comprada pelo EDGE Group dos Emirados Árabes

Em um movimento que vinha sendo acompanhado há meses por analistas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS), a Akaer Engenharia S.A., uma das principais empresas brasileiras do setor aeroespacial e de defesa, foi 100% adquirida pelo grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos. A operação foi anunciada nesta quinta-feira (16), em evento na sede da Akaer São José dos Campos (SP), ampliando a presença do conglomerado árabe na indústria de defesa nacional. Os valores do acordo ainda não foram revelados. 

Em comunicado, o grupo emiradense afirma que a compra ainda está sujeita ao cumprimento das condições precedentes usuais e às aprovações regulatórias aplicáveis, mas que vai proporcionar à EDGE “uma base consolidada de engenharia no Brasil e uma equipe multidisciplinar altamente qualificada, com atuação em todo o ciclo de vida do produto, desde a concepção do projeto até sua industrialização. A operação fortalecerá a capacidade da EDGE de cumprir os cronogramas de industrialização de programas estratégicos de UAVs e ampliará as competências do grupo em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, além de tecnologias relacionadas ao setor espacial.”

“A AKAER agrega uma profunda capacidade de engenharia à EDGE. Trata-se de uma equipe altamente especializada, com três décadas de experiência na execução de programas aeroespaciais complexos, e essa expertise fortalece ainda mais a proposta de valor que oferecemos em todo o grupo”, afirmou o diretor-geral e CEO da EDGE Group, Hamad Al Marar. “Nossa prioridade é garantir a continuidade para os colaboradores da AKAER, seus programas e seus clientes, ao mesmo tempo em que construímos uma base sólida para o crescimento de longo prazo.”

EDGE/Divulgação

Classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), a Akaer foi fundada em 1992 e emprega cerca de 700 profissionais. Ao longo de mais de três décadas, consolidou-se como uma das principais empresas de engenharia aeronáutica da América Latina, participando de alguns dos maiores programas aeroespaciais desenvolvidos no Brasil e no exterior.

Entre seus projetos de maior relevância está a participação no programa do caça Saab F-39 Gripen, da Força Aérea Brasileira (FAB), para o qual desenvolveu importantes aeroestruturas e soluções de engenharia. A empresa também atua no cargueiro multimissão Embraer KC-390 Millennium e foi responsável pela revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha marítima Lockheed P-3AM Orion da FAB.

Nos últimos anos, a Akaer ampliou significativamente sua presença internacional. A empresa participa do desenvolvimento estrutural do treinador avançado e caça leve supersônico turco TAI Hürjet, foi contratada pela alemã Deutsche Aircraft para desenvolver e produzir a fuselagem dianteira do turboélice D328eco e assinou acordo com a portuguesa EEA Aircraft and Maintenance para fabricar no Brasil as aeroestruturas do futuro LUS-222.

Outro contrato de destaque foi anunciado durante o Paris Air Show de 2025, quando a startup norte-americana Radia selecionou a Akaer para desenvolver a cabine pressurizada do WindRunner. Caso seja levado à produção, o quadrimotor será o maior avião do mundo, com 108,5 metros de comprimento, 79,6 metros de envergadura e mais de 8.200 metros cúbicos de volume interno.

Aproximação com o EDGE

A aquisição representa o aprofundamento de uma relação iniciada oficialmente durante a LAAD Defence & Security 2023, quando Akaer e EDGE assinaram um memorando de entendimento para o desenvolvimento conjunto de tecnologias avançadas.

Um dos principais frutos dessa parceria é o drone de combate furtivo Jeniah, apresentado pelo grupo árabe em 2025. Capaz de ultrapassar os 1.000 km/h, o veículo aéreo não tripulado figura entre os projetos mais ambiciosos da empresa. Embora a Akaer participe do desenvolvimento da plataforma, sua contribuição nunca foi oficialmente detalhada pelas duas companhias.

Edge Group/Divulgação

A empresa brasileira também realizou estudos de desempenho do drone REACH-S, desenvolvido pela ADASI, subsidiária do EDGE especializada em sistemas não tripulados.

Atuação também em programas terrestres

Além do segmento aeronáutico, a Akaer lidera junto ao Exército Brasileiro o programa de modernização da Viatura Blindada de Reconhecimento EE-9 Cascavel, conhecido como Cascavel NG.

Inserido no Programa Estratégico Forças Blindadas, o projeto previa originalmente a atualização de 201 viaturas com novos motores, suspensão adaptativa, conjunto optrônico de última geração, computador balístico integrado e integração com o míssil anticarro MAX, entre outras melhorias.

Entretanto, dificuldades técnicas e industriais provocaram atrasos na entrega das sete viaturas de pré-série, que ainda não foram recebidas pelo Exército Brasileiro.

Crise financeira antecedeu aquisição

Apesar do amplo portfólio tecnológico e importante presença na BIDS, a Akaer enfrenta dificuldades financeiras nos últimos anos. Desde 2025, funcionários denunciam atrasos no pagamento de salários, e demais faltas trabalhistas. Outro episódio que afetou a imagem da empresa envolveu o programa do Veículo Lançador de Pequeno Porte (VLPP). A Akaer liderava o consórcio VLN-AKR, formado em parceria com as startups Acrux Aerospace, Breng Engenharia e Essado de Morais, responsável pelo desenvolvimento de um foguete nacional de três estágios.

Em novembro de 2023, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) destinou R$ 41,3 milhões ao consórcio. Contudo, em agosto de 2025, bloqueou as contas do grupo após a Akaer não comprovar a aplicação de pelo menos R$ 24,5 milhões, ou seja, metade dos recursos recebidos. O episódio levou ao encerramento do consórcio em fevereiro deste ano. À época, a empresa afirmou, por meio de nota, que a situação decorria de ajustes administrativos e financeiros.

A aquisição pela EDGE ocorre justamente nesse contexto, marcando uma nova fase para a companhia brasileira e consolidando a estratégia do conglomerado dos Emirados Árabes Unidos de ampliar sua presença na Base Industrial de Defesa brasileira. Após investimentos de grande monta em empresas como SIATT e Condor Tecnologias Não Letais, a entrada na Akaer representa mais um passo na construção de um portfólio nacional voltado ao desenvolvimento de sistemas aeroespaciais, mísseis, veículos não tripulados e tecnologias estratégicas para os mercados brasileiro e internacional.

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