A modernização da Força Blindada do Exército entra em um momento crucial

Atualmente o Exército Brasileiro (EB) passa por um momento delicado e precisa enfrentar uma decisão que já não pode ser adiada, a modernização de sua Cavalaria e Infantaria blindada. Essa discussão é muito relevante por se tratar não só de uma necessidade atual, mas sua decisão moldará a capacidade de combate da Força Terrestre pelas próximas três ou quatro décadas.

A guerra na Ucrânia, que se tornou um grande laboratório para os combates terrestres do futuro, recolocou os blindados no centro das operações terrestres, pois, ao contrário das previsões, que diziam que estes perderiam sua relevância, o conflito demonstrou exatamente o oposto: o que mudou foi sua forma de emprego.

Hoje, viaturas blindadas de combate carros de combate (VBC CC), viaturas blindadas de combate de fuzileiros (VBC Fuz), sistemas aéreos remotamente pilotados (os “drones”), guerra eletrônica, sensores de todo o tipo, sistemas de comando e controle (C2) e defesa antiaérea de curto alcance atuam de forma muito mais integrada, amplificando e maximizando seu poder.

Nesse contexto, o EB enfrenta dois desafios igualmente importantes, sendo o primeiro, e mais urgente, a necessidade de substituir as VBC CC Leopard 1A5BR, uma plataforma concebida durante a Guerra Fria que, apesar das modernizações recebidas, apresenta limitações operacionais, logísticas e de potencial de crescimento. Seu projeto original remonta a mais de seis décadas, refletindo uma realidade tecnológica completamente distinta da atual.

A segunda é definir o sucessor da viatura blindada de transporte de pessoal M113BR, que continua cumprindo sua missão com competência, mas cujo projeto também foi desenvolvido na década de 1960 e já não atende às exigências do tetro de operação moderno, principalmente em operações em que tenha que entrar em combate direto. E mais do que substituir esse vetor, o EB precisa preencher uma lacuna histórica, já que nunca dispôs de uma verdadeira VBC Fuz sobre lagartas.

Conhecidas internacionalmente como “infantry fighting vehicle” (IFV), são viaturas projetadas não apenas para transporte de fuzileiros, como os M113, mas para garantir um grande poder de fogo contra as tropas adversárias e acompanhar as VBC CC na linha de frente com o mesmo nível de mobilidade e proteção, capacidade essa que se tornou indispensável. Os conflitos recentes demonstraram que a falta da liberdade de manobra para os blindados sem a proteção e o acompanhamento de uma tropa embarcada, transforma as VBC CC em meros alvos.

No cenário atual, enquanto a VBC CC concentra seu poder de fogo sobre posições fortificadas e blindados inimigos, a VBC Fuz transporta a tropa até o objetivo, desembarca os militares e continua apoiando o avanço com seu armamento, sensores e proteção blindada. Além disso, neutraliza equipes anticarro, drones, emboscadas e outras ameaças que as VBC CC, sozinhas, não conseguem enfrentar com a mesma eficiência. É essa combinação que garante mobilidade, sobrevivência e capacidade ofensiva às forças blindadas mais modernas do mundo.

Com isso, e levando em conta a realidade atual da Força Terrestre, a modernização da Cavalaria e da Infantaria blindada deveria ser conduzida como um único programa estratégico, com o futuro VBC CC e o novo VBC Fuz pertencendo à mesma família de veículos, compartilhando a maior quantidade possível de componentes e sistemas. Essa comunalidade logística reduz custos de aquisição e operação, simplifica a manutenção, facilita o treinamento das tripulações, racionaliza a cadeia de suprimentos e aumenta significativamente a disponibilidade operacional da frota.

(Foto: Rogerio Kocuka)


UMA ESCOLHA POLÍTICA

Outro ponto que deve ser levado em conta é que, devido as constantes mudanças que ocorrem no “tabuleiro de xadrez” da geopolítica, essa plataforma deve ter o maior número de componentes críticos produzidos no país, ou que não façam parte de órgãos reguladores como o ITAR (International Traffic in Arms Regulations), dos Estados Unidos, ou BAFA (Bundesamt für Wirtschaft und Ausfuhrkontrolle), da Alemanha. O Brasil precisa preservar sua autonomia estratégica, garantindo liberdade para produzir, integrar sistemas nacionais, realizar modernizações e manter seus veículos operacionais sem depender de autorizações políticas externas, pois, em um cenário internacional cada vez mais incerto, essa independência deixa de ser apenas uma vantagem e torna-se um requisito operacional.

A escolha do parceiro internacional também deve ser orientada por uma visão de longo prazo. Mais do que adquirir blindados, o Brasil deve construir uma parceria estratégica com um país confiável, disposto a compartilhar tecnologia, desenvolver fornecedores nacionais e fortalecer a Base Industrial de Defesa, com o objetivo não deve ser apenas fabricar localmente as viaturas, mas desenvolver competências industriais e tecnológicas que permitam ao país manter, modernizar e evoluir essas plataformas ao longo de sua vida útil.

O fator tempo também exige atenção, pois entre a definição dos requisitos operacionais, a seleção da plataforma, as negociações governamentais, a transferência de tecnologia, a nacionalização da produção e a entrada em serviço operacional, normalmente transcorrem entre cinco e dez anos, e cada decisão adiada hoje representa um atraso que poderá comprometer a capacidade operacional do Exército no futuro.

A modernização da força blindada brasileira não é apenas um programa de renovação de frota, mas uma decisão estratégica que influenciará diretamente a capacidade de dissuasão, a liberdade de manobra e o poder de combate da Força Terrestre pelas próximas décadas, e o momento de decidir é agora, pois seu adiamento significa ampliar uma lacuna operacional que o Brasil já não pode se permitir manter.

(Foto: Hélio Higuchi)

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Respostas de 8

  1. Excelente artigo. Estamos na torcida pelo Tulpar. A parceria com a Turquia reúne todas as condições para o Brasil modernizar sua família de veículos blindados.

    1. o problema não é adquirir plataformas mas sim o que fazer com elas ou primeiro se troca o pensamento lógico ou em pouco tempo a plataforma adquirida perderá todos os itens de tecnologia agregados irão somente atirar paradas, com estrada manual de distancia ,de dia ,nos diversos módulos degradados de tiro

  2. tulpar esse e o tank , e depois dessa aquisição começam a desenvolver um tank nacional , ta na hora de botar a mão.na massa e nao ficar de muita conversa.

  3. Sou leigo no assunto mas leio um pouco a respeito do assunto, e também vejo através de artigos relacionados à guerra entre Rússia e Ucrânia publicados e falados, e da p/ver que o progresso se faz presente na constante atualização das tecnologias e com intervalos bem pequenos, e se presume que realmente o Brasil tem que se apressar p/que seus equipamentos bélicos estejam se adequando no menor espaço de tempo possível, creio que a engenhosidade, a capacidade técnica de nossos profissionais e dos que integram o EB, são muito capazes e já devem ter projetos no sentido de poder tornar + moderno e eficiente novos veiculos blindados, todavia há um gargalo que não permite uma projeção + rápida e efetiva p/que exista algo concreto; que é o desvio de grandes e virtuosas verbas, p/ pagar um número muito grande de indivíduos que não trazem a rigor e em geral através de seus “trabalhos” resultados que gerem dinheiro suficiente p/pesquisas e consequentemente finalização dos equipamentos bélicos p/defesa do país que poderão atender a modernização de todo esse conjunto de itens importantíssimos no atual cenário mundial. São BILHOES E BILHOES de REAIS destinados sabe-se lá p/ quem é p/qual finalidade são destinados, que dessa forma são denomi após de ORÇAMENTOS SECRETOS, e também as tais EMENDAS PARLAMENTARES, VERBAS PARTIDÁRIAS, isso somado a salários altíssimos , mordomias sem limite, a Nível Nacional, desse grandes Legisladores, mas que tambem podem ser vistos nos dois outros poderes, Executivo, Judiciário., há exceções dentre os primeiros citados, mas imagino que se houvesse um.numero menor de integrantes legislativos,nas Câmaras Municipais, nas Assembléias Legislativas, no Congresdo Nacional e + rigor, atenção e contenção de todo esses BILHÕES de REAIS , parte muito grande gastos c/inutilmente, estaríamos aptos a concretizar oq já deveria estar pronto a nivel da Defesa Nacional, p/honrosos e capacitados integrantes do nosso Exército Brasileiro e das Forcas Armadas, como um todo, Aeronáutica e Marinha. O BRASIL tem capacidade de atingir um nivel de excelência através de milhares de profissionais civis e militares! Muito bom artigo.

  4. Excelente artigo! A parceria com a Turquia não é só superior em alguns fatores essenciais, é A ÚNICA opção razoável em TODOS os fatores críticos que vão fazer a diferença por décadas: autonomia, geopolítica, tecnologia de ponta, soberania, adaptação à necessidade brasileira, revolução militar, TUDO.

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