Do avanço das forças especiais ao emprego massivo de drones, passando pela guerra de contrainsurgência e pela integração da inteligência, os conflitos iniciados após os ataques mudaram profundamente a forma como os EUA fazem guerra
Há exatos 25 anos o mundo mudou drasticamente depois de uma ação sem precedentes contra os Estados Unidos. Perpetrados pela Al-Qaeda, os ataques de 11 de setembro de 2001 deixaram quase 3000 mortos, a maioria concentrada em Nova Iorque, onde dois aviões atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center.
De imediato, as Forças Armadas dos EUA passaram a sofrer transformações que se estenderam pelas décadas seguintes e ainda são vistas atualmente. As mudanças atingiram diretamente a doutrina, organização, tecnologia, inteligência e formas de emprego. Ela foi construída ao longo das guerras do Afeganistão e do Iraque e das operações de contraterrorismo realizadas em diferentes partes do mundo.
O resultado foi uma força militar muito diferente daquela que existia antes dos atentados mais marcantes da história.
Da guerra convencional ao contraterrorismo
Antes da manhã de 11 de Setembro, o planejamento militar americano ainda estava fortemente orientado para conflitos convencionais contra outras nações. A perspectiva era a de empregar forças tecnicamente e numericamente superiores para derrotar rapidamente um adversário claro e organizado.
Quando os aviões foram sequestrados dentro do território estadunidense, essa lógica mudou. O terrorismo passou ao centro da agenda de segurança nacional e o Pentágono (também atingido nos ataques) passou a dedicar uma parcela significativa de seus recursos à identificação, perseguição e eliminação de organizações não estatais.

A mudança teve respaldo jurídico apenas sete dias após os ataques, quando o Congresso aprovou a “Authorization for Use of Military Force” (AUMF), que deu carta branca para o presidente empregar força militar plena contra os responsáveis pelos ataques e aqueles que os abrigassem. A medida forneceu a base legal para uma campanha militar que se estenderia por muitos anos e cujos mais diversos resultados ainda são bastante visíveis.
O impacto sobre a estratégia americana foi profundo. A Guerra Mundial ao Terrorismo (GWOT) exigiu uma enorme integração entre tropas convencionais e especializadas, recursos de inteligência e coleta de dados, plataformas não tripuladas, ações de forças especiais e atividades em conjunto com parceiros estrangeiros.
Como observa o “Center for Strategic and International Studies” (CSIS), o 11 de Setembro colocou a inteligência e o contraterrorismo no centro da estrutura de segurança americana, alterando prioridades que até então estavam voltadas para outros tipos de ameaça.
O novo peso das operações especiais
Os grupos de operações especiais estão entre as organizações que mais cresceram com a GWOT, que já possuíam grande importância dentro da estrutura militar dos Estados Unidos antes dos ataques.
As guerras no Afeganistão e no Iraque transformaram sua forma de emprego. SEALs, Rangers, Deltas, Marine Raiders, Green Berets, equipes da CIA e outras unidades intensificaram suas missões e desenvolveram novas formas para atuar em contraterrorismo, reconhecimento, ação direta, treinamento de forças locais e operações clandestinas.

Segundo o CSIS, desde 11 de Setembro os Estados Unidos mais que dobraram o tamanho de suas operações especiais e triplicaram seu orçamento. A comunidade de operações especiais também desenvolveu uma forma de atuação fortemente baseada em inteligência, tecnologias específicas e estruturas descentralizadas de comando.
A Operação “Neptune Spear”, que matou Osama bin Laden no Paquistão em 2011, tornou-se o exemplo mais conhecido dessa transformação. Os SEALs da Marinha dos EUA, que já acumulavam considerável prestígio desde a Guerra do Vietnã, ficaram na mira dos holofotes. Tão importante quanto a operação em si foi a estrutura que permitiu sua execução: inteligência de longo prazo, vigilância constante e flexível, ações de forças especiais, aeronaves, nós de comunicações seguras e capacidade de executar uma operação complexa a milhares de quilômetros dos Estados Unidos.
O Predator e a ascensão dos drones
Poucas tecnologias representam melhor a transformação militar pós-11 de Setembro do que o MQ-1 Predator. O drone não nasceu após os ataques. Historicamente, os Estados Unidos utilizaram modelos não tripulados ainda na Segunda Guerra Mundial e foram aperfeiçoando a tecnologia ao longo da Guerra Fria para diversas aplicações, em especial para vigilância e ataque terrestre.
O próprio Predator já estava na frota dos EUA antes da virada do século. No entanto, o período após o fatídico atentado acelerou o desenvolvimento dessas aeronaves de forma imensurável, consolidando os drones como meios de ataque, inteligência, vigilância e reconhecimento em uma única plataforma.
Um dos primeiros Predator enviados ao Afeganistão após os ataques tornou-se também um dos pioneiros a empregar os mísseis ar-solo Hellfire em combate. Segundo o National Air and Space Museum, foram 196 missões de combate no Afeganistão que contribuíram para estabelecer o conceito de aeronave remotamente pilotada armada.

A evolução continuou com o MQ-9 Reaper, maior, mais pesado e capaz de permanecer por períodos ainda maiores sobre uma área de interesse. O modelo da General Atomics é ainda hoje um dos principais em atividade no mundo e segue em constante evolução com a incorporação de mais capacidades.
A integração entre sensores e armamento de ataque alterou a dinâmica do combate. Um alvo podia ser localizado, acompanhado e neutralizado pela mesma plataforma, enquanto a tripulação permanecia nos Estados Unidos. Sistemas não tripulados de longa permanência foram particularmente eficazes nas missões de contraterrorismo que ganharam prioridade depois após os atentados.
Hoje o mundo vive a 2ª Revolução dos Drones, fruto da Guerra Russo-Ucraniana de 2022 e dos conflitos no Oriente Médio. Mas não há dúvidas de que o cenário contemporâneo tem suas raízes no período pós-ataques.
Guerra diferente, nova doutrina
A derrubada do Talibã no Afeganistão e do regime de Saddam Hussein no Iraque deu lugar a um problema muito mais complexo: como controlar territórios e combater adversários que não utilizavam as mesmas estruturas de uma força militar convencional?
Os Estados Unidos tiveram de adaptar suas Forças Armadas à guerra de insurgência, ao combate urbano e às operações de estabilização.
Em 2006, Exército e Corpo de Fuzileiros Navais publicaram o “FM 3-24 Counterinsurgency”, consolidando conceitos aprendidos no Oriente Médio. Operações de contrainsurgência, permanência e estabilidade passaram a receber uma importância que anteriormente era esquecida na doutrina americana. O CSIS aponta que essas mudanças foram posteriormente institucionalizadas em diretrizes e manuais do Departamento de Defesa.

Paralelamente surgiram equipamentos diretamente associados a esse tipo de conflito. Os veículos Mine-Resistant Ambush Protected Vehicle (veículo blindado resistente a minas e emboscadas, MRAP), por exemplo, foram desenvolvidos e adquiridos em grande escala para proteger tropas contra minas e artefatos explosivos improvisados, uma das principais ameaças enfrentadas pelas forças americanas no Iraque e no Afeganistão.
Por outro lado, a experiência também mostrou os limites da tecnologia. Mesmo com investimentos altíssimos, sensores, drones e armas guiadas forneciam uma enorme vantagem sobre o adversário, mas não substituíam completamente tropas no terreno, inteligência humana e conhecimento do ambiente local. Estudos da RAND Corporation já apontavam durante aquele período que as lições das guerras de insurgência e conflitos de baixa intensidade exigiam capacidades diferentes daquelas associadas à chamada transformação militar convencional.
Inteligência no centro
Outra transformação menos visível, mas talvez tão importante quanto, ocorreu na área de inteligência.
O 11 de Setembro revelou falhas na capacidade americana de reunir informações produzidas por diferentes órgãos e transformá-las em uma visão integrada da ameaça. A resposta foi uma profunda reorganização da comunidade e uma tentativa de reduzir os chamados silos institucionais.

O objetivo passou a ser compartilhar informações de maneira mais ampla e rápida, aproximando inteligência, operações especiais e unidades operacionais. A criação do “Office of the Director of National Intelligence” (Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional, ODNI) foi uma das principais consequências institucionais desse processo. A estrutura foi criada para melhorar a coordenação entre as diferentes organizações de inteligência americanas, uma das recomendações centrais da Comissão do 11 de Setembro. O CSIS ainda aponta essa reforma como uma das principais mudanças produzidas pelos atentados.
Na prática, isso também alterou a forma de fazer guerra e a inteligência deixou de ser apenas uma atividade de apoio e foi inserida no próprio ciclo operacional: encontrar o alvo, identificá-lo, acompanhá-lo, decidir quando agir e avaliar o resultado pós-ação.
Transformação ainda presente
Um quarto de século depois dos ataques, muitas das características introduzidas ou aceleradas pelo 11 de Setembro continuam presentes nas Forças Armadas americanas, mas têm sido modificadas ou pelo menos reavaliadas frente aos conflitos mais recentes. As operações especiais mantêm um papel estratégico, os drones evoluíram de plataformas de reconhecimento para sistemas cada vez mais sofisticados e a integração entre sensores, inteligência e armas tornou-se uma característica central da guerra moderna.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos passaram a reconhecer que o modelo construído durante a GWOT não responde sozinho aos desafios atuais. A partir de 2018, por exemplo, o próprio Departamento de Defesa passou a definir a competição entre Estados, especialmente com a China, como sua principal preocupação, reduzindo a centralidade que o terrorismo havia ocupado desde 2001. O CSIS observa, porém, que a estrutura criada durante a Guerra ao Terror não desapareceu.

É justamente aí que está uma das principais heranças do 11 de Setembro. As Forças Armadas dos Estados Unidos entraram no século XXI pensando principalmente em guerras convencionais e passaram duas décadas aperfeiçoando capacidades para combater organizações terroristas e insurgências. Hoje, precisam recuperar capacidades para uma eventual guerra de alta intensidade sem abandonar ferramentas que nasceram ou amadureceram naquele período.
Drones, forças especiais, inteligência em tempo real, operações de precisão e guerra irregular continuam fazendo parte da força americana, mas agora combinados com novas prioridades, como guerra eletrônica, espaço, defesa contra drones e operações em múltiplos domínios. O resultado é uma força que ainda carrega, em sua estrutura e em sua forma de combater, uma marca profunda deixada pelos acontecimentos de 11 de setembro de 2001.
Esse artigo é dedicado aos 343 bombeiros de Nova Iorque que faleceram nos ataques ao World Trade Center há 25 anos.