É hora de aproveitar o momento para reduzir a assimetria militar em relação às potências militares.
Coronel Daniel Longhi Canéppele
Na estratégia militar, na ciência política e na economia, o conceito de “Military Leapfrogging”, traduzido literalmente como “Salto de Rã Militar”, é uma analogia a um salto tecnológico militar em que nações podem pular estágios intermediários do desenvolvimento de tecnologias para adotar recursos avançados e de última geração de uma só vez, ultrapassando etapas tradicionais de desenvolvimento. Essa dinâmica articula-se diretamente com duas outras teorias centrais: a Teoria das Janelas de Oportunidade (“Windows of Opportunity”) e a da Mudança de Paradigma Tecnológico.
Este conceito se relaciona com a criação de uma “janela de atalho” para os países que não são potências militares e que é perfeitamente aplicável ao momento em que vivemos, com o surgimento de tecnologias militares disruptivas como os drones, a inteligência artificial e armas hipersônicas.
SALTO TECNOLÓGICO MILITAR
O conceito de “leapfrogging” dita que uma nação militarmente mais atrasada ou sem orçamento para cobrir décadas de infraestrutura não precisa passar pelas mesmas etapas intermediárias de desenvolvimento de uma potência dominante. Em vez disso, ela “pula” uma geração inteira de tecnologia diretamente para a disruptiva.
Tente imaginar um país fictício que investiu bilhões para pesquisar, desenvolver e, por fim, produzir um helicóptero de combate com todo o aparato tecnológico e letalidade. Depois, ao longo das décadas, passou a evoluir este meio, a agregar novos recursos, a montar uma estrutura logística de suporte, a construir fábricas, a gerar empregos para engenheiros e mecânicos, a firmar contratos com fornecedores etc. Por fim, surge o drone aéreo com um explosivo amarrado, a um custo ínfimo, e este é capaz de neutralizar o mesmo helicóptero. E agora?
Surgiu para o país fictício o dilema do incumbente militar, que acontece quando potências tradicionais podem perder a capacidade de adaptação porque gastam todos os recursos em armamentos gigantescos e tradicionais. O conceito criado pelo pesquisador Clayton Christensen explica que líderes de mercado, ou nações dominantes, ignoram inovações baratas no começo porque focam apenas nos clientes ou nas ameaças de alto lucro.
O país fictício agora possui bilhões investidos em sistemas legados (porta-aviões, caças de 5ª geração, blindados pesados) e estruturas doutrinárias rígidas. Estes sistemas consomem grande parte do orçamento anual com sua manutenção. Somado a isso, fábricas e empregos dependem da produção desses equipamentos militares, enquanto alterar a rota exige abandonar bilhões de dólares já investidos em tecnologia antiga.
Países que não empenharam seus recursos no desenvolvimento de seus helicópteros estão em desvantagem por não disporem deste material, mas, em contrapartida, não têm custos de legado. Eles podem desenvolver drones militares e reduzir a assimetria militar em relação aos países que investiram em seus helicópteros nacionais.
TEORIA DA MUNDANÇA DE PARADIGMA TECNOLÓGICO (PEREZ & SOETE)
Desenvolvida originalmente por Carlota Perez e Luc Soete, a teoria aponta que, quando surge um novo paradigma tecnológico (por exemplo, a inteligência artificial, o combate de enxames de drones ou armas hipersônicas), o conhecimento prévio dos líderes mundiais em tecnologias antigas perde parte considerável do valor.
Nesse instante exato, abre-se a Janela de Oportunidade:
- A nova tecnologia ainda está em estágio embrionário no mundo todo;
- O conhecimento relevante sobre ela está incipiente ou em fase de teste e padronização; e
- Nações mais pobres podem alocar recursos focados na nova tecnologia, nivelando a capacidade teórica em um domínio específico.
A ameaça das tecnologias disruptivas proporciona exatamente este cenário:
- Drones de baixo custo: Pequenos robôs aéreos destroem blindados e helicópteros caros gastando pouco;
- Guerra cibernética: Ataques digitais paralisam redes inteiras sem disparar um único tiro;
- Inteligência artificial: Sistemas autônomos decidem combates mais rápido do que humanos treinados.
CONDIÇÕES OBRIGATÓRIAS PAR O “ATALHO” FUNCIONAR
A literatura (como nos estudos do “Center for Strategic and International Studies” – CSIS – e análises da “RAND Corporation”) alerta que a tecnologia por si só não garante o salto. O investimento massivo só converte a janela em vantagem se houver:
- Rápida Adaptação Doutrinária: A nação precisa criar táticas novas para a tecnologia disruptiva, em vez de tentar encaixar a nova ferramenta em doutrinas antigas;
- Capacidade de escala industrial/produtiva: A tecnologia precisa ser barata o suficiente para ser produzida ou comprada em massa; e
- Ausência de reação assimétrica do incumbente: O país dominante tentará usar sua escala financeira para cobrir a lacuna e neutralizar a ameaça antes que a janela se feche.
Além disso, a viabilidade desse salto tecnológico apoia-se no princípio da razão custo-troca no contexto das guerras de atrito contemporâneas. A disrupção não reside apenas na inovação técnica, mas na capacidade de impor um desgaste econômico insustentável ao oponente, destruindo ativos de centenas de milhões de dólares com vetores de poucas milhares de unidades monetárias.
Contudo, para que essa assimetria seja traduzida em poder militar real, a Base Industrial de Defesa (BID) precisa superar a fase de prototipagem e alcançar altos níveis de maturidade tecnológica, garantindo capacidade de produção em escala e rápida integração doutrinária.
A janela está aberta, mas se fechará logo. Quem achar que o helicóptero de combate do país fictício se tornou um meio obsoleto e será aposentado, errará feio, como erraram os que assim se posicionaram sobre os carros de combate quando do surgimento das armas anticarro.
As contramedidas evoluirão e logo saberão se contrapor aos drones. A questão não é “se”, mas “quando” isso acontecerá. Até lá, a corrida para incorporação destas tecnologias disruptivas já iniciou e quem ainda não começou a correr já está em desvantagem.