A decisão da Bélgica de transferir todos os seus 53 caças F-16 para a Força Aérea da Ucrânia, até o final de 2029, representa mais do que um novo pacote de ajuda militar, mas um marco estratégico que consolida uma transformação profunda na aviação de combate europeia.
Segundo o cronograma, confirmado pelo gabinete do ministro da Defesa belga, Theo Francken, a entrega ocorrerá em etapas: em 2026, sete aeronaves serão transferidas, sendo quatro delas já retiradas de serviço e atualmente utilizadas no treinamento de técnicos ucranianos, em seguida, estão previstas cinco aeronaves em 2027, quatorze em 2028 e vinte e sete em 2029.
O anúncio belga ganha uma dimensão ainda maior quando analisado em conjunto com os compromissos assumidos por outros membros da chamada “coalizão do F-16”, formada por países como Dinamarca, Países Baixos, Noruega e Bélgica, e com forte apoio dos Estados Unidos. Somadas todas as transferências previstas, a Força Aérea Ucraniana poderá operar mais de uma centena de F-16 ao longo dos próximos anos, tornando-se a maior usuária europeia do caça em atividade.
O fenômeno revela uma ironia estratégica interessante: enquanto diversos países da Europa Ocidental retiram gradualmente seus F-16 de serviço para substituí-los pelos novos Lockheed Martin F-35 Lightning II, a Ucrânia absorve essas aeronaves e passa a concentrar a maior massa operacional, logística e doutrinária do modelo no continente. Em outras palavras, à medida que o F-16 deixa de ser o principal vetor da OTAN ocidental, ele se transforma no núcleo do poder aéreo ucraniano.

A guerra acelerou uma transformação radical na aviação de combate de Kiev, pois, antes do conflito, a Ucrânia dependia majoritariamente de aeronaves de origem soviética, como os Mikoyan MiG-29 e Sukhoi Su-27, porém o desgaste da frota, a dificuldade de manutenção e a limitação de obtenção de peças tornavam inevitável uma transição para plataformas ocidentais, como os Mirage 2000 e Gripen anunciados. E essa mudança vai muito além da simples troca de aeronaves, já que país está migrando para um novo padrão, baseado em armamentos ocidentais, sistemas de comunicação compatíveis com a OTAN, integração com aeronaves AWACS, novos conceitos de emprego tático e uma logística completamente distinta da herança soviética. Na prática, a Ucrânia pode estar construindo, em plena guerra, a maior força aérea ocidentalizada da Europa Oriental.
O crescimento da frota também permitirá uma expansão substancial da capacidade operacional ucraniana, com o aumento no número de surtidas, capacidade de dispersar seus caças em diferentes bases, reduzir a vulnerabilidade a ataques russos e ampliar missões de defesa aérea e ataque de precisão. Além disso, uma frota numerosa reduz o impacto operacional de perdas inevitáveis em um conflito de alta intensidade.
Outro aspecto relevante é o enorme valor que a experiência ucraniana produzirá para o próprio universo da aeronave, pois, desde a Guerra do Golfo, nenhuma força aérea da OTAN o operou de maneira tão intensa em um ambiente de guerra convencional, contra uma potência militar comparável. Os pilotos ucranianos estão acumulando experiência real em combate moderno envolvendo defesa antiaérea densa, guerra eletrônica, ataques de longo alcance e operações sob constante ameaça de mísseis.
Com o passar do tempo, a Ucrânia poderá inclusive transformar-se em um grande polo europeu de manutenção, modernização e treinamento relacionado ao F-16, já que a concentração de aeronaves, técnicos, infraestrutura e experiência operacional tende a criar um verdadeiro “hub” continental da plataforma, algo semelhante ao papel que a Polônia vem assumindo em programas terrestres e blindados.
Para Moscou, a expansão da frota ucraniana de F-16 representa um problema estratégico crescente, já que, embora não seja uma solução mágica para o conflito, sua combinação com mísseis ocidentais, radares modernos, sistemas de guerra eletrônica e integração de dados amplia significativamente a capacidade de defesa aérea e ataque da Ucrânia. Mais importante ainda, demonstra que o apoio ocidental está estruturado em uma visão de longo prazo para a sustentação do poder militar de Kiev.
Com isso o cenário que emerge é singular: enquanto a Europa Ocidental migra progressivamente para frotas de quinta geração, a Ucrânia consolida-se como a principal potência aérea europeia baseada no F-16, tornando-se o último grande bastião continental do caça que marcou a história da aviação militar ocidental nas últimas décadas.
E todo esse processo pode garantir uma maior oferta de componentes paras as forças aéreas que operam o F-16, mas limitará, significamente, a oferta desses caças no mercado de aeronaves de “segunda mão”.
