O Cardom em ação! Acompanhando o pelotão de morteiros pesados da IDF

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2015

Kaiser David Konrad, da Faixa de Gaza

A Brigada de Infantaria Nahal é uma das mais bem treinadas unidades das Forças de Defesa de Israel (FDI). Parte da 162ª Divisão, está subordinada ao Comando Central do Exército de Israel (Tzahal). Criada em 1982 em resposta à crescente necessidade de tropas de Infantaria durante Primeira Guerra do Líbano, ela é atualmente formada por recrutas regulares, muitos deles soldados oriundos do Kibbutz Nahal Oz, situado no Sul de Israel, e onde vivem muitos imigrantes da Argentina. A unidade tem uma característica que é ser um tipo de serviço militar obrigatório combinado com voluntariado social e trabalho nas comunidades agrícolas.

A Brigada também tem sido a escolha de muitos dos judeus da Diáspora que querem servir às FDI como voluntários, o que fez dela uma unidade altamente motivada e disciplinada. Dividida em quatro batalhões, respectivamente o 50º, 931º, 932º e 934º (um deles de reconhecimento e inteligência visual), trabalha em rodízio nos patrulhamentos das fronteiras mais conturbadas do país, como Líbano, Síria, Cisjordânia e Faixa de Gaza. Como uma grande unidade de operações especiais a Brigada Nahal conduz patrulhas e vigilância de fronteira, operações antiterrotistas e de controle de distúrbios, além do suporte ao assalto tático. Durante a primeira Intifada foi responsável por criar a doutrina de emprego da tropa em operações antiterroristas e de combate urbano.

Operação Limite Protetor

Em 08 de julho de 2014, o Tzahal, apoiado pela Força Aérea lançou na Faixa de Gaza uma operação designada “Limite Protetor”, em resposta aos milhares de foguetes lançados pelo Hamas contra cidades israelenses. A operação visava também destruir a rede de túneis construída pelo grupo extremista que ameaçava a segurança da população nas cidades próximas, além de servir de esconderijo de armas e munições. Uma verdadeira cidade subterrânea interligava as posições do Hamas e dava liberdade de manobra evitando serem localizados pelas aeronaves remotamente pilotadas israelenses. O que era para ser mais uma rápida operação para destruir as capacidades inimigas acabou virando uma invasão de média escala e, consequentemente, uma dor de cabeça aos estrategistas israelenses. Já se sabia que a campanha de ataques aéreos não seria suficiente. Era preciso uma ofensiva por terra, vasculhando casa por casa, rua por rua. Mas isso poderia ter um custo alto. O pesadelo do combate urbano em território inimigo estava por vir. E para lá foram desdobradas duas unidades de elite das FDI, as Brigadas Golani e Nahal, para uma operação que somente a Infantaria era capaz de realizar.

Dentro de Gaza

As operações em localidade trazem imensos riscos aos soldados e aos civis, e as forças defensoras têm sempre a vantagem de conhecer o terreno onde lutam, atraindo o adversário para emboscadas, impondo seu modo de lutar. Sempre que as tropas israelenses progrediam dentro de Gaza os civis eram avisados através de mensagens de SMS e também por panfletos lançados por caças A-4N Skyhawk. Israel se esforçava ao máximo para evitar vítimas civis, mas esta era a verdadeira arma do Hamas e sua grande estratégia: vencer a guerra não no campo de batalha, mas através da manipulação da opinião pública internacional transmitindo imagens de crianças mortas e da infraestrutura pública e religiosa destruída. O Hamas instalara, propositalmente, suas baterias de foguetes sobre escolas, hospitais, abrigos e mesquitas, ou escondia seu arsenal nesses locais. Somente uma ofensiva terrestre poderia acabar com aquilo.

O 50º batalhão de Infantaria, da Brigada Nahal, foi acionado e entrou com três pelotões em Gaza. Os soldados recebiam em tempo real imagens aéreas enviadas por ARPs e sua localização georreferenciada no terreno através de um tablet militarizado. Pelas ruas e vielas a situação era realmente muito perigosa, e as tropas recebiam fogo direto de armas leves e RPGs. Os integrantes do Hamas ficavam escondidos em esquinas, janelas ou sobre as lajes dos prédios. Todas as vezes que era necessário entrar em alguma edificação, era preciso usar explosivo para detonar as paredes, pois o Hamas sempre coloca explosivos presos às aberturas, escondidos atrás de portas e janelas, mas isso geralmente causava mais vítimas entre os próprios moradores do que entre soldados israelenses, que já conhecem bem a tática. Explosivos improvisados acionados remotamente eram uma das principais fontes de preocupação. À medida em que o Nahal avançava pelas ruas a resistência ficava mais forte. Num dado momento a tropa foi emboscada e necessitava requisitar apoio de fogo imediato. Pelo rádio o comandante acionou o pelotão de morteiros pesados. Mas onde estavam eles que não haviam entrado na cidade?

Apoio de fogo

Por doutrina operacional, os pelotões de morteiros (um para cada batalhão) trabalham na retaguarda e na maioria das vezes nem enxergam diretamente o combate. E isso acontece graças à tecnologia incorporada aos novos morteiros e suas munições, fazendo deles armas inteligentes e com alta precisão, ideais para operar em combate urbano, onde se procura evitar danos colaterais, vítimas civis e a destruição de infraestruturas críticas e adjacentes aos alvos.

A sete quilômetros de distância da Faixa de Gaza estava estacionado o pelotão de morteiros pesados de 120mm. As peças estavam instaladas dentro de veículos blindados M113A3 que eram protegidos por muros de concreto colocados pela engenharia de combate e um MBT Merkava. Cada pelotão era formado por 25 soldados e composto por quatro peças, sendo os morteiros de 120mm a arma mais pesada utilizada pelos batalhões de infantaria israelenses. Conhecidos no Tzahal como Keshet, esses morteiros com amortecimento podem lançar diferentes tipos de granadas explosivas, de fumaça, sinalização, iluminação, e também uma variada gama de munições inteligentes, inclusive guiadas por laser. A peça tem nome comercial de Cardom e é produzida pela Soltam, uma empresa israelense referência mundial em sistemas de artilharia e recentemente foi adquirida pela Elbit Systems.

O Soltam Cardom em operação

No posto de comando o tenente recebeu do oficial no terreno as coordenadas do alvo, que foram adquiridas através de binóculos Coral CR com telêmetro laser, sendo imediatamente extremaretransmitidas às viaturas. Cada peça pode lançar até 16 granadas por minuto e, naquela operação, o pelotão encontrava-se a 7 km de distância e podiam atingir os alvos com precisão de apenas um metro. O Keshet pode receber dados de sensores de aquisição de alvos e também está interligado ao sistema digital de apoio de fogo Zayad, usado pelo Exército Israelense. O sistema de direção de tiro do Cardom permite fazer o tiro com precisão apenas poucos segundos após a parada da viatura, enquanto o amortecimento possibilita que seja instalado em veículos leves.

Os pelotões de morteiros pesados dos batalhões de infantaria foram os principais responsáveis por prover apoio de fogo às tropas emboscadas que lutavam em Gaza. Ao receber as coordenadas exatas dos alvos, que na maioria das vezes estavam apenas a algumas dezenas de metros das forças amigas, o fogo de morteiros era capaz de atingir com precisão métrica sem que fosse necessário fazer uso de mísseis anticarro ou trazer os Merkava para dentro da cidade. Isso diminuía a possibilidade de baixas de não combatentes, pois o alvo era identificado e confirmado visualmente e adquirido com sistemas eletro-ópticos de precisão, evitando também a ocorrência de fratricídio. No combate com o uso do Cardom não havia necessidade de ajuste de fogo, a tecnologia do morteiro fazia a primeira granada atingir o alvo.

Terminada quase dois meses depois, a operação “Limite Protetor” teve um custo alto às FDI, com saldo de 66 soldados mortos, a maioria deles membros das forças de elite. Mas se não fosse a tecnologia militar envolvida, o resultado teria sido muito pior, pois lutar em ambiente urbano restringe a liberdade de manobra e a eficácia do emprego de veículos blindados e carros de combate. Nesse conflito, o apoio de fogo dos pelotões de morteiros foi essencial para atingir os objetivos táticos, neutralizando as ameaças e destruindo as posições e infraestruturas inimigas, sem que para isso tenha sido necessário expor as subunidades e seus veículos num combate aproximado. O Keshet, ou Soltam Cardom, foi uma ferramenta essencial ao trabalho; sem ele, teria sido muito mais difícil lutar naquele terreno.

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