Em pouco mais de dois anos, a Marinha dos EUA revelou quatro novas armas de médio e longo alcance, incluindo sistemas hipersônicos, todos integrados ou em testes no caça embarcado
Entre 2024 e 2026, o Boeing F/A-18E/F Super Hornet recebeu quatro novos armamentos de médio e longo alcance, incluindo mísseis ar-ar, ar-solo e uma arma hipersônica. Embora tenham características e funções diferentes, os sistemas compartilham um elemento importante: todos estão sendo integrados ou testados no principal caça multimissão da Marinha dos Estados Unidos.
A sequência de aparições também revela uma mudança na forma como a aviação naval americana se prepara para um eventual conflito no Indo-Pacífico. Em um cenário envolvendo a China, a distância será um dos principais fatores a serem considerados. A capacidade de detectar, engajar e destruir alvos a centenas de quilômetros pode ser tão importante quanto a própria performance dos caças.

Em serviço desde o final dos anos 1990, o Super Hornet surgiu como uma evolução do F/A-18 Hornet e foi desenvolvido para substituir gradualmente o Grumman F-14 Tomcat. Embora não tenha a mesma performance do modelo imortalizado por Top Gun, o F/A-18E/F oferece menor custo operacional e uma combinação de capacidades que o tornou o principal vetor multifunção embarcado da US Navy.
A produção do Super Hornet deve terminar em 2027, mas o caça continuará nos convéses dos porta-aviões americanos até 2040, pelo menos. Nesse período, segue operando ao lado do F-35C Lightning II e acompanha a chegada do F/A-XX, futuro caça de sexta geração da Marinha dos EUA.
O modelo também é empregado pela Força Aérea Real Australiana, um dos principais aliados de Washington na região. A Austrália, assim como os Estados Unidos, vem adaptando suas capacidades militares ao ambiente estratégico cada vez mais disputado do Indo-Pacífico.
Gunslinger
A primeira dessas novas armas apareceu publicamente em julho de 2024. Durante o exercício RIMPAC 2024, realizado no Pacífico, um F/A-18E do VFA-192 “World Famous Golden Dragons”, foi fotografado em Pearl Harbor carregando dois exemplares inertes do então pouco conhecido (X)AIM-174B.
Conhecido como “Gunslinger”, o míssil é uma adaptação para emprego ar-ar do SM-6, originalmente desenvolvido como míssil superfície-ar para o sistema Aegis. A abordagem não é inédita nos Estados Unidos. Na década de 1960, o RIM-66 Standard MR, também desenvolvido como míssil naval superfície-ar, deu origem ao AGM-78 Standard ARM, empregado como armamento antirradar durante a Guerra do Vietnã.

Diferentemente dos outros sistemas abordados neste artigo, o AIM-174B não apareceu inicialmente em um Super Hornet de ensaios, mas logo em uma aeronave operacional. Somente em setembro daquele ano, um F/A-18F do esquadrão de testes VX-9 foi fotografado carregando quatro AIM-174B, além de AIM-120 e AIM-9X. Posteriormente, a Marinha confirmou publicamente que o armamento já havia entrado em serviço.
O tamanho do “Gunslinger” chamou atenção desde suas primeiras aparições. Com alcance estimado superior a 400 km, o míssil ocupa uma categoria bastante diferente daquela do AIM-120 AMRAAM, principal arma ar-ar guiada por radar empregada pelos Estados Unidos e por diversos aliados.
Na prática, o AIM-174B oferece ao Super Hornet uma capacidade de engajamento a distâncias ainda superiores às proporcionadas pelos armamentos tradicionais dessa classe. Uma característica especialmente relevante para um ambiente como o Indo-Pacífico, onde grandes distâncias separam bases, grupos de porta-aviões e possíveis alvos.
JATM
O segundo integrante dessa nova geração é o AIM-260 “Joint Advanced Tactical Missile” (JATM), desenvolvido pela Lockheed Martin. O programa foi revelado pela Força Aérea dos EUA em 2019, com o objetivo de complementar e posteriormente substituir o AIM-120 diante da evolução das ameaças aéreas chinesas, especialmente os mísseis de longo alcance PL-15 e PL-17.
O desenvolvimento do JATM começou em 2017 e permaneceu durante anos cercado de sigilo. Mesmo depois de sua revelação oficial, poucos detalhes sobre suas características foram divulgados publicamente.
Como observado pelo portal “The War Zone”, o AIM-260 deverá manter dimensões próximas às do AIM-120 para preservar a compatibilidade com plataformas atuais. Isso é particularmente importante para aeronaves como o F-22 Raptor e o F-35, que transportam seus armamentos ar-ar em compartimentos internos.

A primeira aparição pública do JATM ocorreu somente em maio de 2026, quando um exemplar foi fotografado sob um F/A-18F do esquadrão de testes VX-31. Mais recentemente, o míssil também foi visto em aeronaves da RAAF, que será o primeiro operador estrangeiro. Em agosto, Canberra confirmou que irá investir na compra de 450 unidades do tipo.
A presença do JATM no Super Hornet mostra que o caça embarcado também está sendo utilizado como plataforma para acelerar a integração de uma nova geração de armamentos, enquanto os Estados Unidos ampliam o alcance de suas capacidades de combate aéreo.
Malice
Em agosto de 2026, foi a vez do Malice entrar em cena. Designado AIM-424, o novo míssil de longo alcance sequer havia sido mencionado publicamente antes de aparecer sob a asa de um Super Hornet. A revelação ocorreu durante o simpósio anual da “Tailhook Association”, em Reno, Nevada.
Imagens posteriormente divulgadas pela Marinha dos EUA mostram o armamento em ensaios com o F/A-18E e em testes de integração nas baias internas de um F-35C.
Também chamado de LRAAM, sigla para “Long Range Air-to-Air Missile”, o Malice é um míssil de dois estágios equipado com motores-foguete de combustível sólido. O armamento pesa aproximadamente 680 kg, mede 4,2 metros de comprimento e possui diâmetro de 34 centímetros. Seu alcance declarado é superior a 463 km.

Pelas dimensões e pelo alcance, o AIM-424 ocupa uma posição intermediária entre o AIM-120 e o maior AIM-174B. Com isso, a Marinha dos EUA passa a trabalhar com diferentes categorias de armas de longo alcance, permitindo selecionar o armamento mais adequado de acordo com a ameaça e a missão.
O conceito está diretamente relacionado à necessidade de ampliar a capacidade de sobrevivência das aeronaves e aumentar a distância de engajamento. Segundo a US Navy, o LRAAM está associado à ideia de “Olhar, Atirar e Abater Primeiro”, buscando ampliar alcance, flexibilidade tática e capacidade de sobrevivência no combate aéreo.
Hipersônico
O quarto sistema surgiu em 18 de setembro de 2026, quando um Super Hornet realizou um voo de testes carregando dois exemplares do Blackbeard, descrito pela Marinha como um míssil hipersônico de ataque de longo alcance. As imagens foram divulgadas oficialmente em 30 de setembro pelo “Portfolio Acquisition Executive Aviation”.
O Blackbeard amplia a discussão porque não se trata de uma arma ar-ar. O sistema está sendo desenvolvido como uma arma de ataque terrestre lançada do ar, com o objetivo de oferecer aos caças embarcados uma opção de alta velocidade para penetrar ambientes altamente defendidos por sistemas de negação de área.

Em setembro, a Marinha também anunciou um contrato de produção do Blackbeard com valor potencial de até US$ 200 milhões, em uma iniciativa destinada a acelerar a transição da tecnologia para uma capacidade operacional.
A presença de dois exemplares sob um Super Hornet durante o teste mostra que a integração já avançou além de uma simples representação conceitual. Ainda assim, o sistema permanece em desenvolvimento, e o próprio voo de setembro foi descrito como uma etapa do processo para alcançar a capacidade operacional inicial.
Uma nova geração de armas
Em pouco mais de dois anos, quatro novos armamentos passaram a fazer parte do horizonte do Super Hornet. Essa sequência de integrações e testes mostra na prática a mudança de prioridades da aviação naval americana. O objetivo é ampliar o alcance dos engajamentos, aumentar a capacidade de sobrevivência das aeronaves e oferecer aos grupos de porta-aviões armas capazes de operar em ambientes cada vez mais contestados.
Nesse processo, o Super Hornet desempenha um papel que vai além de sua função como caça multimissão. Mesmo próximo do fim de sua produção, o modelo continua sendo uma plataforma relevante para integrar e testar armas que deverão permanecer em serviço por décadas, integradas em plataformas futuras.
Para a US Navy, a equação envolve uma combinação de novas aeronaves, sensores, redes e armamentos de maior alcance. E, enquanto o F/A-XX ainda está em desenvolvimento, é o Super Hornet que ajuda a colocar parte dessa nova capacidade em voo.
