A possibilidade da ampliação da frota de caças F-39 E/F Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB) traz consigo uma discussão que raramente recebe a mesma atenção pública, mas que é igualmente importante para a capacidade operacional da instituição: a necessidade de expandir a frota de aeronaves de reabastecimento em voo.
Caças modernos dependem diretamente da disponibilidade de aeronaves-tanque para explorar todo o seu potencial estratégico. Quanto maior a frota de combate, maior a demanda por meios capazes de ampliar seu alcance, aumentar sua permanência em voo e expandir sua capacidade de projeção de poder.
Atualmente, a FAB dispõe de alguns Embraer KC-390 Millennium, para transporte tático e reabastecimento, e dois KC-30 (que na verdade são C-30), aeronaves Airbus A330-200 adquiridas no mercado civil.
Essas últimas desempenham um papel importante no transporte estratégico de tropas e cargas e têm sido amplamente utilizadas no apoio às missões da Presidência da República, o que consome uma parcela significativa de suas horas de voo. Todavia, essas aeronaves não foram convertidas para o padrão MRTT (Multi Role Tanker Transport), configuração utilizada por diversas forças aéreas ao redor do mundo e que oferece capacidades ampliadas de reabastecimento em voo, sistemas militares mais avançados e maior integração operacional.
Caso a FAB avance para uma frota maior de Gripen, será inevitável discutir a expansão dos meios de apoio estratégico e, nesse contexto, duas alternativas surgem naturalmente: o KC-30 e o KC-767.

A primeira seria a conversão dos atuais KC-30 para o padrão MRTT ou a aquisição de aeronaves adicionais da mesma família. A vantagem dessa solução está na comunalidade logística, na enorme capacidade de combustível transportado e na consolidação de uma plataforma já conhecida pela FAB. Por outro lado, a conversão exigiria a retirada temporária das aeronaves de serviço por um período estimado de até dois anos, criando uma lacuna operacional justamente em uma área considerada crítica para a mobilidade estratégica do país.
A segunda alternativa seria o retorno da plataforma Boeing 767 à FAB, desta vez em versões modernas de transporte e reabastecimento em voo. O Brasil já operou aeronaves C-767 por meio de leasing no passado, o que torna a plataforma relativamente familiar para a instituição.
O Boeing 767 apresenta vantagens relevantes, pois trata-se de uma aeronave amplamente difundida no mercado internacional, com grande disponibilidade de células para conversão, custos de aquisição potencialmente inferiores aos do A330 MRTT e despesas operacionais e de manutenção significativamente menores. Além disso, versões militares como o KC-767 já demonstraram sua eficácia em operações ao redor do mundo, combinando transporte estratégico com capacidade de reabastecimento em voo para aeronaves de caça. A desvantagem seria a abertura de mais uma linha logística, porém esse não parece ser um grande empecilho.
Do ponto de vista operacional, ambas as plataformas atenderiam a uma necessidade fundamental: permitir que os Gripen brasileiros atuem muito além do raio de ação proporcionado apenas pelo combustível interno.
Mais do que simples multiplicadores de força, os aviões-tanque de longo alcance são instrumentos estratégicos. São eles que permitem deslocamentos a grandes distâncias; sem escalas intermediárias; desdobramentos rápidos para regiões remotas do território nacional. e eventual emprego em operações multinacionais; apoio urgentes a catástrofes; e a projeção do poder aéreo da FAB no exterior.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a importância dessa capacidade torna-se ainda mais evidente. A Amazônia, o Atlântico Sul e as enormes distâncias entre as principais bases aéreas exigem um elevado grau de mobilidade estratégica para a aviação de caça. Sem uma frota adequada de aeronaves de reabastecimento em voo, mesmo os caças mais modernos encontram limitações para explorar plenamente suas capacidades.
A experiência internacional demonstra que forças aéreas modernas são construídas em torno de um sistema integrado composto por aeronaves de combate, sistemas de alerta aéreo antecipado, transporte estratégico e reabastecimento em voo. Nesse sentido, a discussão sobre uma futura frota de mais caças Gripen inevitavelmente leva a outra pergunta: quantos aviões-tanque o Brasil precisará para sustentar essa capacidade?
Se a FAB pretende ampliar sua capacidade de combate e sua presença estratégica, a expansão da frota de reabastecimento em voo poderá ser tão importante quanto a própria aquisição de novos caças. Afinal, um caça moderno representa poder aéreo, mas é o avião-tanque que transforma esse poder em alcance estratégico e projeção de força.
