T&D HISTÓRIA – A Saga dos Curtiss Falcon no Brasil

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ESPECIAL: T&D HISTÓRIA E MILITARIA

Em comemoração aos 88 anos Revolução Constitucionalista, o último grande conflito armado no Brasil, Tecnologia & Defesa reedita uma matéria especial, atualizada, sobre um importante, surpreendente e desconhecido representante da arma mais revolucionária utilizada neste conflito, o avião.

 

Um Avião Sob Quatro Bandeiras

De um lote originalmente fabricados para serem operados pelo Chile, estes aviões de combate foram utilizados também pelo Paraguai durante a Guerra do Chaco, pelos constitucionalistas durante a Revolução de 1932 e posteriormente pela Aviação Militar do Exército Brasileiro.

 Por Hélio Higuchi e Paulo Roberto Bastos Jr.

 

Durante o ano de 1932, a América do Sul foi palco de dois conflitos com uso efetivo da aviação como arma militar: a Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, e a Revolução Constitucionalista no Brasil. Embora fosse toda uma nação contra apenas dois Estados da Federação, o principal Estado revoltoso era São Paulo, que por ser já na época uma potencia industrial e agrícola, prolongou por três meses o conflito com intensos combates e perdas de muitas vidas.

Em julho daquele ano, logo que a revolução foi deflagrada, uma das preocupações das forças constitucionalistas, era a capacidade de abastecer com armas e munições para fazer frente às tropas federais. Além da fabricação de munição, as indústrias paulistas projetaram e construíram vários armamentos como trens blindados, carros de combate, armas leves e etc., entretanto não dispunham de estrutura para fabricar aviões. Cientes da necessidade de frear a força industrial paulista, porém evitando atingir a população civil, as tropas federais bombardearam com aviões as usinas de transformação de energia. Pelo lado constitucionalista, a escassez de peças de artilharia fez com que a aviação desempenhasse o papel que visava substituir esta arma, porém o escasso numero de aviões obrigou a voar inúmeras missões e em várias frentes simultaneamente, desgastando-os rapidamente.

A primeira bandeira: os Curtiss Falcon montados no Chile para sua Aviação Militar (coleção de Antônio Sapienza)

 

A ordem de batalha dos aviões das forças federais e constitucionalistas

A aviação das forças federais era composta pela Aviação Militar, do Exército, e pela Aviação Naval, da Marinha, que embora estivessem equipados com muitos aviões (a Aviação Militar com mais de 130 aviões e pelo menos 75 da Aviação Naval) poucos eram aviões de combate, além de muitos estarem indisponíveis, e destes os que participaram ativamente dos combates foram:

Aviação Militar: um caça Nieuport NiD-72C.1 Delage, dois bombardeiros Amiot 122Bp.3, nove aviões de observação e ataque Potez 25 T.O.E., quatro treinadores De Havilland DH60T Moth e três treinadores armados Waco CSO.

Aviação Naval: seis aviões de observação e ataque Vought O2U-2A Corsair, sete hidroaviões de patrulha e bombardeiro Savoia Marchetti SM-55A (dos onze trazidos da Itália um ano antes por via aérea pelo comandante Ítalo Balbo), três hidroaviões de patrulha e bombardeiro Martin PM-1B, três treinadores De Havilland DH60 Moth e dois treinadores Avro 504N.

A Aviação Constitucionalista, criada em 15 de julho de 1932 e comandada pelo Major Lysias Augusto Rodrigues, era composta de dois aviões de observação e ataque Potez 25 T.O.E. (matriculas A-116 e A-212) e dois treinadores equipados com cabides para bombas Waco 225 (matrículas C-2 e C-3) capturados das forças federais, alem de uma miríade de aviões civis requisitados de particulares e aeroclubes de capacidade combativa quase nula.

Durante os primeiros dias da revolução recebeu dois novos reforços: um treinador armado Waco CSO e um caça sesquiplano Nieuport NiD-72C.1 Delage (matricula K-421), trazidos em vôo por dois dissidentes, respectivamente o Tenente Arthur Motta Lima e Capitão Adherbal da Costa Oliveira.

 

Aquisição de novos aviões

Logo a aviação mostrou para ambos os lados que era uma arma essencial, pois embora na época tivessem pouca eficácia em atingir os alvos, seu efeito psicológico às tropas em terra era devastador, o que motivou a necessidade de adquirir novos aviões, obrigando os dois lados a procurar fornecedores no exterior.

O primeiro fornecedor procurado pelo governo federal foi à França, na época a mais importante fornecedora de equipamento para nossas Forças Armadas, pois vigorava a Missão Militar Francesa, e além da doutrina militar os principais equipamentos bélicos também eram franceses. Um lote de munição foi encomendado e um total de 18 milhões de francos pago. Todavia, o governo francês alegando “dever humanitário” recusou a concretizar a transação, embora tenham ocorrido várias tentativas por intermédio de diplomatas, além da decisão não ser alterada, postergou-se ao máximo a devolução do dinheiro já pago. Talvez por este motivo, a partir desta data não mais foram adquiridos equipamentos bélicos franceses, principalmente aviões, prática rompida somente na década de 70 com a aquisição de caças Mirage III.

A segunda opção procurada pelo governo federal foi os Estados Unidos da América, que na época fornecia equipamento bélico ao Brasil através da importadora Casa Mayrink Veiga S/A. Este país, recém saído da crise de 1929, não hesitou em fornecer equipamentos bélicos ao Brasil, vendendo pelo menos duzentos aviões incluindo Waco CSO, Waco CTO, Waco RNF, Bellanca Pacemaker, Vought V66-B Corsair e os, então moderníssimos, caças Boeing F4B4, entregando ao Brasil antes mesmo da US Navy.

O governo federal além da necessidade de importar material bélico procurava pelos meios diplomáticos impedir, a todo custo, que algum país eventualmente fornecesse armas para os constitucionalistas, que procuravam desesperadamente não só equipamentos bélicos, mas também combustível notadamente para a aviação.

Apesar de uma forte presença de imigrantes italianos e espanhóis em São Paulo, os constitucionalistas só podiam recorrer a países vizinhos, pois o porto de Santos estava sob bloqueio naval, impedindo o tráfego livre de navios. Um dos poucos recursos que o Estado de São Paulo possuía era trocar armas com a exportação de café, enviados por via fluvial e terrestre ao Paraguai saindo do Estado do Mato Grosso (o segundo Estado da Federação que aderiu aos constitucionalistas). Vários emissários foram enviados aos países vizinhos notadamente ao Paraguai e para a Argentina na tentativa de adquirir armas, entretanto o Paraguai estava em plena guerra com a Bolívia, e a Argentina muito pouco podia oferecer. O alto comando das forças constitucionalistas tinha como principais agentes de compras na Argentina, Albert J.Byington Jr, e o tenente Orsini Coriolano de Araújo que era aviador.

A Surpreendente aquisição de aviões pelos constitucionalistas

Em 1930 a Curtiss-Wright, tradicional fábrica de aviões dos Estados Unidos, através de um convenio com a Aviação Militar Chilena, instalou uma linha de montagem de modernos aviões de observação e ataque D-12 Falcon. Embora toda a produção de 20 aviões fosse destinada a aviação militar chilena, devido a uma crise naquele país agravada após a queda do Presidente da Republica Carlos Ibáñez del Campo, quase a metade dos aviões produzidos não havia sido entregue aguardando destino em 1932. Nove deles chegaram a entrar em combate na conhecida “Rebelion de los Marineros“, em setembro de 1931, quando atacaram o encouraçado “Almirante Latorre”e o cruzador “O’Higgins”, para sufocar a rebelião da Marinha Chilena.

Anuncio na edição de setembro de 1932 da Revista “Chile Aéreo”,da “Fabrica de Aeroplanos Curtiss-Wright”

O Curtiss Falcon era um moderno biplano de ataque e observação, equipado com um motor Curtiss V-1150-5 de 435HP, que desenvolvia 225 km/h e tinha raio de ação de 1000 km. Com uma tripulação composta de dois homens (piloto e observador), era armado com quatro metralhadoras .30′ dianteiras (dois sob a asa e dois no nariz), 2 metralhadoras .30′ montadas numa torre giratória operada pelo observador, e capacidade para levar 90 kg de bombas.

Com a eclosão da Guerra do Chaco, a América do Sul começou a ser vista como um promissor mercado para vender aviões militares, tanto que foi enviado a Buenos Aires C.K. Webster, presidente da Curtiss-Wright Export Corporation subsidiária da Curtiss-Wright. Os dois agentes constitucionalistas Byington Jr, e Coriolano de Araújo contataram Webster, e negociaram a compra dos Curtiss Falcon excedentes produzidos no Chile. A venda satisfazia todas as partes envolvidas: a Curtiss-Wright e o Chile, que se livrava da produção excedente, e os constitucionalistas, que desesperadamente necessitavam de aviões de combate. Foram adquiridos um total de nove aviões ao preço unitário de US$ 31 mil para os dois primeiros e US$ 27,5 mil para os subsequentes (outra fonte menciona como sendo um total de US$ 292,5 mil).

Além do valor pago os constitucionalistas tiveram várias despesas adicionais:

_ Existem fontes citando que para liberar os aviões, tiveram que pagar para membros do Ministério da Guerra do Chile US$ 3131,51 por cada avião. Com esta liberação conseguiu-se inclusive autorização para que os Curtiss Falcon saíssem da fábrica completos, inclusive com as metralhadoras;

_Tanto os Estados Unidos, o Chile e o Brasil eram signatários do Tratado de Havana de 1928, que impedia o fornecimento de equipamento bélico a forças revoltosas, conseqüentemente a venda era ilegal; e Webster e os constitucionalistas tiveram que arrumar um suposto “comprador”, pagando US$ 25mil a uma empresa argentina.

A entrega dos aviões tinha que ser feita por via aérea, passando por território argentino e paraguaio até chegar ao Mato Grosso. Webster contratou pilotos estadunidenses e ingleses para fazer a entrega até o Mato Grosso, aonde foram substituídos por pilotos constitucionalistas.

No final de agosto saíram do Chile os dois primeiros Curtiss Falcon. Um deles pilotado pelo mercenário britânico William Hillcoat aterrissou na cidade de Concepción, no Paraguai, em  24 de agosto, e foi confiscado pelo governo daquele país. Outras fontes citam como este avião ter deliberadamente pousado em território paraguaio para ser entregue ao governo daquele país como pagamento para a permissão de todos os outros passarem livremente e serem reabastecidos. Este Curtiss Falcon, que recebeu matricula Nº17 da Aviação Militar Paraguaia, foi extensivamente utilizado durante a Guerra do Chaco servindo em algumas ocasiões como avião presidencial daquele país, sendo somente descarregado em 1943.

A segunda bandeira: o Falcon dado como forma de pagamento ao Paraguai para permitir que os outros oito pudessem reabastecer-se no seu território durante as viagens de entrega. Nas cores da Aviação Militar Paraguaia,
recebeu matrícula Nº17 e combateu na Guerra do Chaco (coleção de Antônio Sapienza)

Em 03 de setembro durante uma das viagens de entrega outro Curtiss Falcon aterrissou por engano em Capitan Balo, território paraguaio na fronteira com a cidade mato-grossense de Patrimônio União, sendo também confiscado pelas autoridades locais. Os constitucionalistas, entretanto, conseguiram liberar o precioso avião trocando-o por dois fuzis-metralhadoras e 10 mil cartuchos de munição.

Os aviões foram entregues gradativamente sendo os últimos quatro entregues em 27 de setembro. Apesar de serem adquiridos nove aviões, e oito efetivamente chegarem ao território brasileiro, nunca foram vistos mais do que três aviões em cada missão. Consta que alguns tiveram problemas de disponibilidade, e pelo menos um deles teve a hélice inutilizada durante a tentativa de sincronização das metralhadoras dianteiras.

A terceira bandeira: A Aviação Constitucionalista, que não teve tempo para pintar insígnias, devido à urgência de colocá-los em ação. Esta foto, provavelmente, foi tirada no Rio de Janeiro após o fim da revolução e já nas mãos da Aviação Militar do Exército (foto coleção de Alberto Leal)

Os Curtiss Falcon constitucionalistas em combate

Apesar de ter sido um reforço considerável para a combalida aviação constitucionalista, a vinda destes aviões foi tardia. Em setembro, grande parte do território paulista já havia sido conquistada pelas tropas federais, e os Curtiss Falcon pouco puderam fazer na tentativa de reverter este quadro.

No dia 03 de setembro, no Estado do Mato Grosso, assim que foram recebidos os primeiros aviões, um deles, pilotado por Orton Hoover (instrutor estadunidense que ajudou a criar o Grupo Misto de Aviação da Força Pública do Estado de São Paulo) e tendo como observador Juvenal Paixão, atacou o monitor fluvial “Pernambuco” que navegava no Rio Paraguai perto de Porto Esperança. Dois dias depois ele repetiu o ataque infringindo avarias no monitor. A região do Rio Paraguai era guarnecida por dois treinadores obsoletos Avro 504 N/O da Aviação Naval baseados em Ladário, equipados com flutuadores e armados com uma metralhadora Vickers calibre .303′ adaptada, pois esses eram aviões originariamente desarmados.

O Curtiss Falcon constitucionalista “TAGUATÓ”, provavelmente, fotografado no front Matogrossense (via Ivan Plavetz)

A maior vitória da aviação constitucionalista ocorreu em 21 de setembro, quando dois Curtiss Falcon, um Waco 225 e o único Nieuport Delage atacaram o campo de pouso das forças federais na cidade de Mogi-Mirim, no Estado de São Paulo, destruindo em terra dois Waco CSO e avariando severamente outros dois, todos eles novos e recém recebidos dos Estados Unidos.

No dia 24 de setembro, ocorreu a missão mais emblemática com a participação dos Curtiss Falcon. As forças constitucionalistas necessitavam desesperadamente permitir que o cargueiro USS “Ruth” com víveres e armamento entrasse no porto de Santos. Os aviões atacaram a frota de belonaves federais que bloqueavam a entrada do porto, tentando distraí-los enquanto o cargueiro conseguisse passar pelo bloqueio.

A missão foi efetuada pelos Curtiss Falcon “KAVURÉ-I”, pilotado por José Ângelo Gomes Ribeiro e tendo como observador Mario Bittencourt, o “KYRI-KYRI”, com Lysias A. Rodrigues e Abílio Pereira de Almeida, além do Waco 225, com Mota Lima e Hugo Neves, todos armados com bombas de 30 libras, e deveria contar também com a possível participação de um Latécoère Late 26.2R (matrícula F-AILD), confiscado da empresa francesa Aéropostale e rusticamente transformado em bombardeiro, mas este avião não compareceu a tempo. O bloqueio naval era composto pelo cruzador C11 “Rio Grande do Sul” e pelos contratorpedeiros CT2 “Pará”, CT6 “Alagoas” e CT7 “Sergipe”.

Curtiss Falcon “KAVURÉ-I” com faixas pretas na fuselagem indicando pertencer à Aviação Constitucionalista (via Ivan Plavetz)

Os três aviões seguem voando em direção ao alvo, com os Curtiss Falcon voando entre 1600 a 1800 metros de altura e o Waco bem vindo mais baixo, quando diante do farol da Ilha da Moela é avistado o Cruzador “Rio Grande do Sul”. Nesse momento o “KAVURÉ-I” lança-se sobre a belonave e encontra uma forte barragem antiaérea, em seguida Lysias vê uma bola de fogo no ar, que pouco depois, choca-se com a água, levantando uma forte coluna: a aeronave explodira e seus pilotos faleceram na hora. Os outros dois aviões conseguem lançar suas bombas, mas o efeito foi nulo na tentativa diversiva dos navios que bloqueavam o porto.

O Falcon constitucionalista “KYRI-KYRI” armado com bombas sob as asas e uma metralhadora Lewis na torre do observador (via Ivan Plavetz)

Este episódio tem duas versões distintas: os paulistas afirmam houve um problema técnico, um engasgamento de uma válvula com retorno da chama para o tanque que ocasionou a explosão ou com a detonação prévia de sua bomba, a base de clorato de potássio, mas a Marinha reivindica o abate da aeronave com as suas duas metralhadoras antiaéreas Hotchkiss, de 13,2 mm, que haviam sido recentemente retiradas do Submarino “Humaytá” e instaladas no Cruzador, sendo esta a hipótese mais plausível.

A última ação de vulto dos Curtiss Falcon durante o conflito, foi o ataque ao Arsenal de Marinha de Ladário. No final de setembro, após a retirada das tropas constitucionalistas da região de Porto Esperança, o Arsenal recebeu um ultimado dos constitucionalistas para que abandonassem as suas instalações, senão seriam atacados pelos aviões dos rebeldes. Como não havia defesa antiaérea e os dois Avro 504 N/O não eram páreos para os Curtis Falcon, foram adaptados ás pressas canhões de 47 mm e 57 mm na canhoneira “Oiapock” com armação que permitiam tiros com grande elevação.

No início de outubro, três Curtiss Falcon provenientes de Campo Grande, atacaram o Arsenal, lançando bombas e efetuando ataques contra o rebocador “Voluntário” com tiros de metralhadoras e causando consideráveis danos. Os Avro 504 N/O não decolaram, mas a “Oiapock” e abriu fogo, obrigando os atacantes a se retirarem.

Os aviões constitucionalistas tinham como identificação 2 faixas negras pintados nas pontas de cada asa, e não possuíam numeração. Entretanto alguns deles foram batizados como o Nieuport Delage de “NEGRINHO e o Potez 25 T.O.E. A-212 de “NOSSO POTEZ”. Os Curtiss Falcon não possuíam quaisquer insígnias, sendo a pintura de alumínio natural, tal quais saíram da fábrica, porem pelo menos quatro deles foram batizados pelos constitucionalistas e tiveram seus nomes escritos na carenagem: “KAVURÉ-I”, “KYRI-KYRI” “TAGUATÓ”, e “JOSÉMARIO”, esse último em homenagem ao dois tripulantes mortos no ataque ao cruzador “Rio Grande do Sul”.

A quarta bandeira: a Aviação Militar do Exército, no Nu 3º RAv, em Santa Maria/RS. Na Linha de aviões, da direita para a esquerda, pode-se ver dois Curtiss Falcon com motores originais, já o terceiro teve seu motor substituído por um radial. Ainda são visíveis mais seis Vought Corsair V-65 (Coleção de Alberto Leal)

 

Pós Revolução

A revolução constitucionalista terminou em 03 de outubro, e quando as tropas federais comandadas pelo Major Eduardo Gomes chegaram ao Campo de Marte em 15 de outubro, ordenou que todos os sete Curtiss Falcon sobreviventes fossem encaminhados ao Rio de Janeiro para serem incorporados na Aviação Militar do Exército.

Os protestos que o Governo Brasileiro encaminhou aos Estados Unidos e ao Chile, condenando a atitude da Curtiss-Wright em vender aviões aos constitucionalistas, violando o Tratado de Havana de 1928, surtiram efeito, obrigando C.K. Webster a confessar a sua culpa durante uma comissão de inquérito do Senado estadunidense presidida pelo Senador Gerald Nye, que investigava as atividades da indústria bélica daquele país.

Curtiss Falcon Nº 2 da Aviação Militar do Exército (Coleção de Alberto Leal)

Na Aviação Militar do Exército os Curtiss Falcon foram operados inicialmente pelo Núcleo do 3º Regimento de Aviação (Nu 3º RAv), em Santa Maria-RS. Em 1937, sob nova denominação de 3º Regimento de Aviação (3º RAv), são transferidos para Canoas/RS, sendo o ultimo deles finalmente descarregado em 1941. Nesse ínterim, pelo menos dois deles tiveram seus motores originais V-1150-5 substituídos no Brasil por motores radiais, entretanto desconhece-se o comportamento deles após esta mudança.

Equivocadamente bibliografias do Brasil mencionam o Curtiss Falcon como sendo do modelo O-1E, entretanto esta nomenclatura pertence somente às aeronaves que foram fabricadas sob encomenda para a Aviação do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC), e os fabricados no Chile além de não fazerem parte deste lote possuíam também algumas diferenças.

Para um avião que tinha o destino incerto por causa do fechamento da fábrica no Chile, pode-se afirmar que a carreira deles foi intensa.

Rara foto de um dos dois Curtiss Falcon do Exército que tiveram seu motor original substituído por um motor radial (Coleção de Carlos Dufriche, via Alberto Leal)

Os Curtiss D-12 Falcon adquiridos pelos Constitucionalistas

Nº de fábrica Matrícula Inicial da Aviação Militar Matrícula Posterior Descarga Observações
1 1993 1 3-111 1937
2 1994 —– 1943 Retido no Paraguai
3 1995 2 3-112 1940 Motor radial
4 1996 3 3-113 1938
5 1997 4 3-114 1938 Motor radial
6 1998 5 3-115 1941
7 1999 6 3-116 1936
8 2000 7 3-117 1940
9 ? —– —- Derrubado em 24/09/1932

 

O Curtiss Falcon, já nas cores do 3ºRAv, acidentado durante o pouso, provavelmente em Canoas/RS (Coleção de Alberto Leal)

 

Nota da Redação

Tecnologia & Defesa e os autores registram seus agradecimentos a valiosa colaboração para conclusão desse trabalho às seguintes pessoas:

_ Alberto Leal, Pesquisador aeronáutico, Rio de Janeiro;

_ Antonio Luis Sapienza, Pesquisador aeronáutico, Paraguai;

_ Cláudio Cáceres Godoy, Pesquisador aeronáutico, Chile;

_ Dan Hagedorn, Curador e diretor de coleções do Museum of Flight – Seattle, EUA.

 

Capa do Encarte T&D História e Militaria, publicado originalmente na edição n.118, em 2009. Arte da capa de Vladimir Rizzetto

Referências

CASELLA, José Leandro Poerchke Casella; CUNHA, Rudnei Dias. Já te Atendo Tchê – A Historia do 1º/14º GAV, Esquadrão Pampa. Rio de Janeiro, Brasil: Action Editora, 2005

FUERZA AEREA DE CHILE. Historia de la Fuerza Aérea de Chile Tomo I. Santiago, Chile: Instituto Geográfico Militar, 2001.

HAGEDORN, Daniel. Latin American Air Wars and Aircraft 1912-1969. London, UK: Hikoki Publications, 2005

HAGEDORN, Daniel; SAPIENZA, Antonio L. Aircraft of the Chaco War. Philadelphia, USA: Schiffer, 1997

HILTON, Stanley. 1932 A Guerra Civil Brasileira. Rio de Janeiro, Brasil: Editora Nova Fronteira, 1982

LAVANIÉRE-WANDERLEY, Nelson Freire. História da Força Aérea Brasileira. Rio de Janeiro, Brasil: Ministério da Aeronáutica,1966

RODRIGUES, Lysias. Gaviões de Penacho. Rio de Janeiro, Brasil: Incaer, 2000

A TRIBUNA, jornal. Mergulhador procura avião abatido em 32. Santos, 30/09/1984

 

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1 Comentário

  1. Bastos, só faltou dizer quantos parafusos tinha cada avião. Obrigado por mais uma bela e detalhada matéria.
    Abs.

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