GT Nova Couraça e os desafios no reequipamento da Força Blindada (EB)

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Por Paulo Roberto Bastos Jr e Roberto Caiafa

No dia 12 de junho de 2019, o Comando do Exército publicou a Portaria N º 162-EME que alinhava, dentre outros, a implantação da Iniciativa Estratégica Forças Blindadas, objetivando a integração das ações e obtenção, modernização e/ou revitalização dos blindados, em consonância com o Planejamento Estratégico do Exército e alinhado com a sua diretriz, criando assim o chamado Grupo de Trabalho (GT) Nova Couraça.

Após esta apresentação algo vago e sem definição, seguiu-se por dois meses uma série de estudos de propostas e equipamentos, levando em conta as restrições orçamentárias da força e os contingenciamentos de verba, culminando, no inicio de setembro, na confecção de um relatório com mais de 400 páginas, apresentado na segunda semana de setembro ao Estado Maior do Exército.

Dentre as inúmeras conclusões do documento, ao qual tivemos acesso, destacaremos nesse artigo aquilo que consideramos mais interessante:

Brigadas Blindadas

Composta pelas 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (5ª Bda C Bld) e 6ª Brigada de Infantaria Blindada (6ª Bda inf Bld), elas são a principal força de ação de choque do EB, possuindo ao todo quatro Regimentos de Carros de Combate (RCC), equipados com VBC CC Leopard 1A5 BR; quatro Batalhões de Infantaria Blindada (BIB), com VBTP M113-BR (7º, o 13º, o 20º e o 29º) ; dois Batalhões de Engenharia de Combate Blindado (BE Cmb Bld) e dois Batalhões Logísticos (Blog), com diversos veículos especializados; dois Grupos de Artilharia de Campanha Autopropulsado (GAC AP), com M108 e futuramente M109A5 BR++; duas Baterias de Artilharia Antiaérea Autopropulsada (Bia AAAe Ap), com Gepard 1A2; e diversas outras unidades complementares.

Foto: Roberto Caiafa

O programa Leopard 1A5 BR modernizou a força blindada do EB, em que pese várias críticas considerando o custo de introdução. Todavia, os resultados alcançados colocaram os carros de combate Leopard 1A5 resultantes em um patamar de operacionalidade nunca experimentado pela força, mesmo considerando-se o problema do ressuprimento de munições, devido ao fato de seu sistema de tiro, principalmente seu computador balístico, estar programado para ser efetivo apenas com o emprego de munição padrão OTAN.

Como a munição de 105 mm no padrão OTAN não é mais produzida surgiu dúvidas quanto à continuidade do programa. Uma das propostas apresentadas pelo GT Nova Couraça envolve a modernização de toda parte eletrônica da torre do Leopard 1A5 BR, propondo a troca de seu sistema de controle de tiro e aquisição de alvos e a substituição do seu sistema de giro hidráulico por outro mais moderno, elétrico, aumentando a eficiência operacional e permitindo a utilização de munição de outros fornecedores, mantendo assim o mesmo padrão de acerto da original, a solução contando com o uso de tecnologia israelense e a transferência dessas capacidades para a indústria nacional.

Os trabalhos de modernização são executados no Brasil e contam com transferência de tecnologia. (Imagem: BAE Systems)

Outro problema enfrentado por essas Brigadas é a dificuldade das VBTPs M113-BR cumprirem sua função de acompanhar os carros de combate, com um grupo de fuzileiros equipados, e garantir o apoio a estes. Apesar dos veículos serem submetidos a recente e extenso programa de modernização, efetuada no Parque Regional de Manutenção/5 (Curitiba/PR), com a instalação de pacotes de modernização da BAE Systems que contam, dentre outras modificações, com a substituição de seu motor e transmissão, o mesmo não atingiu as necessidades do EB em sua plenitude.

Diante deste fato, deverá ocorrer brevemente a aquisição de um lote de Veículos de Combate de Infantaria (VCI ou IFV, Infantry Fighting Vehicle) Marder 1A3/1A5, dos estoques da empresa alemã Rheinmetall Land Systems, modernizados antes da entrega com apoio da indústria israelense, equipando-os com o míssil anticarro Rafael Spike ER.

Essa aquisição, apesar dos custos envolvidos, aumentaria exponencialmente a capacidade operacional da Força Blindada do EB. Caso essa aquisição não se efetive, as M113 deverão ser equipadas, alternativamente, com a estação de armas REMAX da Ares Aeroespacial e Defesa.

Foto: Michael Schutze

No caso dos BE Cmb Bld e Blog´s o principal gargalo operacional é a pequena quantidade de viaturas especializadas, principalmente as Lança Pontes, e a sugestão é que sejam adquiridos mais veículos, incluindo aí os do tipo engenharia.

Fotos: Michael Schutze.

Brigadas de Cavalaria Mecanizada 

O EB conta com quatro dessas Brigadas que tem como sua principal unidade os Regimentos de Cavalaria Blindado (RCB). Estes estão equipados com os antigos Leopard 1BE, conhecidos no EB como 1A1, (4º, 6º e 9º RCB) e com os norte-americanos M60A3 TTS (20º RCB).

Devido ao fato desses veículos serem antigos, estarem bastante desgastados e não contarem com um contrato logístico como os da versão 1A5, eles enfrentam um grave problema de baixa disponibilidade, havendo unidades que não conseguem sequer colocar um pelotão completo em linha. Este é um problema que já existe há alguns anos, e não existem estoques da versão 1A5 em quantidades necessárias para atender a demanda, apesar das inúmeras buscas feitas pelo mundo.

Foto: Roberto Caiafa

Diante desse fato, pretende-se adquirir um novo lote de VBC CC Leopard, porem das versões 1A4 ou 1A3, diretamente dos estoques da Rheinmetall Land Systems, para equipar essas unidades. Não é a solução ideal, mas trará os RCB para um nível operacional considerado satisfatório.

Brigadas de Infantaria Mecanizada – Programa Guarani

O Programa Estratégico do Exército Guarani representa um dos mais ambiciosos projetos de modernização do EB, pois visa a transformação de Brigadas de Infantaria Motorizada em Mecanizadas, com a implantação das viaturas da família Guarani e a completa mudança operacional destas, garantindo mais mobilidades e poder de fogo para essas novas unidades. Atualmente apenas uma brigada, a 15ª Bda Inf Mec, passou pelo processo, mas a transformação de outras deverão acontecer assim que o programa esteja maduro o suficiente.

Devido aos constantes problemas orçamentários, muito bem explicados pelo General de Divisão Ivan Ferreira Neiva Filho, chefe do Escritório de Projetos do Exército Brasileiro, em Explanação a respeito do atual estágio do Projeto Estratégico Guarani na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Congresso Nacional, no dia 11 de setembro, que estenderam em cerca de dez anos a sua conclusão, o programa vem sofrendo atrasos de entregas e desenvolvimento de versões especializadas dessas viaturas, ocasionando atrasos hiatos de tempo no desenvolvimento da nova doutrina mecanizada a ser implantada pelo EB.

Para fazer frente a esse grave problema, foi proposta a aquisição de um pequeno lote de VBR-MR Centauro B1 8×8 (fala-se em um lote de 45 exemplares), munidos com o canhão de 105 mm, que seriam adquiridos usados do Exército da Itália e recuperados pela Iveco Veículos de Defesa, em Sete lagoas/MG, sendo praticamente descartada qualquer tentativa de modernização das VBR EE-9 Cascavel.

Foto: Kaiser Konrad.

Também foi proposta a desativação gradual das viaturas ENGESA EE-11 Urutu, as em melhor estado sendo recuperadas e transformadas em Viaturas Blindadas Especializadas (VBE) Posto de Comando, Engenharia, Oficina e Ambulância, permitindo assim a capacitação operacional da Brigada e a criação efetiva da doutrina.

Lembrando que dentro do Programa Guarani existe um subprograma chamado Guarani 4×4. Após uma acirrada avaliação técnica/comercial, entre 2014 e 2016, foi selecionada a viatura Iveco LMV.

Espera-se para o final de 2019 a assinatura do contrato de aquisição, com um lote inicial de 32 viaturas. Importante ressaltar que os novos LMV-BR pretendidos nada tem a ver com veículos Lince adquiridos de 2ª mão do Exército Italiano e usadas pelo Gabinete de Intervenção Federal no Rio de Janeiro no ano de 2018.

Foto: Roberto Caiafa

Conclusão
Além das propostas acima foram delineados diversos níveis de prontidão operacionais das Brigadas, indo desde 100% a 25% de operacionalidade, dependendo dos recursos disponíveis.

As soluções definidas pelo GT Nova Couraça não estão no patamar “ideal”, mas são inteligentes e extremamente realistas, pois respeitam a atual situação econômica que o País encontra-se, apresentando propostas factíveis que garantem a continuidade dos atuais programas e aumentam consideravelmente a capacidade operacional da força.

Obviamente, é necessário acrescentar que as viabilidades das propostas listadas dependerão da disponibilidade de verbas e dos acordos a serem negociados entre o EB e as empresas interessadas.

AÇO!!!

18 Comentários

  1. Não entendo uma política que acabou com nossa indústria bélica e agora fica adquirindo sucata estrangeira.
    Isso é difícil explicar.

  2. Prezado Roberto Caiafa,

    Excelente matéria. Considerando que é rara a literatura desse tema no Brasil, e ainda mais o fato da riqueza de detalhes do artigo, gostaria de parabenizar pelo excelente texto.
    Faço apenas uma ressalva acerca da ausência das legendas nas fotos.
    Agradeço se puderem cadastrar meu e-mail para receber mais notícias semelhantes.

    Saudações,
    Leonardo Lucena Melo. 2o ten Reserva do Exército.

  3. Nada disso vai se concretizar, a força aérea não tem dinheiro para concluir nem mesmo os contratos já fechados.

  4. Como o Brasil já tem uma oficina no RS dos Leopardos e nossos mecânicos do exército já conhecem o blindado, o mais sensato seria comprar a versão 2A7 modernos no exterior, de forças que estão se desfazendo desses veículos… Com esse carro de combate, não teríamos problemas de dissuasão de qualquer acressor externo, precisaríamos de no mínimo uns 150 veículos distribuídos no Sul 50unidades, Centro Oeste50 unidades e Norte 50 unidades…!

    • de onde viriam os bilhões de dólares para isso? pois duvido que 150 unidades mais acote logístico e atualização das instalações da KMW a torre é mais bem mais pesada do que a atual…fora os motores etc…

    • Caro Andre, leopardos de qualquer versão usados em estado razoáveis são raros pois com o alto custo de um mbt novo e o recrudescimento das relações OTAN/Rússia td mundo esta usando o mbt ate osso. Aproveito para parabenizar a elaboração desta reportagem , curta e clara.

  5. Caiafa, todos sabemos das limitações orçamentárias, mas não seria prudente a compra de um lote piloto (30und) de Leopard 2A6 ou 2A7, para a substituição do M-60 A3TTS, porém ficando baseados no Sul e os Leopard 1A5 iriam para o Centro-Oeste. Com isso, ao invés de gastar o rios de dinheiro com modernização de um aparelho dos anos 70/80, concentraríamos todos os nossos canhões para uma plataforma nova e com pelo menos 40 anos de uso. Sei que tem muita gente altamente preparada coordenando esses projetos, mas até para custo benefício, o interessante é um projeto com muitos anos de vida no estado da arte pela frente.

  6. É factível, mas depende de verba, grana, fundo de custeio, ainda acho que ficaríamos nas mãos dos alemães (rheinmetal) e Israelenses, provavelmente Elbit e Rafael (spike ER), outra coisa é esses 45 centauros meia boca, e ainda tem que recuperar e dar uma guaribada na IVECO lá de Minas, quer saber de uma coisa entrega o cascavel para a Equitron, mantém o canhão de 90 mm, que nós antigamente fabricava a munição 90 mm e tenta arrumar um novo fabricante dessa munição aqui no Brasil, esquece os centauros usados até que tenha dinheiro para desenvolver uma versão de reconhecimento armado do Guarani, talvez 8×8 no futuro.
    Quanto aos Marder com armamento (spike ER) ,acho melhor esquecer vai ficar caro, tenta adaptar o nosso míssil anticarro nos M113 e coloca em outros o reparo da REMAX da ARES e tá mais que bom para esse momento de crise.
    Quanto aos Leopard 1 A5 aí sim temos que pensar melhor o que fazer e analisar um financiamento externo para adquirir outro CC moderno no mínimo com canhão de 120 mm, pois os países de 1º mundo já estão com 125 mm, 130 mm e fala-se em 140 mm, olha a porrada desses canhões. O governo tem que tentar um acordo governo a governo com financiamento com os US, Israel, Inglaterra, quem sabe aí passa os leopard 1 A5 para os RCB e vai usando até a casca.

  7. Caiada, bom.dia.
    uma dúvida
    O EB, até onde me consta, tem um lote de uns 60 M60 A3TTS em guardados. Considerando que provavelmente estes carros devem estar em melhor estado operacional que os Leopard 1A1, não seriam uma solução melhor para substituir estes nos RCB, pelo menos até que o EB adquira um novo modelo de Carro de Combate para a força blindada?

    • Tem um kit israelense para o m60 que parece ser bem razoável, a turquia tem 170 mbts com esta modernização que inclue canhão 120 mm.

  8. Estou vendo uma movimentação das FFAA e do governo sobre o reaparelhamento. Entendo que o governo pretende investir fortemente para recuperarmos nosso poder de dissuasão, temos que lembrar que muitos setores da sociedade civil, como as mídias, são contra o fortalecimento de nossas “armas” por motivos bastantes conhecidos, cabe ao governo agir de forma cautelosa e inteligente para não “alertar a lebre”. Acredito que seja isso que esteja acontecendo.

  9. Muito bem construído e opinado. Boa matéria, tanto esta assim como outras que vi.
    Respondendo à questão do desmonte de nossas forças armadas, sempre houve a intenção de “não sermos muito armados”. Isto por que os EUA nos consideraram e consideram seu quintal, para produzir comida, roupas, reserva de água, campos agricultáveis e para a fabricação de veículos e motores indesejados nos EUA. Ademais, implicitamente está, que seremos sempre defendidos por eles, por sermos continentais a eles. Mas nos cabe na atualidade, sabermos que isso não basta, temos que poder refrear e ou intimidar o suficiente, gerando insegurança no sucesso de qualquer tentativa de investida, bem como darmos tempo para sermos “socorridos”. O quanto poderemos fazer, depende de nossos investimentos ufanísticos da atualidade, e da construção de infra-estrutura que permita a mobilidade por diversos modais, sejam, férreos, fluviais e ou aéreos maximizando nosso ativos militares. Nosso comando militar conhece bem os terrenos, dificuldades e pontos positivos para isso, mas ainda depende de algum material que lhe dê mais poder de ação. Acho que o programa Gripem com 120 aeronaves, tanques meio pesados de boa blindagem e poder de fogo, mobilidade protetiva aos infantes, com uma marinha furtiva e guerrilheira, poderemos obter algo interessante. Mas até que as disponibilidades financeiras e nossa própria indústria bélica nos permita isso, teremos que conviver com programas meia boca mesmo, infelizmente.

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