ATL-100 da Desaer será apresentado no final de 2027

Desaer retoma desenvolvimento pleno do avião regional com equipe de até 70 profissionais, prevê conclusão da engenharia e início da construção do primeiro protótipo em 2027

Em 2018 a Desaer (Desenvolvimento Aeronáutico) apresentou o projeto ATL-100, uma aeronave de transporte leve que prometia se tornar o mais novo produto de aviação do Brasil, atendendo um mercado regional tal qual a Embraer fez no início de sua história nos anos 1960. Após anos de estudos, revisões e dificuldades para avançar com o ATL, a empresa reacelerou os trabalhos nos últimos meses através de diversas parcerias. Agora, a Desaer planeja apresentar o protótipo do ATL-100 até o final de 2027. 

No lançamento da empresa, o município de Araxá (MG) foi escolhido para abrigar as instalações para produção do bimotor. A Desaer trocou a rota e fincou presença em Maricá (RJ) com um galpão de engenharia, firmando acordos com a prefeitura da cidade fluminense por meio do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM). Lá ficará concentrada a maior parte do programa. 

Evandro Fileno é diretor de Desenvolvimento e Inovação na Desaer (divulgação)

Em mais uma etapa importante da parceria, a Desaer assinou na semana passada a contratação inicial de 40 engenheiros de Maricá. Segundo Evandro Fernandes Fileno, sócio fundador da Desaer e diretor de Desenvolvimento e Inovação, eles serão apoiados por profissionais que já trabalhavam com a empresa em São José dos Campos (SP), em um modelo de transferência de conhecimento.

“Vamos trazer em torno de dez engenheiros de São José dos Campos para fazer o apadrinhamento desses 40. Com isso, vamos começar a implantar a cultura da engenharia aeronáutica aqui na cidade”, explicou Fileno em entrevista à Revista Tecnologia & Defesa. 

 

A estrutura em Maricá está sendo preparada para receber a equipe, enquanto a Desaer manterá um pequeno escritório em São José dos Campos, com cerca de sete a dez profissionais. A previsão é que o efetivo total envolvido no projeto, incluindo a área administrativa, chegue a aproximadamente 70 pessoas.

Engenharia antes do protótipo

O ATL-100 encontra-se atualmente na fase de desenvolvimento de engenharia, etapa que deverá consumir os próximos 12 meses. A meta da Desaer é concluir esta fase até outubro de 2027. Recentemente a empresa assinou parceria com a Siemens, que fornecerá softwares para acelerar o projeto da aeronave. 

“Essa encomenda tecnológica nos dá 12 meses de engenharia, onde vamos chegar a um grupo máximo de até 70 pessoas. Esperamos que até outubro de 2027 tenhamos finalizado 100% da engenharia do ATL-100”, afirmou. 

Segundo Fileno, a expectativa é iniciar a construção do primeiro protótipo ainda no mesmo mês, assim que a etapa de engenharia for concluída.  A montagem também será realizada em Maricá. Ele estima que o rollout da aeronave possa ocorrer até o fim daquele ano, embora ressalte que o cronograma dependerá do avanço da engenharia e da montagem.

A empresa ainda não estabeleceu uma data para o primeiro voo. O foco imediato está na conclusão dos desenhos e na preparação da estrutura necessária para a fabricação do protótipo.

Desaer/Divulgação

Apesar das poucas atualizações públicas nos últimos anos, o desenvolvimento do ATL-100 não parou, seguindo em ritmo mais baixo. Isso permitiu revisões e amadurecimento do projeto, que agora está cada vez mais próximo de sair do papel. A Desaer acumula mais de 200 mil horas de engenharia dedicadas exclusivamente ao ATL-100. O projeto reúne ainda cerca de 6 mil desenhos, dos quais mais de 2 mil já estão prontos, embora parte desse material ainda precise ser finalizada.

“Agora, com essa equipe chegando, a ideia é ir finalizando. Por isso temos essa meta de, em um ano, acabar o que já temos pronto e partir para o protótipo”, disse Fileno.

Primeiro cliente no Uruguai

O interesse comercial pelo ATL-100 avançou mesmo durante o período em que o desenvolvimento do projeto esteve mais lento. Fileno revelou que a companhia aérea uruguaia Avinter (Aerovías Internacionales del Uruguay) será o cliente lançador do turboélice brasileiro, com aquisição inicial de três a cinco aeronaves. Segundo ele, com a nova fase da Desaer, diversos contatos estão sendo retomados. 

No entanto, não há notícias públicas recentes sobre a Avinter. Em 2021 a Dirección Nacional de Aviación Civil e Infraestructura Aeronáutica (DINACIA) não aprovou o Certificado de Operador Aéreo da empresa. 

Em paralelo, a Desaer mantém conversas com aproximadamente dez potenciais clientes civis, entre empresas de transporte regional, táxi aéreo e carga. As negociações incluem operadores do Brasil, Uruguai e Chile, com destaque para “companhias do Acre”, menciona Fileno. 

No setor militar, a empresa afirma estar em contato, sob acordos de confidencialidade, com três forças aéreas: duas da América do Sul e uma da América Central. A Desaer também participou das duas chamadas realizadas pela Força Aérea Brasileira relacionadas à futura substituição do Embraer C-95 Bandeirante e do C-97 Brasília. A empresa apresentou tanto o ATL-100 quanto o ATL-300 como possíveis soluções.

Possíveis versões multimissão

Embora o foco atual esteja na versão básica do ATL-100, a Desaer também estuda a utilização da plataforma em missões especiais. Uma versão armada, entretanto, não é considerada adequada pela empresa no momento.

Por outro lado, estudos já foram realizados para uma configuração equipada com radar e sensores destinados às atividades Inteligência, Vigilância e Reconhecimento. A engenharia do projeto também está sendo desenvolvida de forma a facilitar futuras modificações e a instalação de diferentes equipamentos.

A ideia abre espaço para versões multimissão, incluindo aplicações de vigilância marítima e outras missões que possam se beneficiar da capacidade de carga e da flexibilidade da plataforma.

A estratégia lembra a trajetória de outras aeronaves brasileiras, como o próprio Bandeirante, que deu origem a diferentes versões e aplicações ao longo de sua carreira, como o R-95 de reconhecimento e o P-95 Bandeirulha de patrulha marítima. 

P-95BM Bandeirulha na Base Aérea de Canoas. FAB estuda substitutos para frota de patrulha marítima (foto: Gabriel Centeno)

Motor anunciado até novembro

Um dos pontos ainda em definição é o grupo motopropulsor. As negociações com um possível fornecedor estão em fase final e a empresa espera anunciar o parceiro até novembro.

Fileno não revelou o nome do fabricante, mas adiantou que “se trata de um motor já conhecido no mercado.” A definição é importante também para estabelecer com maior precisão o custo da aeronave, uma vez que o sistema de propulsão representa uma parcela significativa do valor final.

“Fechando o grupo motopropulsor, que é o que mais pesa dentro da aeronave, consigo passar um valor mais real do ATL-100”, afirmou.

Primeiro voo do ATL-100 estava previsto para 2023 (Desaer/Divulgação)

A Desaer mantém como referência um investimento total de aproximadamente US$ 250 milhões para o programa completo, incluindo engenharia, prototipagem e certificação. Até o momento, a empresa afirma ter investido relativamente pouco no projeto e não divulgou quanto já foi aplicado.

Segundo Fileno, os investimentos realizados desde a criação da Desaer, em 2017, foram majoritariamente com recursos próprios. A atual etapa representa, segundo ele, o primeiro investimento estruturado na empresa. Ele também afirma que os empecilhos financeiros não existem mais para a empresa. “Agora são dependências nossas, de engenharia, etc. O trabalho está nas nossas mãos.” 

Mudanças no projeto

Apesar da longa trajetória do ATL-100, Fileno diz que o conceito original da aeronave foi mantido. Uma das novidades incorporadas ao projeto é a instalação de um toalete a bordo, desenvolvido em parceria com a empresa 3AERO.

O equipamento ficará na parte dianteira da cabine, logo atrás do cockpit, uma solução que pretende diferenciar o avião dos modelos de sua categoria. A 3AERO também será responsável pela integração dos interiores da aeronave. Outros fornecedores ainda estão em negociação, principalmente empresas localizadas nas regiões de São José dos Campos e Itajubá (MG). Os nomes não foram revelados porque os contratos ainda não foram formalizados.

Rampa traseira continua como diferencial

O ATL-100 foi concebido para atuar no transporte regional de passageiros e carga, além de missões logísticas. Entre os elementos mantidos no projeto está a rampa traseira, apontada pela Desaer como uma das principais características da aeronave.

Para Fileno, entretanto, o diferencial do projeto não estará apenas na configuração da aeronave, já que muitos de seus sistemas e componentes seguem padrões utilizados por outros aviões da mesma categoria. “O diferencial da Desaer vai ser todo um estudo que estamos fazendo no ciclo de manutenção dessa aeronave, onde vamos dar maior garantia aos operadores. A rampa traseira, que é um dos maiores atrativos do ATL-100, é o número um”, afirmou.

O executivo também destacou que o período em que o projeto permaneceu em desenvolvimento permitiu amadurecer algumas características a partir de demandas apresentadas por potenciais operadores. Os detalhes, porém, ainda são mantidos em sigilo.

Concorrentes do ATL-100 em produção, como o Cessna SkyCourier, não possuem rampa (Desaer/Divulgação)

“Foi uma necessidade os operadores nos trouxeram. Eles olharam as aeronaves que estão no mercado e falaram: ‘Se sua aeronave melhorar em tal item, fica perfeita’. Atendendo a pedidos desses operadores, estamos melhorando o produto.”

A Desaer sustenta que a demanda por um avião desse porte continua existindo, especialmente em países de dimensões continentais e mercados em desenvolvimento. Fileno cita o número de aeródromos brasileiros como um dos argumentos para a manutenção da proposta.

“O Brasil tem mais de mil aeródromos e se usa menos de 80. É um mercado que muitas cidades precisam e, hoje, tanto para transporte regional [de passageiros] como logístico, essa aeronave vem para atender toda essa demanda.”

ATL-300 fica em segundo plano

Em dezembro de 2021 a Desaer revelou o projeto do ATL-300, baseado no ATL-100. A aeronave maior terá capacidade para 40 passageiros, cabine pressurizada, trem de pouso retrátil e a rampa de carga, entre outras características. Na época, a previsão era de que o protótipo do ATL-300 voasse pela primeira vez em 2026, entrando em operação no ano seguinte, o que não ocorreu. 

O modelo de maior porte segue no portfólio da Desaer, mas em segundo plano enquanto a empresa concentra recursos e pessoal no ATL-100. “O ATL-300 segue na lista dos produtos da empresa. Ele foi lançado naquela época porque entramos em uma licitação na Europa. Essa licitação ainda está parada lá fora, mas hoje todo o foco da Desaer está no ATL-100 por causa da necessidade urgente dessa aeronave no mercado”, explicou Fileno.

Empresa concentra forças no ATL-100, mas o ATL-300 segue nos planos (Desaer/Divulgação)

A intenção é retomar gradualmente o desenvolvimento do modelo maior depois que o ATL-100 avançar pelo ciclo de prototipagem e certificação. A engenharia desenvolvida para o primeiro modelo também deverá servir de base para a evolução do ATL-300.

O próximo passo, portanto, está definido: concluir a engenharia, fechar os principais fornecedores, definir o motor e iniciar a construção do protótipo. Se o cronograma atual for mantido, o ATL-100 deve chegar ao rollout no fim de 2027, marcando a passagem de um projeto acumulado ao longo de anos para uma aeronave em fase efetiva de fabricação e ensaios.

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Uma resposta

  1. Na torcida para que, primeiramente, o projeto seja finalizado com sucesso!

    Posteriormente, que seja o escolhido quando da substituição da família C95!

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