O futuro chegou: a história dos robôs militares da AMBIPAR/UNIDROID

No dia 31 de julho, durante a cerimônia do Dia do Quadro de Engenheiros Militares realizada no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), foi apresentado ao público um “robô de combate” equipado com mísseis anticarro MAX 1.2 AC. Conhecido no Exército Brasileiro EB) como Sistema de Veículo Terrestre Remotamente Pilotado (SVTRP), e internacionalmente como “Unmanned Ground Vehicle” (UGV), esse equipamento causou uma surpresa para muitos, que acabou gerando muitas informações desencontradas e pouco precisas.  Ciente desse fato, Tecnologia & Defesa resolveu revelar um pouco mais sobre a sua história e capacidades.

ROBÔ BOMBEIRO, O COMEÇO

Em 2016, o engenheiro José Carlos de Castro Junior saiu do setor de projetos da empresa Volkswagen do Brasil e, acreditando que a tecnologia robótica poderia ser aplicada em mais larga escala em nossa sociedade, inicia dentro de sua residência em São Bernardo do Campo (SP), a construção de um pequeno sistema robótico para combater grandes incêndios, nascendo assim seu primeiro projeto.

Esse robô bombeiro foi chamado de ST (modelo “Standard”, ou “Padrão”, em português) e foi apresentado ao público durante a 13ª edição da Fire Show – International Fire Fair, realizado em outubro de 2018 na cidade de São Paulo (SP), causando um grande impacto nas pessoas presentes e na mídia.

No início de 2019, diante da possibilidade de transformar seu trabalho em um produto, José Carlos criou a startup UNIDROID Robótica do Brasil, com sede na cidade de São josé dos Campos (SP), inicia a construção de uma versão ainda maior, o STW (modelo “Standard Wide”, ou “Largo”), e começa a oferecer seus equipamentos para o mercado. No ano seguinte, Fernanda Morelli entra para a empresa e participa de um edital da Petrobras para o “desenvolvimento de unidade robótica para combate a incêndios”, e vence.

Como dentro dos requisitos apresentados pela Petrobras estavam que os equipamentos fossem resistentes a explosões, surgem as versões ST-Ex e STW-Ex. A ideia era que as versões menores, os ST, operassem nas plataformas e as maiores, STW, nas refinarias.

Em 2022, após as entregas das unidades do ST-Ex e STW-Ex para a Petrobras, que passaram com sucesso em seus rigorosos testes, a Petrobras anuncia a intenção de iniciar a encomenda de mais unidades, mas necessitava de uma escala de produção que era impossível para uma startup. Diante disso, a empresa buscou um sócio investidor e, após várias análises de propostas, em dezembro de 2023, aceitou fazer uma parceria com o Grupo AMBIPAR, nascendo assim a AMBIPAR Response Robotics.

O Grupo AMBIPAR é uma multinacional brasileira líder em gestão ambiental, soluções ecológicas e resposta a emergência e com atuação em mais de 40 países. Com o suporte desse investidor foi inaugurada uma fábrica em Jacareí (SP), iniciando a produção em escala dos robôs e que atualmente conta com profissionais fixos qualificados no desenvolvimento e produção de seus sistemas.

Fernanda Morelli na OTC Houston 2025, nos Estados Unidos (via Fernanda Morelli)

A Petrobras tornou-se o principal cliente, encomendando até o momento seis unidades, a maioria do tipo STW-Ex, e todas já estão em operação. Porém não foi a única.

O próprio Grupo AMBIPAR adquiriu algumas unidades para utilizar em suas operações, inclusive no exterior, sendo que a primeira exportação desse veículo ocorreu em 2024, com o envio de um STW Response para ser utilizado na unidade da AMBIPAR dos Estados Unidos. Esse exemplar participou das feiras OTC Houston 2024 e 2025, onde chamou a atenção de diversos clientes em potencial e vendas no exterior devem ocorrer em breve.

Para ter noção da importância desse tipo de robô bombeiro, na semana passada, no dia 05 de agosto, um incêndio de grandes proporções ocorreu na fábrica de solventes Quema Química, na cidade de Itaquaquecetuba (SP), que foi amplamente divulgado pela imprensa. Nessa ocorrência, o Grupo AMBIPAR enviou rapidamente um de seus STW Response que controlou as chamas, sem colocar em perigo os bombeiros que atendiam a ocorrência.

 

O STW Response atuando no incêndio de Itaquaquecetuba (Foto: AMBIPAR)


T.A.R.S, A PLATAFORMA MILITAR

No final de 2024, houve uma aproximação com o Exército Brasileiro (EB), onde a Força Terrestre viu o potencial dessa plataforma teleoperada e rapidamente o grupo se tornou uma Empresa Estratégica de Defesa (EED), tornando-se apta a participar das iniciativas de desenvolvimento de novas tecnologias para as Formas Armadas.

A primeira participação efetiva em um projeto militar ocorreu em outubro de 2025, quando a Fundação de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Exército Brasileiro (FAPEB) publicou a chamada pública nº 07/2025 – FAPEB/SVTRP, com o objetivo de contratar serviços de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para a criação de dois Demonstradores de Tecnologia do Sistema de Veículo Terrestre Remotamente Pilotado (SVTRP 1 e 2), sendo essa a primeira concorrência militar que a empresa participou.

Com um investimento estimado em R$ 12,85 milhões, provenientes do Convênio nº 01.20.0266.00 FINEP/FAPEB, e prazo de execução é de 24 meses, teve como vencedora a empresa PlasmaHub. Essa concorrência serviu de grande experiência, tanto que, em dezembro do mesmo ano, a empresa participou de outra, para fornecer duas unidades de “Robô de Desativação de Artefatos Explosivos” para o 6º Batalhão de Engenharia de Combate (6º BE Cmb), sagrando-se vitoriosa.

O primeiro robô militar da empresa, o T.A.R.S., foi construído em apenas três meses (Fotos: AMBIPAR)

O produto vencedor foi o T.A.R.S., sigla para “Tático Apoio de Resposta e Serviço”, um robô multifunção, que foi construído em apenas três meses e apresentado em maio de 2026, no Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026). Com um peso de cerca de 250 kg e capacidade de carga útil 150 kg, foi apresentado no evento equipado com um sistema de armas remotamente controlado (SARC) ESTABILI, também de projeto da empresa. A agilidade da empresa em desenvolver e construir sistemas complexos de forma tão rápida, bem como o potencial desse produto, impressionou positivamente o EB.

O T.A.R.S. equipado com a SARC ESTABILI, outro produto da AMBIPAR Robotics, foi apresentado no SSNTFT 2026 (Foto: 1º SGT Peres / CCOMSEx)

O primeiro exemplar de produção do T.A.R.S., na versão EOD (“Explosive Ordnance Disposal”, ou desativação de engenhos explosivos, em português), foi entregue ao Departamento de Engenharia e Construção (DEC) em julho desse ano.

Após a apresentação de seu primeiro robô para uso exclusivamente militar, e incentivado pelo CTEx, que forneceu informações sobre as demandas da Força Terrestre, a empresa começou a desenvolver uma versão maior e com mais capacidade, o T.A.R.S H, de “Heavy” (pesado, em português), com um peso de cerca de 800 kg e capacidade de 600 kg e que foi a viatura apresentada no evento do CTEx, na configuração anticarro, equipada com um lançador duplo do míssil anticarro nacional MAX 1.2 AC.

O T.A.R.S. EOD entregue ao DEC (Foto: EB)

O FUTURO

Atualmente o Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), através do CTEx, que empreende um esforço intenso para fomentar a criação de opções dentro da base industrial de defesa (BID) brasileira, que possam trazer soluções tecnológicas nas mais diversas áreas, está trabalhando com diversas empresas para o desenvolvimento de um novo SVTRP de combate ainda mais avançado e com mais capacidade. Como a propriedade intelectual do míssil MAX e do SARC REMAX pertencem ao EB, e são produzidos pelas empresas SIATT e ARES, respectivamente, eles devem ser integrados no novo projeto.

O T.A.R.S. H com um mockup do lançador duplo do MAX 1.2 AC (Foto: CTEx)

Para esse intuito, o CTEx está coordenando uma parceria com a AMBIPAR Robotics, ARES Aeroespacial e Defesa e SIATT, todas empresas nacionais e EED. O contato entre elas já se tornando próximo, e a prova disso foi a divulgação de uma visita de uma comitiva da AMBIPAR à ARES, no dia 17 de julho, para tratar sobre o projeto. Porém essas tratativas se iniciaram antes disso.

Foto da visita da comitiva da AMBIPAR Robotics à ARES (Foto: ARES)

Com isso, aproveitando a experiência, a AMBIPAR Robotics, com orientação do CTEx, iniciou o projeto de uma plataforma teleoperada multifunção, bem mais capaz que o T.A.R.S. H, já desenvolvido para ter capacidade de ser integrado a lançadores de mísseis MAX 1.2 AC, ou seus sucessores que já estão em desenvolvimento, bem como a SARC REMAX 4, equipadas com metralhadoras 7,62x51mm NATO ou 12,7x99mm (.50 BMG), ou ainda uma nova versão desta, equipada com metralhadoras e mísseis ao mesmo tempo.

O protótipo da nova plataforma já em construção e deverá ser apresentado no final desse ano, demonstrando a capacidade das indústrias brasileiras em atender as demandas da Força Terrestre, e essa, em contrapartida, de ficar atenta às novas formas de combate para a guerra do futuro, destacando que a inovação tecnológica é algo sempre a ser buscado.

Foto do general Hertz, chefe do DCT, com os representantes da ARES, SIATT e AMBIPAR, durante a cerimônia do dia do Engenheiro Militar no CTEx (Foto: ARES)

O EB já avaliou e viu a demonstração de outros SVTRP, como o THeMIS, e atualmente outras  estão sendo desenvolvidas no Brasil, e essas serão pauta para futuros artigos.

  N.A.: A Revista Tecnologia & Defesa gostaria de agradecer ao general de brigada Maurício Ramos de Resende Neves, chefe do CTEx, a Fernanda Morelli, diretora executiva da da AMBIPAR Response Robot, e a Frederico Medella, diretor comercial e marketing da ARES, pela disponibilização das informações e imagens que permitiram a confecção desse artigo.  

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Uma resposta

  1. “desenvolvido para ter capacidade de ser integrado a lançadores de mísseis MAX 1.2 AC, ou seus sucessores que já estão em desenvolvimento….”
    So eu li isso, ou mais alguém?
    Adoraria mais informações sobre esse sucessor do Max!

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