A aquisição da Iveco Defence Vehicles (IDV) pelo Grupo Leonardo representa um marco na consolidação da indústria europeia de defesa e, ao mesmo tempo, uma oportunidade estratégica singular para o Brasil.
Ao integrar sob um mesmo grupo as capacidades de projeto de plataformas blindadas, sistemas de armas e eletrônica avançada, a Leonardo passa a atuar como um verdadeiro “prime contractor” no domínio terrestre, capaz de oferecer soluções completas e altamente competitivas no mercado global. Essa transformação não ocorre à margem do Brasil, ao contrário, ela se ancora diretamente na base industrial já estabelecida no país, especialmente na planta de Sete Lagoas, responsável pela produção da viatura blindada Guarani.
Nesse novo contexto, o Brasil deixa de ser apenas um operador de sistemas adquiridos no exterior e passa a integrar, de forma progressiva, uma cadeia global de alto valor agregado. A integração da operação brasileira à estrutura industrial da Leonardo abre caminho para a internalização de etapas críticas de produção, incluindo a montagem no país do chassi do Centauro II e a produção do seu principal sistema de combate.
Outro destaque é a o Centauro II, escolhido como a viatura de combate blindada de Cavalaria (VBC Cav) do Exército Brasileiro (EB) e um dos mais avançados veículos de combate sobre rodas do mundo, com seu poder de fogo está diretamente associado ao sistema de armas HITFACT MkII, desenvolvido pela própria Leonardo.
Mais do que uma torre, a HITFACT MkII é um sistema completo de combate, integrando a um poderoso canhão de 120mm, sensores optrônicos, computador balístico e controle de tiro digital de alta precisão, e é esse conjunto que define a capacidade de engajamento do Centauro II, permitindo operações com elevado nível de letalidade, inclusive em movimento.

A produção da HITFACT MkII no Brasil, portanto, não se limita à fabricação de um componente, mas representa o acesso ao núcleo tecnológico do sistema de combate. Trata-se de um sistema também adotado em plataformas como o Tulpar, da Otokar, o que evidencia sua maturidade e competitividade no mercado internacional. Ao internalizar essa capacidade, o Brasil passa a dominar tecnologias sensíveis que historicamente estiveram restritas a um número reduzido de países.
A montagem local do chassi da VBC Cav Centauro II, combinada com a produção do seu sistema de armas, configura um salto qualitativo na base industrial de defesa brasileira. Não se trata apenas de absorção tecnológica, mas de domínio de processos industriais complexos e de integração de sistemas de alto desempenho. Esse avanço ocorre em sinergia com o programa Guarani, que já consolidou uma cadeia produtiva robusta e um elevado índice de nacionalização.
Nesse contexto, surge uma das consequências mais estratégicas dessa nova configuração: a abertura do mercado internacional para o VBTP Guarani. Com a Leonardo atuando como integradora global e a produção brasileira inserida em sua cadeia, o Guarani passa a ter acesso a mercados antes inacessíveis, podendo ser ofertado como parte de soluções completas em concorrências internacionais, com suporte logístico global e padrões compatíveis com clientes exigentes.

Além disso, a presença da Leonardo no Brasil já é abrangente e estratégica, envolvendo os radares da família Kronos no sistema EMADS, recém apresentado como a escolha do EB, sensores embarcados em plataformas como o Saab Gripen E e o Embraer KC-390 Millennium, além dos canhões navais de 76mm nas fragatas da Classe Tamandaré. Esse ecossistema integrado reforça as condições para uma cooperação industrial mais profunda, que pode ser ampliada com iniciativas futuras, como a participação da indústria nacional em programas como o M-346.
O efeito combinado desses fatores é claro: o Brasil passa a reunir condições reais para se posicionar como um polo de produção e exportação de veículos blindados modernos. A montagem local do Centauro II, a produção do sistema de armas HITFACT MkII e a inserção internacional do Guarani não são iniciativas isoladas, mas partes de uma transformação estrutural em curso.
Se conduzido com visão estratégica e continuidade, esse processo pode recolocar o Brasil no mapa global da indústria de defesa — não apenas como operador de sistemas avançados, mas como produtor e exportador integrado a uma das mais relevantes cadeias industriais do mundo.

Uma resposta
Excelente artigo. A Leonardo vai se tornar uma parceira estratégica das Forças Armadas brasileiras.