A possível renovação da frota de helicópteros leves bimotores das Forças Armadas brasileiras abriu um debate que ultrapassa a escolha entre três potenciais competidores.
De um lado, estão as necessidades operacionais da Marinha do Brasil (MB), do Exército Brasileiro (EB) e da Força Aérea Brasileira (FAB). De outro, aparecem decisões com impacto sobre a soberania tecnológica, a disponibilidade logística, os empregos qualificados e a própria estrutura da indústria aeronáutica nacional.
Durante a sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, em 9 de setembro de 2025, o Exército Brasileiro (EB) anunciou a intenção de adquirir entre 10 e 12 helicópteros Helibras H145M, caso sejam aprovados novos recursos para as Forças Armadas, especialmente por meio do orçamento mínimo, que garantiria maior previsibilidade aos investimentos na Defesa.
Aquela foi a primeira manifestação pública do Exército sobre essa possível aquisição, que seria realizada na forma de uma negociação governo a governo, porém, sem que, até aquela ocasião, o Ministério da Defesa (MD) tivesse divulgado um programa ou requisitos operacionais consolidados para uma nova aeronave de reconhecimento e ataque do EB, ou, abrangendo as três Forças Armadas.
Para o EB, a compra de um lote de helicópteros bimotores armados transformaria a capacidade das missões de reconhecimento e ataque, hoje concentradas no 1º Batalhão de Aviação do Exército (1º BAvEx), em Taubaté, e no 3º BAvEx, em Campo Grande, ambos com o HA-1A Fennec. O mesmo modelo de helicóptero também cumpre a missão de formação dos novos pilotos de asas rotativas no Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx), atividade que, naturalmente, exige maior esforço operacional da frota.

Dessa forma, caso seja adquirida uma nova aeronave bimotora para as missões de reconhecimento e ataque na Aviação do Exército (AvEx), os Fennec com menos horas de voo e menor fadiga estrutural serão destinados ao CIAvEx, enquanto o restante dos exemplares será desativado e utilizado como fonte de peças de reposição ou até mesmo vendido a terceiros.
Requisitos e as opções do mercado
A substituição de uma frota operacional deve ser conduzida a partir de requisitos claros e formalmente estabelecidos pelas Forças Armadas, com cada uma delas definindo os sistemas e equipamentos necessários ao cumprimento de suas missões. Afinal, apesar de FAB, EB e MB operarem helicópteros, a doutrina de emprego e as missões de cada Força naturalmente apresentam diferenças importantes.
Somente em agosto, conforme noticiado por Tecnologia & Defesa, foi criado um grupo de trabalho para formular o Conceito de Operações Conjunto (CONOPS MD) para um novo Helicóptero Multimissão destinado às Forças Armadas.
Para a FAB, que prioriza as missões SAR e CSAR, podem ser relevantes características como alcance, autonomia, operação noturna, compatibilidade com NVG, sensores eletro-ópticos, radar meteorológico e integração com a estrutura de coordenação SAR. A FAB emprega diferentes aeronaves nessas missões, incluindo o H-36 Caracal e o H-60 Black Hawk, além de aeronaves de busca como o SC-105 Amazonas.

Para a Marinha, a análise acrescenta requisitos de operação embarcada, resistência à corrosão, dimensões compatíveis com os navios, disponibilidade em condições de vento e salinidade, sistemas de comunicação marítima e capacidade de içamento. Nas missões embarcadas, aeronaves equipadas com esquis apresentam severas limitações operacionais, sendo fundamentais, nesses casos, cabines mais amplas e maior margem de peso, além de um trem de pouso retrátil.
Segundo o apresentado pelo EB no Senado, o Airbus H145M surge como uma das opções. O helicóptero militar leve multimissão possui uma solução de armas baseada no sistema HForce. Conforme divulgado por Tecnologia & Defesa, o armamento é variado e inclui foguetes guiados, mísseis, metralhadoras e canhão de 20 mm, embora o emprego dos mísseis SPIKE ER2 e do canhão de 20 mm esteja passando por recertificação para o H145M alemão equipado com rotor principal de cinco pás. O HForce também dispõe de sensores de guerra eletrônica.
Mas para essa demanda da Força Terrestre, existem outras opções.
O AW169M aparece como uma alternativa de maior porte. O modelo da fabricante italiana Leonardo tem peso máximo de decolagem (MTOW) de aproximadamente 4.800 kg, cerca de mil quilos a mais que o H145M, e apresenta maior margem para transportar sensores, blindagem, combustível, sistemas de comunicação, tropas equipadas e sistemas de missão.
O tipo tem capacidade para até dez militares equipados, velocidade máxima de cruzeiro de 261 km/h e dois motores Pratt & Whitney Canada PW210A1, com 1.175 shp de potência cada. A aeronave tem autonomia de 3h46, alcance de 700 km e cabine com 6,3 m³, semelhante à do H145M.
O sistema de armas inclui metralhadoras de 7,62 mm instaladas nas portas, metralhadora de 12,7 mm em pod, mísseis antitanque e foguetes guiados e não guiados de 70 mm.
O Bell 429M é uma proposta mais leve e veloz. Tem dois motores Pratt & Whitney Canada PW207D1/D2A de 719 shp de potência, velocidade de cruzeiro de 287 km/h, alcance de 761 km, autonomia de 4h30 e alcance de 761 km. Bell apresenta a plataforma para missões de ataque leve, reconhecimento armado, operações especiais e comando e controle, com até quatro estações de armamento e duas estações adicionais nas pontas.

Os armamentos se assemelham aos do AW169M, mas a configuração final depende do contrato, das integrações realizadas e das autorizações de exportação. Essas autorizações podem representar um desafio para o Brasil. Além disso, blindagens podem ser integradas ao modelo. A cabine interna, porém, tem 5,78 m3, sensivelmente menor que o H145M e o AW169M.
Cada um dos concorrentes apresenta características distintas e não representa exatamente o mesmo conceito operacional. O H145M privilegia uma plataforma leve com uma solução de armas em fase final de certificação. O AW169M oferece maior volume interno e margem de crescimento. O Bell 429M apresenta uma alternativa compacta, mas com menor capacidade de transporte e menor comprovação pública de certificação militar específica da variante.
O debate sobre armamento precisa ser tratado com precisão. A existência de uma campanha de tiro ou de uma demonstração não equivale, necessariamente, à certificação de uma configuração operacional.
No caso do H145M, há ensaios de integração de armamentos realizados pela “Bundeswehr” e pela WTD 61 (o Centro Técnico e de aeronavegabilidade para aeronaves das Forças Armadas da Alemanha), além da divulgação das capacidades do sistema HForce.

O AW169M apresenta uma situação documental distinta. A Leonardo informa que a variante militar foi certificada pela ARMAEREO, autoridade italiana responsável por armamentos e aeronavegabilidade, em setembro de 2019. Essa informação comprova a existência de uma certificação militar da variante.
Quanto ao Bell 429M, o helicóptero possui certificação civil pela “Transport Canada” e pela EASA (europeia), mas não foi disponibilizada publicamente uma certificação militar de tipo específica para a configuração armada Bell 429M. A Bell declara capacidades de armamento para a plataforma, mas sua disponibilidade efetiva dependerá do pacote contratado e dos respectivos processos de integração e aprovação.
Mais que uma montagem nacional
O debate industrial é tão importante quanto o debate operacional. A Airbus, por meio da Helibras, está associada aos planos de produção do H145 no Brasil. Conforme já noticiado por Tecnologia & Defesa, uma nova linha de montagem final em Itajubá (MG) será viabilizada com investimentos da ordem de R$ 1 bilhão, com produção voltada aos mercados brasileiro e internacional. Também foram divulgadas iniciativas relacionadas à fabricação de cablagens e à manutenção de conjuntos dinâmicos.
Ao mesmo tempo, a avaliação pública do programa deve distinguir entre fabricação efetiva, montagem de kits, customização, manutenção, produção de componentes e desenvolvimento de engenharia. São atividades diferentes, com impactos tecnológicos e econômicos igualmente distintos.
O H-XBR trouxe a modernização da própria Helibras com a construção de um novo prédio, o desenvolvimento de engenharia para a versão de ataque naval do H225M destinada à MB e a produção de cablagens. Parte dessas capacidades deverá ser replicada para o H145 a partir de 2027, mesmo que não exista, até o momento, um contrato específico para isso com o MD ou com as Forças Armadas.

Obviamente, a montagem nacional vai gerar empregos, movimentar a economia e estimular a atividade industrial, mas é preciso ampliar o debate sobre quais outras capacidades locais de produção poderiam agregar maior soberania ao país, como ocorre com o caça Gripen por meio de um amplo programa de transferência de tecnologia envolvendo componentes, sistemas críticos e conhecimento de engenharia.
A eventual escolha do AW169M introduziria um segundo grande fabricante de helicópteros militares com presença industrial e logística no Brasil e diversificaria a cadeia de fornecedores, algo que a AvEx tem buscado nos últimos dez anos quando o assunto é a aquisição de novos equipamentos. A escolha dos 12 novos Black Hawk também considerou esse aspecto, substituindo, nesse caso, uma linha de origem francesa por outra norte-americana.
A Leonardo mantém em Itapevi, na Grande São Paulo, um centro de serviços e logística destinado a apoiar a frota de helicópteros da empresa no Brasil e na América Latina. A instalação foi criada para ampliar a capacidade de manutenção e suporte e aumentar a disponibilidade operacional dos operadores regionais.

Essa localização pode facilitar o acesso terrestre, a contratação de profissionais especializados e a interação com universidades, centros de engenharia e fornecedores tecnológicos. A proximidade de grandes centros também pode reduzir deslocamentos, facilitar a formação de pessoal, acelerar a resposta logística e aproximar o operador militar de empresas capazes de desenvolver sensores, software, sistemas de comunicação e equipamentos de missão.
Ao ser escolhido o fornecedor do helicóptero biturbina, por meio de um programa com requisitos de nacionalização e transferência de tecnologia, é possível ampliar a rede de empresas participantes nos segmentos de integração de sistemas, engenharia aeronáutica, eletrônica embarcada, comunicações seguras, sensores, materiais compostos, manutenção de componentes, simuladores, software de missão, documentação técnica, ensaios e certificação.
A logística como capacidade operacional
A logística deve ser observada como parte da capacidade militar, e não como uma atividade administrativa posterior. Uma aeronave que permanece indisponível por falta de peças, técnicos, ferramentas ou documentação não entrega sua capacidade operacional, independentemente de seu desempenho de catálogo.

A proximidade de centros industriais e tecnológicos pode favorecer a manutenção programada, a revisão de componentes, a formação de especialistas, o suporte de engenharia, a atualização de software, a disponibilidade de peças, a integração de equipamentos nacionais e o atendimento às diferentes Forças usuárias.
A comparação também precisa incluir financiamento, custo do ciclo de vida, disponibilidade contratual, estoque de peças, treinamento e suporte de longo prazo. Não basta comparar o preço de aquisição ou uma estimativa isolada do custo da hora de voo. O que deve ser analisado é o custo de manter a frota disponível e operacional durante décadas.
Uma decisão que deve começar pelos requisitos
A possível aquisição de H145M, AW169M ou Bell 429M não deveria ser tratada como uma escolha automática entre catálogos. O processo precisa começar com requisitos operacionais formais e transparentes, seguidos por uma avaliação técnica das configurações efetivamente oferecidas.
A pergunta fundamental não é qual aeronave é mais rápida ou qual apresenta maior quantidade de armamentos. As questões centrais são: qual capacidade de missão se deseja obter; qual nível de proteção é necessário; quais armas estão efetivamente certificadas; qual sensor será instalado; qual será a disponibilidade mínima exigida da frota; qual será o custo total de propriedade; quais componentes serão produzidos no Brasil; qual conhecimento de engenharia será transferido; quais empresas brasileiras participarão do programa; qual autoridade certificará a configuração final; e qual será o prazo real para a entrega da capacidade operacional.
Nesse cenário, o H145M permanece como uma plataforma madura e compacta, com a solução HForce integrada. O AW169M apresenta uma combinação de características que inclui maior margem de peso e potencial para integração de diferentes sistemas.
O Bell 429M oferece maior velocidade em uma célula menor, mas requer comprovação adicional quanto à certificação militar da variante e à operação efetiva por forças armadas com o pacote armado.
Conclusão
Escolher a aeronave é importante. Porém, mais importante ainda será o modelo de programa construído em torno dela. Se a aquisição for acompanhada por requisitos claros, certificação verificável, participação industrial mensurável e uma cadeia logística estruturada, o Brasil poderá transformar uma renovação de frota em uma política de desenvolvimento de capacidade tecnológica e operacional.

Para o Exército, a substituição dos Fennec operacionais por uma nova frota deve preservar a função de instrução e permitir que os pilotos sejam formados em aeronaves disponíveis, adequadas e economicamente sustentáveis. No caso da FAB e da Marinha, a escolha deverá considerar a complexidade das missões SAR, incluindo resgate marítimo, operação noturna, atuação em ambientes austeros, transporte de sobreviventes e coordenação interforças.
Respostas de 2
H160M da Airbus não seria uma opção viável para as Forças?
Torcendo pelo H-145M.